Dando Voz Aos Seus Personagens

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Uma das coisas que se ouve enquanto falando (ou lendo) sobre escrita é a voz do escritor. Eu gosto de defini-la como o conjunto de características, como estilo, escolha de palavras e afins que diferenciam o texto de um escritor do outro. O “jeitão” da prosa.

 

Muita gente fica preocupada com criar uma voz de escritor que seja boa, procurando jeitos de melhorar sua voz, de caracterizá-la como algo diferente dos outros escritores. Eu acho que isso é uma batalha perdida. Pra mim, a sua voz virá naturalmente com a prática. Escreva do seu jeito, questione-se a todo o momento, seja bastante autocrítico, e voilá, você provavelmente criará o seu próprio jeito de ordenar as palavras. Siga a gramática e tá tudo certo.

 

Uma outra coisa bem diferente, embora parecida, é a voz do personagem.

 

Voz do Personagem


Livros em primeira pessoa são um exemplo claro disso: quem está escrevendo não é o escritor, é o personagem. E esse personagem tem a sua própria forma de enxergar o mundo, de conversar e de contar a sua história. Cada personagem tem a sua voz. E aí entra a primeira parte difícil: a voz do personagem é diferente da voz do escritor.

 

Como? Não é o escritor escrevendo, de qualquer forma? Como que ele pode ter duas vozes? Bom, aí podemos entrar num debate filosófico, “você só é capaz de escrever personagens que, de uma forma ou outra, fazem parte de você” (mais ou menos como discuti aqui), mas vamos esquecer esse debate por ora.

 

Criar uma voz de personagem é um jeito de deixar a sua narrativa mais imersiva, fazer o leitor mergulhar na cabeça dos personagens, acreditar que eles são pessoas de verdade. Uma boa voz é aquela que fica na cabeça, que você consegue distinguir das outras. Isso fica claro em narrações em primeira pessoa, mas também é presente em narração na terceira pessoa.

 

Maneiro, mas como faço isso?

 

Não tema, Ficcionado! Vamos a algumas dicas, e fique ligado no exemplo do final!

 

Dando Voz aos Personagens


O primeiro passo é um tanto óbvio: conheça o seu personagem. Saiba tudo sobre ele. Saiba seu histórico, suas maiores influências, o que ele ama e despreza. Criar uma voz a partir disso é só uma questão de prestar atenção em várias coisas:

 

Cuide com a Escolha de Palavras

O seu personagem é um cientista? Bom, ele vai saber uma porção de termos técnicos pra descrever as coisas. O que ele descreveria como um trapezóide irregular quem sabe seja apenas um quadrado torto pra alguma outra pessoa.

 

Cuide cada palavra, cada termo usado, e pense se aquela pessoa usaria isso, baseado no seu histórico. Como uma criança descreve uma coisa? Como essa descrição é diferente de um adolescente, um adulto, um velho? Procure as palavras que essas pessoas usariam. Cada um de nós tem as suas palavras preferidas para as coisas: quais são as palavras do seu personagem?

 

Note o que o Personagem Nota

Seu personagem é um músico? Talvez ele note a música de cada ambiente, tomando um momento a mais para descrevê-la e senti-la. Ele vai saber quais são as melodias clássicas tocadas, e pode usar termos mais técnicos para descrever os sons e instrumentos.

 

Um personagem que não liga para música pode nem notar, e o escritor nem precisa descrever a música que toca.

 

Esse é um ponto interessante. Imagine a cena, coloque-se dentro dela, veja todos os detalhes. E agora pense em quais detalhes o seu personagem se daria ao trabalho de descrever, quais pedaços da cena ele nota, o que chama a atenção dele. Todos nós reagimos de formas diferentes quando entramos em novos ambientes, baseado nos nossos interesses pessoais, nossas curiosidades e desejos. Torne isso claro com as suas descrições.

 

Talvez o seu personagem músico fique tão imerso nos sons que nem perceba o incêndio no canto da sala.

 

Pense nas Limitações do Personagem

Seu personagem é muito tímido? Quem sabe ele não olhe os outros nos olhos, e, por isso, seja incapaz de descrever muito bem as pessoas. Ou seu personagem pode ser um sociopata, que não consegue empatizar e compreender as emoções dos outros.

 

Tenha em mente o que o seu personagem sabe e o que ele não sabe fazer. O que ele é bom e o que ele é ruim. Pense no que passaria pela mente dele. Seu personagem arquiteto anda pelas ruas? Quem sabe ele reclame dos prédios feios. Seu personagem engenheiro passa por uma ponte? Ele pode ficar tentando calcular se ela é estável.

 

Separe Bem Você do Seu Personagem

Todos temos nossos vícios. Frases que gostamos mais, palavras preferidas, jeitos de contar histórias. E a parte difícil é que não percebemos esse tipo de coisa com facilidade.

 

Então a dica é tentar perceber. Note como você mesmo fala, quais frases você costuma usar, suas palavras preferidas. E, enquanto escreve como outra pessoa, tente achar esses padrões e retirá-los. Quem sabe a velhinha da sua história não acha que algo é “maneiro”, como você sempre diz, ela acharia “bacana”. Quem sabe seu personagem mais insensível não descreveria tudo com tanta emoção, como você gosta de fazer.

 

Então, além de conhecer o seu personagem tente se conhecer também. Entenda o que você faz, como você usa a língua, e procure identificar e afastar esses padrões de personagens que são diferentes de você.

 

Interpretação e Prática


No final, essas dicas todas acabam chegando no ponto mais importante: interprete o seu personagem. Escrever uma pessoa é emulá-la; faça isso. Torne-se o seu personagem, pense como ele, fale como ele, veja como ele. Isso tudo é muito difícil, mas facilita praticar.

 

Um exercício que eu gosto para ajudar a desenvolver a voz de um personagem é uma cena de mercado.

 

O exercício é simples: o personagem entra no mercado (pode ser um supermercado, mas eu imagino mais um desses mercados de rua de metrópole, cheios de coisas diferentes), querendo alguma coisa. Uma cena simples, aplicável a qualquer pessoa. Você pode escolher até o que ele quer — pessoas diferentes querem coisas diferentes — e qual o conflito da sua cena (algo tem que acontecer, na maioria dos casos). Ou quem sabe nem se preocupe muito com isso. Só escreva o personagem entrando no mercado, e narre o que acontece. Viaje com ele, sinta com ele, veja o que dá. Escreva sem pretensão.

 

Esse tipo de exercício é muito interessante, também, para experimentar com exposição. Não comece dizendo “fulano é assim assado e por isso reagiu desta forma”. Mostre isso.

 

Bolei alguns exemplos curtos pra exemplificar o que estou dizendo. Fiz isso tanto em primeira quanto em terceira pessoa, para tentar exemplificar as diferenças. Dá uma olhada nessas quatro pessoas no mercado, e veja se você enxerga a diferença na voz que usei para cada uma:

 

Eu cheguei e o mercado estava cheio, o que me deixou contente. As barracas de comida cheiravam bem. Meu estômago roncou enquanto eu caminhava perto delas, mãos nos bolsos. Daqui a pouco encho você, pensei. As barracas de coisas caras sempre ficavam no fundo do mercado.

 

Logo ouvi os vendedores falando de bolsas, tapetes, até jóias: coisa que não se compra com uma nota só. Desta vez essas barracas estavam mais próximas dos vendedores de livros, uma das sessões mais cheias (e chatas) de todo o mercado.

 

Os bolsos das pessoas naquela região eram mais cheios que no resto do mercado. Um homem gordo era o alvo perfeito: esses demoram mais a notar um peso a menos, e correm mais devagar. Meu estômago roncou de novo. Daqui a pouco, daqui a pouco…


João é um batedor de carteira simples. Ele tem fome, então nota logo os cheiros de comida. Veja como ele usa palavras mais simples para descrever as coisas; infelizmente, João não é um cara muito estudado. Ele presta atenção só no que interessa.

Era um dia lindo para caçar livros, coisa que a cidade inteira deve ter notado. Quando entrei no mercado ele já estava cheio de gente suada, fedida e feliz. As barracas de comida eram todas tão sujas, como tanta gente conseguia comer dali?

 

Esgueirei-me rápido entre as pessoas, tentando com muito cuidado não encostar em ninguém. Como sempre, o mercado era cheio de figuras estranhas, garotos encapuzados assustadores, homens berrando e toda a sorte de coisas desconfortáveis. Segurei a minha bolsa bem perto de mim, com os braços cruzados na frente do peito. Ah, o que eu não faço pra tentar encontrar uma boa raridade…

 

As barracas de livros, como sempre, eram em sua maioria desinteressantes. Passei os olhos, a boca torcida, pelos vários volumes em brochura, alguns em péssimo estado. Eu já havia encontrado ali um livro de capa dura assinado pelo Machado em pessoa, imagine você! Só de lembrar nisso suspirei, mas logo estava de volta no mercado cheio, quente e desagradável. Aquela memória me fazia voltar ali todos os sábados, na vã esperança de encontrar algum tesouro.

 

Ali. Uma capa dura grande, imitação de couro, bonita. Letras douradas, em outra língua. Alguma preciosidade? Algum novo chuchu para a minha coleção? Caminhei até lá decidida, tão hipnotizada que não notei o homem volumoso ao meu lado, esbarrando nele. Ele nem pediu desculpas. Depois de encostar nele, pensei, teria que tomar um banho. Mas o livro por ora era mais importante. O livro, tão belo…

 


Veja a diferença na forma que Paula vê o mercado: a comida, que João desejava, era nojenta para ela. Ela ficou desconfortável com a quantidade de pessoas, enquanto o garoto gostou disso.
Além disso, uma sutileza na escolha de palavras: Paula não chama o homem de “gordo”, é deselegante. Optou por suavizar, chamando-o de “volumoso”.

Ed caminhava despreocupado pelo mercado, mãos nos bolsos, assoviando. Era bom estar ali sem se preocupar tanto. Hoje era o dia de descansar. Ele acabou nem trazendo sua arma.

 

As barracas de comida exalavam um aroma de gordura e açúcar, que sempre lembravam da sua infância. Caminhando ali sozinho ele pensava na mãe, na irmã, e na vida atarefada do sítio que tinha antes de ir para a cidade grande se tornar policial.

 

Não hoje, ele pensou. Hoje ele era só um passante, aproveitando o sábado ensolarado.
Mas mesmo aproveitando o sábado ele não conseguia ignorar certas coisas. Como o garoto raquítico, de capuz, analisando friamente os bolsos das pessoas. Ele tentou ignorar, já na fila para comprar um crepe doce, mas não conseguiu. Seguiu o garoto primeiro com os olhos, e depois com os pés.


Em terceira pessoa a voz não é tão direta: as palavras ainda são escritas por um narrador externo, então não precisa ser tão duro com a escolha delas. A voz aqui vem muito da atenção do personagem, no que isso faz ele pensar. Mesmo fora da mente dele, acompanhamos-o de longe.

 

O mesmo mercado, para Edson, é um dia ensolarado de sábado, detalhe que nenhum dos outros dois personagens se deu ao trabalho de mencionar.

Gertrude estava apoiada com as costas num poste, retomando o fôlego. Caminhar entre todas aquelas pessoas era um esforço monumental para ela, principalmente depois dos problemas com o quadril. Se eu tivesse acreditado quando a minha mãe falava que era assim ficar velha… Ela olhava para o chão, o maldito chão.

 

Não era concreto, mas pedras, as mesmas pedras que a seguiram desde a infância, há tanto tempo. Pedras irregulares, sujas como o diabo, que faziam ela pensar em dentes podres de alguma criança, como aquelas que ela vira há pouco, estragando a boca com aqueles crepes detestáveis. As pedras deixavam caminhar com seu salto uma tarefa duas vezes mais cansativa, mas como que ela iria ao mercado sem estar bem vestida?

 

Ela respirou algumas vezes, agarrando a bengala com os dedos trêmulos. Não posso desistir hoje. Não volto pra casa sem o presente da Carminha. Então ela pôs-se a caminhar de novo, desviando de um homem obeso na frente de uma barraca de livros, indo em direção às barracas de bijuterias, os olhos fracos demais para perceber que aquela pedra na rua era um tanto mais alta que as outras.

 


Note as prioridades do personagem, o que ele nota. O piso nem foi notado pelos outros personagens, mais jovens. As limitações pesaram aqui. Entrei na cabeça de uma senhora de idade e me vi tendo que andar naquele piso horrível e ela não deixaria isso em vão.
Bom, o exemplo acaba aqui, mas não consegui deixar essa historinha sem fim…

Tudo ocorreu ao mesmo tempo: João esbarrou no gordo, Paula agarrou o livro, Edson gritou, e Gertrute tropeçou.

 

O garoto deu uma ombrada forte no gordo, fazendo-o perder o ar e a carteira, fingindo não ouvir que o grito era pra ele. Olhando para trás, entretanto, viu os olhos raivosos de Edson e desesperou-se em silêncio, procurando o que fazer. A mulher distraída com o livro era o alvo perfeito.

 

Mas ele não olhou para baixo, onde Gertrude tentava, sem sucesso, se reerguer.

 

João tropeçou nela e logo Edson caiu em cima dele, sussurrando palavras de ordem pro pirralho. Mas João estava de mãos vazias, e, gritando, se safou fácil. O gordo percebeu a falta da carteira, e Edson coçou a cabeça, sem entender. Tinha visto o garoto roubá-la, não?

 

Enquanto isso, Paula estava tão distraída com o seu novo livro que nem percebeu que a carteira de onde ela tirou o dinheiro não era dela.

 

E aí, Ficcionado, notou alguma diferença além das que eu apontei?

 

Este é um assunto bastante difícil, mas nada que uma boa prática não resolva. Experimente, procure segundas opiniões, e veja o que funcionou e o que não funcionou.

 

E não se estresse muito com isso. Escreva o máximo que puder e veja onde vai dar.

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele