Revisão: Cortando 10% do Seu Livro

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Aqui no Ficcionados sugerimos que você comece a escrever o mais cedo possível. Experimente, veja no que vai dar.

 

“Mas eu já fiz isso”, diz o leitor. “Eu terminei, tá aqui o meu rascunho. E agora?”

 

Puxa, deu certo? Você realmente escreveu? Ahm, quero dizer, claro que deu certo! Agora entra a revisão!

 

A revisão tem várias partes. Neste artigo vou falar especificamente sobre cortar palavras.

 

Por Que Cortar?


É comum escrever mais do que precisa estar no livro. Pecar por excesso, não por omissão. Há quem escreve um rascunho já muito conciso, mas, via de regra, considere que você escreveu demais.

 

“Mas detalhes são bons!”, você diz. “Detalhes criam uma atmosfera, diferenciam o meu livro dos outros.”

 

Com certeza. Mas detalhes demais tiram a atenção do que é realmente importante. É uma questão de prioridades.

 

Boa escrita é concisa, como dizia William Strunk. Isso não significa que você precisa necessariamente ser breve, mas sim que cada palavra tem que significar alguma coisa.

 

Querendo ou não, alguns detalhes são mais importantes que outros. É o seu trabalho decidir quais deles realmente agregam à história, quais vale a pena manter. Vale a pena descrever o abajur do protagonista? Ele adiciona alguma coisa? É um elemento que precisa ser reforçado?

 

Há também a questão da relevância dos detalhes. Se você escrever três parágrafos sobre o mordomo, você cria a expectativa de que isso é relevante. Quando não for, o leitor se sentirá traído; ler aqueles três parágrafos foi perda de tempo.

 

Além disso, tendemos a usar palavras demais. Via de regra, se duas frases servem para passar uma informação (sem uma frase ser mais bonita ou poética que a outra), prefira a mais curta. Você não desperdiça o tempo do leitor.

 

Sendo assim, é certo assumir que você pode cortar boa parte do seu primeiro rascunho. Um número meio arbitrário que se fala é cortar 10%.

 

Cortando 10%


 

“Mas isso é absurdo!”, eu pensei, a primeira vez que ouvi isso. Se o meu livro tinha dez capítulos, quer dizer que eu preciso cortar um capítulo inteiro?

 

Bom… Não. Quer dizer, pode ser, mas se for pra tirar um capítulo inteiro isso deve ser feito antes de cortar esses 10%.

 

Cortar 10% quer dizer que, se o seu rascunho tinha 100 mil palavras, a versão final deve ter 90. E o truque para fazer isso não é analisar todo o livro, mas os pedacinhos. Olhar parágrafo a parágrafo, frase a frase.

 

“Legal, mas o que eu corto?”

 

Não tema, Ficcionado! Eis o que acho que vale a pena cortar:

 

Detalhes

 

Como eu mencionei antes, procure os detalhes na sua narração, e pese o valor deles. Vale a pena descrever esse elemento? Além de criar atmosfera, tem algum outro propósito?

É um equilíbrio complexo: se todos os detalhes que você descrever forem de alguma forma usados na história o leitor vai começar a se tocar. Lembra daqueles desenhos antigos, onde os objetos que seriam animados se destacavam do plano de fundo, e você já sabia qual parede ia explodir?

 

 

Construções complexas.

 

Vamos a um exemplo:

“Art era muito menos criativo do que Seh, mas este sempre invejou aquele por seus sonhos psicodélicos.”

Essa frase não é essencialmente quebrada, mas passa a ideia de uma forma esquisita. Podemos reescrever como:

 

“Seh era indubitavelmente o mais criativo do grupo, mas sempre invejou os sonhos psicodélicos de Art.”

Essa segunda frase (que além de tudo corta uma palavra) é melhor em vários aspectos. Primeiro, ela foca no que é: Seh é o mais criativo do grupo. A frase não diz só que Art não é tão criativo quando Seh. Segundo, a frase é mais fácil de entender, já que eu deixo as palavras relacionadas próximas (Seh de criativo, Art de sonhos).

 

Muitas vezes construções complexas podem ser tornadas mais curtas, objetivas, deixando o texto mais fácil de ler, fluido, e, de quebra, menor.

 

Advérbios e adjetivos

 

Advérbios e adjetivos podem parecer um caminho fácil para uma escrita rebuscada, como eu demonstro aqui, usando “rebuscada”. Não tem problema usar um ou outro de vez em quando, principalmente quando você não tem espaço para mostrar o que exatamente o advérbio quer dizer.

Então avalie a necessidade dessas palavras. Será que é necessário acompanhar aquele “disse” com um “nervosamente”? O que isso agrega ao texto? Cuidado com repetição: se, pelas ações do personagem, já está claro que ele está nervoso, você pode omitir o advérbio. Falando em repetição…

 

Repetição

 

Esse é um pecado difícil de fugir. Deixar uma ideia clara, e depois, só por precaução, explicar de novo. Você quer que o leitor entenda, não é?

“Entraram no quarto, as luzes apagadas. Estava escuro no quarto.”

Claro que estava escuro! Mas ainda assim há uma certa compulsão por escrever aquelas quatro palavras, só pra ter certeza… E, além disso, mesmo que você queira reforçar que está escuro, “no quarto” pode ser cortado na segunda frase.

Então lembre-se: um dos maiores pecados que o escritor pode cometer é falar algo que o leitor já sabe.

A não ser que seja algo que você quer chamar a atenção, a maioria das coisas pode ser dita só uma vez. Se for repetir algo, dê um motivo para isso. Quando o leitor entende que você fez alguma coisa de propósito, ele começa a te respeitar mais.

 

Palavras desnecessárias

 

Decidir quais palavras são desnecessárias é difícil, mas com o tempo você pega o jeito.
Sempre que houver alguma frase cujo tamanho for por você considerado excessivo, como essa, tente reescrevê-la. No caso, podia simplesmente ser “sempre que uma frase parecer grande”, que já corta metade das palavras.

Foque na informação sendo passada. Para mim ajuda falar em voz alta, sem se preocupar em fazer soar bem: “ok, aquela frase ali quer dizer que sempre que uma frase parecer grande”.

Temos muitos vícios bobos que nos fazem escrever palavras que não adicionam nada ao texto, e a revisão é uma ótima forma de tirar tudo.

 

Mas por que 10%?


Como eu mencionei antes, esse número é bem arbitrário. Para mim foi muito útil levá-lo à risca: marcar as palavras iniciais, e colocar um alvo.

Mas a parte importante é esquecer o alvo. Reler o texto, cortando tudo que puder, e só depois ver como está. Cortou só 5%? Repita. Cortou 15%? Excelente.

A ideia é não se limitar ao alvo. Não vale cortar um parágrafo inteiro no começo da cena, alcançando a meta, e não mexer em mais nada.

Ademais, esse número é meio besta depois de um tempo. Vale pela prática, mas pode começar a ser excessivamente difícil cortar os 10%, não por que você ficou preguiçoso, mas porque você começou a escrever melhor.

De qualquer forma, vamos a um exemplo legal: este artigo, enquanto escrevo, está com 1284 palavras. A versão que você está lendo foi a editada, e ficou com 1157. Veja como era a original!

 

Nós aqui do Ficcionados defendemos que, se essa é a sua vontade, você deve começar a escrever o mais cedo possível. Esqueça tudo que você acha que você deveria fazer antes e experimente, veja no que vai dar.

“Mas eu já fiz isso”, diz o leitor. “Eu terminei, tá aqui o meu rascunho. E agora?”

Puxa, deu certo? Você realmente escreveu? Ahm, quero dizer, claro que deu certo! Agora entra a revisão!

A revisão tem várias partes. Neste artigo vou falar especificamente sobre cortar coisas.

> Por que eu preciso cortar coisas?

Há vários jeitos de se escrever o seu primeiro rascunho. Há escritores que pensam muito em cada frase, demorando mais, mas chegando numa versão mais finalizada do livro. Nos demais casos, é comum escrever mais do que precisa estar no livro. Pecar por ter detalhes demais, não de menos.

“Mas detalhes são bons!”, você diz. “Detalhes criam uma atmosfera, diferenciam o meu livro do resto.”

É, com certeza. Mas detalhes demais tiram a atenção do que é realmente importante. É uma questão de prioridades.

Boa escrita é concisa, como dizia William Strunk. Isso não significa que você precisa necessariamente ser breve, mas sim que cada palavra tem que significar alguma coisa.

Querendo ou não, alguns detalhes são mais importantes que outros. É o seu trabalho decidir quais deles realmente agregam à história, quais vale a pena manter. Vale a pena descrever o abajur do protagonista? Ele adiciona alguma coisa? É algum elemento que precisa ser reforçado?

Há também a questão da importância dos detalhes. Se você der um nome ao mordomo e escrever três parágrafos sobre a história dele, você cria a expectativa de que isso será importante no futuro. Quando não for, o leitor se sentirá traído, pensando que ler aqueles três parágrafos foi perda de tempo. E essa não é uma coisa que você quer que os seus leitores sintam.

Além disso, a gente tende a usar várias construções não ótimas, com palavras demais. Via de regra, se duas frases tem só o propósito de passar uma informação (sem uma frase ser mais bonita ou poética que a outra), é melhor preferir a mais curta. Você não desperdiça o tempo do leitor.

Sendo assim, é usualmente certo assumir que você pode cortar boa parte do seu primeiro rascunho. Um número meio arbitrário que se fala é cortar 10%.

> Cortando 10%

“Mas isso é absurdo!”, eu pensei, a primeira vez que ouvi isso. Se o meu livro tinha dez capítulos, quer dizer que eu preciso cortar um capítulo inteiro? Que absurdo!

Bom… Não. Quer dizer, pode ser, mas se for pra tirar um capítulo inteiro isso deve ser feito antes de cortar esses 10%.

Cortar 10% quer dizer que, se o seu livro tinha 100 mil palavras, a versão final deve ter 90. E o truque para fazer isso é cortar essas palavras não olhando o macro do livro, mas o micro. Olhando cena a cena, parágrafo a parágrafo, frase a frase.

“legal, mas o que eu corto?”

Não tema, Ficcionado! Eis o que acho que vale a pena cortar:

– Detalhes

Como eu mencionei antes, procure os detalhes na sua narração, e pese o valor deles. Vale a pena descrever aquilo? Além de criar atmosfera, tem algum outro propósito?
Isso é um equilíbrio complexo: se todos os detalhes que você descrever forem de alguma forma usados na história o leitor vai começar a se tocar. Lembra daqueles desenhos antigos, onde os objetos que seriam animados se destacavam do plano de fundo, e você já sabia qual parede ia explodir? É algo parecido.

– Construções complexas.

Vamos a um exemplo da minha própria escrita:

“Art era muito menos criativo do que Seh, mas este sempre invejou aquele por seus sonhos psicodélicos.”

Eu reli essa frase e não achei ela boa. Quer dizer, não é essencialmente quebrada, mas passa a ideia de uma forma que considerei esquisita. Eu decidi mudar para:

Seh era indubitavelmente o mais criativo do grupo, mas sempre invejou os sonhos psicodélicos de Art.

Acho que essa minha segunda frase (que além de tudo corta uma palavra) é melhor em vários aspectos. Primeiro, ela fala o que é: Seh é o mais criativo do grupo. A frase não diz só que Art é menos criativo do que Seh. Segundo, é um tanto mais fácil de entender, já que eu deixo as palavras importantes próximas (Seh de criativo, Art de sonhos).

Muitas vezes esse tipo de construção pode ser tornado mais curto, objetivo, deixando o texto mais fácil de ler, fluido, e, de quebra, menor.

– Advérbios e adjetivos

Advérbios e adjetivos podem parecer um caminho fácil para uma escrita rebuscada, como eu demonstro aqui, usando “rebuscada”. Não tem problema usar um ou outro de vez em quando, principalmente quando você não tem espaço para mostrar [link] o que exatamente é ser sorrateiro.
Então avalie a necessidade dessas palavras. Será que é necessário acompanhar aquele “disse” com um “nervosamente”? O que isso agrega ao texto? Cuidado com repetição: se, pelas ações do personagem, já está claro que ele está nervoso, você pode omitir essa repetição. E, falando em repetição…

– Repetição

Esse é um pecado difícil de fugir na escrita do primeiro rascunho. Deixar uma ideia clara, e depois, só por precaução, explicar de novo. Você quer que o leitor entenda, não é?

“Entraram no quarto, as luzes apagadas. Estava escuro.”

Claro que estava escuro! Mas ainda assim há uma certa compulsão por escrever aquelas duas palavras, só pra ter certeza…

Então lembre-se: um dos maiores pecados que o escritor pode cometer é falar algo que o leitor já sabe.

A não ser que seja algo que você quer chamar a atenção, a maioria das coisas pode ser dita só uma vez. Se for repetir algo, dê um motivo para isso. Quando o leitor entende que você fez alguma coisa de propósito, ele começa a respeitar mais a sua escrita.

-Palavras desnecessárias

Voltamos ao William Strunk nessa. Decidir quais palavras são desnecessárias é difícil, mas com o tempo você pega o jeito.

Sempre que houver alguma frase cujo tamanho for por você considerado excessivo, como esta antes da vírgula, tente reescrevê-la. No caso, podia simplesmente ser “sempre que uma frase parecer grande”, que já corta as palavras pela metade.

Pense na informação essencial a ser passada, e foque nisso. Para mim, pessoalmente, ajuda falar em voz alta, sem se preocupar em fazer soar bem: “ok, aquela frase ali quer dizer que sempre que uma frase parecer grande”.

Temos muitos vícios bobos que nos fazem escrever palavras que não adicionam nada ao texto, e a revisão é uma ótima forma de tirar tudo.

> Mas por que 10%?

Como eu mencionei antes, esse número é bem arbitrário. Para mim foi muito útil, entretanto, pegar os textos e realmente fazer isso, contar a quantidade de palavras que o texto tem e colocar um alvo, 10% a menos.

E a parte importante é esquecer o alvo. Reler o texto, cortando tudo que puder, e só depois ver como está. Cortou só 5%? Leia de novo. Cortou 15%? Excelente.

A ideia é não se limitar ao alvo. Não vale cortar um parágrafo inteiro no começo da cena, alcançando a meta, e não mexer em mais nada.

Ademais, esse número é meio besta depois de um tempo. Vale a prática, mas depois de um tempo pode começar a ser excessivamente difícil cortar os 10%, não por que você ficou preguiçoso, mas porque você começou a escrever melhor o rascunho.

De qualquer forma, vamos a um exemplo legal: este artigo, enquanto escrevo, está com 1260 palavras. A versão que você está lendo foi a editada: Veja como era a original!

E aí, Ficcionado, pronto para cortar umas palavras?

E aí Ficcionado, pronto para cortar umas palavras?

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele

  • Gabriel Souza

    Achei interessante a ideia de mostrar o primeiro rascunho. Vai ter mais sobre o assunto de revisão?
    Valeu!

    • http://oucoisaparecida.com.br/ Thiago Loriggio

      Olá Gabriel, obrigado pelo apoio!
      Vamos ter mais artigos sobre revisão sim, é um tema bem amplo. Quem sabe no próximo teremos alguns exemplos dentro de uma história…