O Caminho da Escrita: 9 Lições de um Samurai Aplicadas à Arte de Escrever

com Nenhum comentário

Musashi Miyamoto foi um dos maiores samurais que já existiu; talvez o maior. Ganhou fama, desde muito jovem, ao desafiar guerreiros mais experientes. E nunca perdeu um combate.

 

E o que isso tem a ver com a escrita?

 

Além de um exímio combatente, Miyamoto possuía uma disciplina fervorosa e uma visão de mundo peculiar. Em idade avançada, deixou seus ensinamentos reunidos em cinco livros; agrupados em um único volume chamado de “O Livro dos Cinco Anéis”.

 

Em cada um deles, Miyamoto levanta qualidades importantes que uma pessoa deveria ter para ganhar destaque em qualquer coisa que faz.

 

Claro, seus pensamentos são voltados para o que ele chama de “O Caminho da Estratégia”, base para a formação de um guerreiro. Contudo, seus princípios podem ser aplicados a qualquer área, inclusive à escrita.

 

Assim, esse artigo destina-se a aplicá-los em nossa arte, no que poderia ser chamado de “O Caminho da Escrita”.

 

1. Não Pense Desonestamente


A honra para um samurai é seu bem mais precioso. E viver uma vida honesta é a chave para cultivá-la.

 

De todos os princípios, este é o mais geral e mais profundo; sem ele, os outros pouco importam. Afinal, a honra é que dá valor às suas ações e, principalmente, às palavras que as antecedem. Se você quiser viver de palavras, faça-as valer, dê peso, importância e credibilidade a elas. Seja-lhes fiel.

 

Uma vida honesta significa muito mais viver de acordo com seus valores do que viver uma vida regrada. Até porque, para permanecer fiel a eles, às vezes, é preciso ser ousado e quebrar as regras. A inovação se trata disso, e assim também é o aprimoramento.

 

Só que ao quebrar as regras, jamais desrespeite seus adversários; sejam eles pessoas, eventos, uma parte de si mesmo ou o tempo.

 

2. O Caminho Está no Treino


Treine consistentemente. Não nascemos dominando arte alguma e, com facilidade ou dificuldade, precisamos nos aprimorar através do treino.

 

Escreva diariamente, mesmo que apenas alguns minutos, mesmo que poucas centenas de palavras. Não há como se tornar proficiente sem treino.

 

Mas disso já tratamos bastante aqui no blog. Se você ainda precisa refinar sua prática consistente ou encontrar os horários para conservá-la, dê uma olhada nessa série de artigos (reunidas neste ebook).

 

3. Torne-se Familiar a Todas as Artes


Assim como a água é capaz de tomar a forma do recipiente que a comporta, deveríamos ser capazes de corresponder aos estímulos externos, fora de nosso controle, moldando a nós mesmos.

 

Myiamoto é enfático em dizer que um samurai não se pode dar a luxo de preferir uma determinada arma. Mesmo que ele concorde que a espada longa seja a mais versátil, em um combate ele deve estar preparado para utilizar o que estiver à disposição.

 

Aplicando isso à escrita, precisamos treinar todas as sutilezas que a envolvem: questões de forma e roteiro, escrita em primeira ou terceira pessoa, descrições minuciosas e largadas, monólogos filosóficos e diálogos banais.

 

Essa é a melhor maneira de encontrarmos nossa voz.

 

Claro, quando você estiver planejando o seu livro, poderá sim se dar ao luxo de ter uma preferência. Mas uma coisa é escrever em terceira pessoa porque você não confia suficientemente em sua habilidade de escrever em primeira; outra coisa é escolher a terceira pessoa.

 

4. Conheça o Caminho de Todas as Profissões


Este princípio é uma segunda instância da mesma analogia com a água.

 

Miyamoto defendia a ideia de que um guerreiro completo não é apenas um guerreiro, mas também é um fazendeiro, um artesão e um mercador.

 

Esse ideal muito tem a ver com o do “homem universal” defendido na renascença (que por sinal era a mesma época em que Miyamoto viveu… coincidência?). Certo, você provavelmente sabe que Da Vinci foi um engenheiro, cientista, escritor, pintor, escultor, músico… mas ele não foi o único nem o primeiro.

 

Enfim, restringindo um pouco o “universal”, um escritor deve sim ser versado em caminhos além da escrita. Mesmo que você deva recorrer a profissionais específicos, é interessante entendê-los. Seja também um editor e um revisor, isso pode contribuir em especial para seus leitores beta. Estude o marketing, não importa se você está indo pela publicação tradicional ou independente.

 

E, acima de tudo, mantenha sua curiosidade aguçada para perceber quais conhecimentos paralelos podem contribuir para o que quer que esteja escrevendo. E isso serve para aumentar em muito sua criatividade.

 

5. Distingua o Ganhar e o Perder em Assuntos Mundanos


Respire fundo e concentre-se. Esse é o princípio que trata da insegurança ou, mais do que isso, de abalos emocionais e psicológicos que sofremos ao longo do Caminho.

 

Primeiro, tenha em mente o que significa sucesso para você; o que você precisar fazer ou ter para ser considerado um escritor bem-sucedido (O Diego Schutt falou um pouco sobre isso na entrevista que fizemos com ele).

 

E, da mesma maneira, defina o que é o fracasso; o que você precisa perder para se sentir realmente um perdedor. Será mesmo que um primeiro livro que não venda pode ser considerado o fim de sua carreira?

 

Essa clareza vai impedi-lo de tropeçar em pedras não importantes.

 

Se você está inseguro, é porque acha que pode perder algo ou se frustrar na tentativa. Mas agora que você sabe o que é o fracasso, reflita: esse medo é real? É provável? E se for, o que você pode fazer para atenuá-lo? Ou qual plano reserva você pode ter para o caso de uma derrota?

 

Se o seu primeiro livro não vender, você já tem o segundo em mente? Já começou ele? Tem alguma reserva financeira?

 

Lá no artigo sobre “vencer a Resistência”, cito o Steven Pressfield ao dizer que um profissional não se abala com as críticas negativas nem com os fracassos; apenas usa-os para o seu amadurecimento.

 

Essa é a aplicação máxima desse princípio: não se deixar abalar.

 

Miyamoto diz que, tanto na luta quanto na vida cotidiana, devemos encarar a situação sem estresse ou displicência, conservando um espírito presente e imparcial. O corpo não deve carregar mais nem menos do que a tensão necessária, porém o espírito deve permanecer calmo.

 

Não devemos deixar o corpo influenciar o espírito ou o espírito influenciar o corpo; se a situação permitir um corpo relaxado, seu espírito não deve ficar folgado. Um espírito elevado é tão fraco quanto um espírito em baixa.

 

6. Desenvolva o Julgamento Intuitivo e a Compreensão de Tudo


Assim como o fogo é capaz de se expandir a partir de uma faísca até tomar uma floresta inteira, seu conhecimento deve se aprofundar a partir de uma compreensão básica até o domínio completo.

 

Diferente do que foi dito com a analogia da água, esse princípio não trata de quantidade, mas sim de qualidade. Não se trata de assumir diversas formas, mas de ir a fundo em uma delas.

 

Miyamoto diz que para saber dez mil coisas (fazendo alusão às “Dez Mil Coisas” que originaram todo o universo no taoísmo), é necessário saber, primeiro, uma coisa; para derrotar dez mil homens, primeiro é necessário saber derrotar um homem.

 

Não se cobre tanto no início e não se incomode com seus erros ou com sua falta de aptidão. Apenas procure continuar avançando, um passo por dia, ou 500 palavras que seja.

 

Leia livros sobre escrita, leia ficção dos mais diversos autores, incorpore as lições, diretas e intuídas, e continue praticando.

 

O julgamento intuitivo aparece aí, nas lições intuídas: a capacidade de aprender com os erros, sejam os seus ou os de outros. Um grupo de escrita pode ajudar bastante a desenvolver esse senso crítico.

 

7. Perceba Aquelas Coisas que Não Podem ser Vistas


Miyamoto, ao diferenciar percepção e visão, diz que a primeira é ampla e a segunda, restrita. A percepção engloba todos os elementos e a visão fixa nos detalhes. Aprimorar a percepção é se concentrar no espírito do adversário, observar toda a situação à sua volta, ver o progresso do combate e as mudanças do acaso. Se nossos olhos fixarem-se nos detalhes, perdemos coisas importantes.

 

É preciso enxergar o que está distante como se estivesse próximo e enxergar o que está próximo como se estivesse distante.

 

Essa é a única maneira de ver o que não pode ser visto: evitar nos atermos a partes de um todo, ou a um todo sem as partes.

 

Isso não significa que os detalhes não importam ou que não devam ser considerados; na verdade é justamente o contrário. O diferencial está nos detalhes, mas o diabo também…

 

Não gaste todas suas fichas em um único personagem bem-construído ou em uma cena que justificará um caminho torto e cansativo. Veja o todo e como cada parte se relaciona para construí-lo. Só olhando para sua história com essa percepção do conjunto é que você conseguirá perceber aquele detalhe que não funciona.

 

E aí, bem, para esse princípio é que as técnicas de roteiro vêm bem a calhar. Mesmo que você não precise e nem deva se preocupar com elas em um primeiro rascunho, são elas que vão lhe treinar a “visão” e transformá-la em “percepção”.

 

8. Preste Atenção Mesmo No Que Tem Pouco Valor


Qualquer desvio mínimo no presente, resulta em uma grande divergência no futuro. E é difícil percebê-los quando parecem ser tão pequenos.

 

Myiamoto considera todas as escolas japonesas de sua época um desvio do “Caminho Verdadeiro”. Há aquelas que se especializaram na espada longa e garantem que essa é a melhor arma e a única que deve ser usada; há outras que se especializaram na espada curta e garantem a mesma coisa.

 

Entretanto, apesar de enxergar essas ideias conflitantes e considerar esses ensinamentos detorpados e limitados, Myiamoto diz que não há como alguém chegar ao “Caminho Verdadeiro” sem entender esses desvios. Assim não basta alguém seguir apenas as palavras de seu “Caminho da Estratégia”, mas deve também estudar a fundo as demais tradições.

 

Uma coisa é alguém dizer que algo tem pouco valor e você acreditar, ou mesmo você fazer uma constatação dessas, rápida e superficialmente; outra é você entender a fundo o valor limitado que aquilo possui.

 

A compreensão de uma coisa de pouco valor, então, lhe permitirá fazer o caminho inverso e chegar à uma possível origem de sua causa, a origem do desvio. Ao compreender várias coisas de pouco valor, essa origem torna-se mais clara; assim você chega ao “Caminho Verdadeiro”.

 

Há inúmeras técnicas de escrita, de roteiro e de estilo por aí. Muitas são conflitantes em alguns pontos. A própria definição de gênero ou de elementos narrativos é bem aberta. E então? Você ainda acha que há alguém que ostenta uma fórmula mágica para escrever ficção? Um caminho que seja mais certo que outro?

 

Todos têm seus prós e contras e o melhor que podemos fazer é conhecê-los. Talvez um dia consigamos fazer o caminho inverso e chegar à essência verdadeira da escrita, à fórmula mágica… só talvez.

 

9. Não Faça Nada que Não Tenha Uso


O último dos cinco livros é o Livro do Vácuo. Lá, Myiamoto diz para não nos prendermos a nada que exista.

 

O “Caminho Verdadeiro” está no nada, pois é lá que repousa o nosso espírito. O nada significa não se ater a nenhuma divergência, a nenhuma tradição; a ter a consciência do que o momento exige.

 

E o momento sempre exige algo.

 

Não fazer nada que não tenho uso é o apanhado de todos os outros princípios. É dominar a arte de compreender o presente e reagir de acordo. Seja estudando, praticando, criando, exercendo, se divertindo ou até tirando utilidade em não fazer nada. Precisamos descansar, não é mesmo?

 

O contrário disso é dar vez à procrastinação, ao medo, à Resistência.

 

Conclusão


Assim, um apanhado dos 9 princípios de Myiamoto aplicados à escrita é:

 

1. Viva de acordo com seus valores e faça suas palavras congruentes a eles. Jamais desrespeite algo.

 

2. Seja consistente. Escreva diariamente.

 

3. Estude as nuances da escrita e descubra sua voz.

 

4. Estude também as áreas periféricas à escrita: edição, revisão, marketing…

 

5. Defina o que é ser um escritor bem-sucedido para você. E o que é ser um fracassado. Então não deixe que sucessos ou fracassos aparentes abalem você, permaneça presente e imparcial.

 

6. Estude a fundo, não se contenha com conhecimentos superficiais e aprenda com os erros.

 

7. Use as técnicas de roteiro para enxergar suas falhas.

 

8. Não despreze nenhuma técnica e nem procure por uma que seja “mágica”.

 

9. Entenda o que o presente exige de você, e aja de acordo.

 

E, então, concorda com eles?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal