Perguntas Para se Fazer Durante a Revisão

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Algumas semanas atrás falamos sobre cortar 10% do seu livro na hora da revisão, indo cena a cena e melhorando cada parágrafo, cada frase. Demos algumas dicas do que procurar na hora do corte, como advérbios, detalhes na narração e repetição.

 

Mas e quanto uma frase inteira, um parágrafo inteiro, uma página inteira, um capítulo inteiro, deve ser cortado? Quais são os parâmetros que você deve avaliar nesse caso? Quem sabe o seu livro se torne uma obra-prima se você cortar metade dele fora!

 

Então, Ficcionado, hoje trazemos algumas perguntas que você deve fazer durante a revisão, sempre que ficar com dúvida sobre uma passagem. Idealmente isso deveria ser feito com, bom, todo o seu livro, mas depois de um tempo tendemos a criar uma boa intuição do que está bom e o que não está (ou assim espero). De qualquer forma, pode ser um bom exercício: pegue os questionamentos abaixo e aplique-os a cada passagem do seu livro.

 

O questionamento básico que você deve fazer é muito simples: O que muda na minha história se eu tirar essa passagem? Tente imaginar que você está lendo o livro mas não tem aquela informação. A sua história fica melhor? Pior? Dá pra entender? Ela fica mais pobre? Essa pergunta é boa, mas ao mesmo tempo muito aberta. Por isso, você pode questionar coisas mais diretas, mais objetivas, até pegar o jeito.

 

Sem mais, às perguntas:

 

Procure Propósito


Primeiro, é interessante questionar o propósito de cada coisa escrita. Pegue aquela passagem (o que estou chamando de passagem pode ser uma frase, um parágrafo, uma cena, qualquer tamanho de texto) de utilidade duvidosa e se pergunte:

 

Esta passagem é importante para a compreensão da minha trama?

 
Analise se a passagem é necessária para que a sua história faça sentido. Imagine o seu livro sem ela: o que muda? O leitor vai entender o que aconteceu?

 

Se você está analisando o parágrafo ou a página onde o assassino é revelado, não parece uma boa ideia cortá-la. Da mesma forma, se é uma passagem onde você dá uma dica sobre quem é o assassino, ou descreve um evento que é importante para a compreensão da trama, isso deve ficar no lugar.

 

Isso pode ser bem menos dramático: se for só uma passagem descrevendo o personagem indo de um lugar ao outro, isso provavelmente é necessário para que a história faça sentido.

 

Se, por outro lado, é uma cena onde o personagem vai ao banheiro, quem sabe ela não esteja ajudando a trama. Se esse for o caso, questione outras coisas, como…

 

Esta passagem é importante para caracterizar o meu personagem, ou o cenário?

 
Analise se a passagem está dando detalhes aos personagens ou ao mundo da sua história. Imagine o seu livro sem ela: há diferença? O leitor vai entender bem os personagens e o cenário sem aquele pedaço?
 
Digamos que o seu personagem tem mania de limpeza, e essa é uma característica importante para a história. Quem sabe ele descobre quem é o assassino por estar sempre atento à sujeira em todos os ambientes. Nesse caso, a cena do banheiro pode ser útil para criar esse aspecto na personalidade dele. Aqui, entretanto, você pode argumentar que caracterizar o personagem assim já cai na categoria de importante pra trama. Ok, posso concordar. Imagine então que o personagem ter mania de limpeza é uma consequência de um trauma passado. Isso deixa o personagem mais real, mais humano, e essa caracterização pode ser um passo importante para fazê-lo deixar de ser um bando de palavras numa página e se tornar uma pessoa de verdade.
 
O mesmo vale para cenário. É mesmo importante passar um parágrafo inteiro descrevendo aquela cadeira? Bom, se a cadeira for o trono de ferro de Guerra dos Tronos, com certeza. É um elemento que define como é o mundo, e dá vários detalhes da história de Westeros.
 
Será, então, que essa descrição enorme da cidade é importante? Bom, ela cria o clima, e define onde os eventos se passam… Mas até que ponto isso é importante? Se um prédio não é importante pra trama, e nem único o suficiente para ser importante no cenário onde a minha história se passa, vale a pena descrevê-lo? Bom, aí passamos pra próxima pergunta…
 

Esta passagem é importante pro tom da história?

 
Pense no tom da sua história, nas emoções que você quer passar. É um mundo sombrio, terrível? Ou é um lugar alegre? O seu livro tem um elemento de comédia?
 
Veja se a sua passagem está contribuindo para isso. O seu livro pode ter um tom sufocante e sujo, e neste caso descrever cada prédio pode contribuir para sempre deixar essas emoções no leitor.
 
Num livro de fantasia, descrever cidades, florestas e montanhas é útil para ajudar a colocar o leitor no seu mundo. Se você está escrevendo um mistério policial, entretanto, quem sabe não valha a pena descrever todos os prédios da Grande São Paulo.
 

O que muda na minha história se eu tirar essa passagem?

 
A pergunta básica é sempre essa. Mas digamos que o ponto que você está com dúvida passou pelas perguntas anteriores, e você tem certeza que ele tem um propósito na sua história. Definir um propósito, per se, é um tanto complicado, como discuti aqui.
 
Se você colocou a sua passagem à prova e respondeu “Não” em todas as perguntas acima, é provável que valha a pena cortá-la. Mas mesmo que haja um ou outro “sim”, isso não deixa ela totalmente segura…

 

Questione o Propósito


Achar propósito pode ser fácil. Qualquer passagem pode ter algum propósito, se você forçar um pouco a barra. Agora é a hora de questionar se aquele propósito é mesmo útil.

 

O propósito agrega à história?

 

A sua passagem está caracterizando personagem, legal. Agora… Será que é útil fazer isso? Você está caracterizando o seu protagonista, ou o garçom do restaurante?
 
Pense no peso que aquele propósito tem. Imagine o seu livro sem aquela passagem. Muda muita coisa? Será que o livro não fica mais interessante, mais focado nos personagens principais e menos em coisas pouco impactantes? Será que aquela subtrama é legal o suficiente?

 

O livro não está se repetindo?

 

Você está descrevendo a cidade da sua história de fantasia, ótimo. Mas você já fez isso três vezes, em capítulos anteriores. Será que você precisa de mais descrição? A imagem já não está sedimentada na cabeça do leitor?
 
Pense quantas vezes você já fez o que está sendo feito. Quantas vezes você reforçou aquela característica do personagem, descreveu como ele se sente a respeito de algo, ou contou pro leitor que os personagens se locomoveram na cidade. Alguns pontos são interessantes de aparecerem regularmente, como uma mania de um personagem ou um aspecto da cidade que se nota o tempo todo (como por exemplo o fedor), mas será que este é um deles? Faça essas perguntas. Pense se você não está contando pro leitor algo que ele já sabe.

 

Este é o momento para fazer o que está sendo feito?

 

Esta última pergunta muitas vezes causa com que a passagem seja mudada de lugar, não cortada. Mas ainda vale o questionamento.
 
Imagine que há um parágrafo ótimo sobre o medo de aranhas do personagem. Ele caracteriza o personagem, agrega à história, e não foi feito antes. Por enquanto parece ótimo, deixemos no livro.
 
Mas agora imagine que esse parágrafo está na última página do livro. É hora de fazer esse tipo de caracterização? Será que não era interessante ter mostrado isso ao leitor antes? Era algum segredo?
No final do livro supõe-se que os seus personagens e cenário já estejam muito bem caracterizados. Continuar fazendo isso depois de certo ponto pode deixar o livro lento, e repetitivo.
 
Há um momento para cada coisa. Interromper uma cena de ação para descrever a cidade quebra o ritmo, e pode ser um tiro no pé. Começar o livro só com as informações da sua trama e só depois descrever e caracterizar personagens e o mundo pode deixar a sua história muito vaga no começo. Tudo tem a sua hora. Pense a respeito.

 

Menos é Mais


Um livro menor é, em muitos aspectos, melhor. Você provavelmente estará sendo mais conciso, menos repetitivo, e mais forte em suas afirmações.
 
Cada passagem da sua história deve ser cortada até que você prove que ela tem valor.
 
Pense nisso, Ficcionado. É muito legal fazer uma história cheia de detalhes, de eventos menores e de personagens secundários, mas uma das piores coisas que você pode gerar no leitor é o sentimento de que “esse escritor está me fazendo perder tempo”. Perder tempo com detalhes que não importam, com descrições excessivas, com personagens que nunca mais vão aparecer e que nem são interessantes.
 
Pegue um parágrafo meio peculiar da sua história, e pare para pensar. Medite na pergunta, pense bem. Não é muito fácil. Procure opiniões, tenha certeza que você não está tirando algo que importa. E se pergunte:
 
“Será que o meu livro fica melhor se eu cortar tudo isso aqui?”

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele