Recursos Narrativos: MacGuffin, Deus ex Machina e Chekhov’s Gun

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Essa daqui é a continuação dos recursos narrativos. Se perdeu o primeiro artigo, dá uma conferida aqui!

 

MacGuffin


— O que é um MacGuffin?

— É uma armadilha para os leões das Terras Altas escocesas.

— Mas não há leões nas Terras Altas escocesas.

— Bem, então, não há um MacGuffin!”

 

 

Essa é uma das explicações de Hitchcock, o primeiro a usar o termo. Mas se você ficou confuso, era essa a intenção… 😛

 

Um MacGuffin é um objeto, um lugar ou uma pessoa que serve apenas como gancho narrativo. Pode representar um conhecimento oculto, muito dinheiro, um poder sobrenatural ou algo do tipo.

 

Mas seja o que for, é muito mais importante para as personagens do que para o leitor; tanto que poderiam ser substituídos por algo de valor parecido afetando pouco ou nada o roteiro.

 

O seu protagonista precisa impedir que o vilão ponha as mãos naquela pedra super-poderosa que poderia destruir o mundo? E se não fosse uma pedra, mas o projeto de uma arma nuclear? No fundo, o leitor não vai estar muito interessado nele, mas no que as personagens estão fazendo a respeito.

 

Na maioria das versões da Lenda do Rei Arthur, os cavaleiros da távola redonda acabam se perdendo na busca pelo Santo Graal.

 

E isso é um MacGuffin! Ele não é bem explicado, mas é forte o suficiente para tirar a(s) personagem(s) da sua zona de conforto e mover a história para frente.

 

Colocar um MacGuffin no roteiro significa dar muito mais atenção:

 

  • Às motivações das personagens e
  • Ao efeito que esse desejo tem sobre elas.

 

George Lucas propôs uma definição um pouco diferente. Diz que um MacGuffin pode sim ser importante para o leitor, apesar de continuar cumprindo um “papel genérico”.

 

Em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, temos a Pergunta Fundamental da Vida, do Universo e de Tudo Mais. Ela representa a “busca por um conhecimento oculto”, mas deixa o leitor tão interessado em sua descoberta quanto as personagens.

 

Esse também é um bom exemplo daqueles MacGuffins que nenhuma personagem chega perto de conseguir e que acabam não sendo revelados. Isso deixa ainda mais evidente que a importância nunca esteve no objetivo final, mas na jornada.

 

E é por isso que um MacGuffin pode funcionar na sua história. Se ele conseguir trazer à tona conflitos e desenvolvimentos interessantes, é mais que válido!

 

E não desperdice a liberdade criativa que isso te dá! Se você não precisa explicar um MacGuffin, tente pensar em uma descrição original antes de usar uma “pedra mágica” ou um “diamante raro”. Pense no que Douglas Adams fez com a Pergunta Fundamental; só a menção dela já é instigante.

 

Outros exemplos: a Pedra Arken, em O Hobbit; o Coelho, em Alice no País das Maravilhas; a frase “rosebud”, em Cidadão Kane; a maleta em Pulp Fiction; e a princesa Zelda.

 

Deus Ex Machina


É aquela solução forçada e inesperada. Uma intervenção de forças maiores com uma explicação rasa ou inexistente, e só mencionada momentos antes de entrar em cena.

 

Em “Beowulf”, a mãe de Grendel não pode ser ferida por armas feitas por humanos. Só que ela convenientemente tem uma espada feita por gigantes em cima da porta. A espada só é citada quando Beowulf a pega.

 

Usar um Deus ex Machina tem uma grande chance de decepcionar os leitores. É bom evitá-lo e, se você já tiver um em sua história, é fácil consertá-lo (mais sobre isso em Chekvo’s Gun).

 

Antes disso saiba como identificar um, pois nem todos são óbvios:

 

Eles são inesperados. Se a solução for citada antes, mas não parecer natural, ainda será um Deus ex Machina. No exemplo de “Beowulf”, citar que a mãe de Grendel pode ser ferida por armas feitas por gigantes não anula a coincidência dela ter uma à disposição.

 

Eles são soluções para problemas impossíveis. Sempre aparecem quando já não há esperança, quando nem o senso comum nem nada introduzido anteriormente podem ajudar. No final de “O Mágico de Oz”, Dorothy descobre que água é a fraqueza da Bruxa Malvada por pura coincidência, quando tenta apagar o fogo no Espantalho.

 

Eles são externos às personagens. Ocorrem à parte de suas escolhas e vontades, é uma solução vinda por uma força maior do que elas. Em “Guerra dos Mundos”, a humanidade estava perdida quando se descobre que os marcianos, sem apresentarem nenhum sinal de fraqueza até então, não conseguem sobreviver em nosso planeta.

 

Eles precisam ser soluções. Se um evento desses inesperados acontecer, mas acabar colocando suas personagens em uma situação pior, tudo bem. É difícil o leitor ficar chateado, pois está interessado mesmo é nos conflitos.

 

Coincidências que colocam as personagens em problemas são ótimas. Coincidências que tiram elas de problemas são trapaças.” — Emma Coats

 

 

Chekhov’s Gun


Remova tudo que não tem relevância para a história. Se você diz no primeiro capítulo que há um rifle pendurado na parede, no segundo ou terceiro capítulo ele deve ser disparado. Se não for usado, ele não devia estar lá.” — Anton Chekhov, daí o termo.

 

A explicação pode ser simples e direta, mas tem duas maneiras de se olhar para isso:

 

1. Se você for citar um elemento na história, tenha certeza que ele será importante no futuro.

 

Mas nem tudo são certezas e você pode se perguntar se usar um Red Herring não vai contra esse princípio.

 

Uma pista falsa, não? Se a intenção dele é enganar o leitor, é claro que precisa ser citado na história, talvez até reforçado, apenas para depois se revelar sem importância.

 

Certo, o Red Herring é um contraponto. Ambos são promessas, uma cumprida e outra revogada. Há gente que prefere ser fiel a um ou a outro, mas não acho que eles sejam excludentes.

 

Interpretando de uma maneira mais geral, a importância requerida por Chekhov pode ser justamente a distração. Se ela for feita com um propósito narrativo, para gerar aquela reviravolta no final, nada mais justo.

 

Só que há também aqueles elementos citados “de graça”. O site do TV Tropes chama isso de “Chekhov’s Red Herring”: o rifle é descrito, é mencionado que ele está carregado, mas isso não tem propósito algum; ele não é nem disparado, nem distrai o leitor por uma causa maior.

 

Por mais que isso deva ser evitado, acho que há uma exceção. Se você estiver caracterizando um mundo diferente do nosso, podem aparecer elementos que não tenham importância para o enredo, mas ajudam na imersão do leitor. Por exemplo, os Feijões Mágicos em Harry Potter; ajudam a criar o mundo, mas se eles não existissem, a história seria a mesma.

 

2. Se um elemento for importante no futuro, tenha certeza que ele já foi citado.

 

Essa é para quebrar um Deus ex Machina. Se os marcianos de “Guerra dos Mundos” fossem ficando cada vez mais fracos ao longo do roteiro, se essa fraqueza “inexplicável” fosse uma pergunta levantada por uma das personagens, se isso fosse colocado em evidência em algum conflito anterior, o final não soaria tão forçado.

 

Os atentos que conhecem o trabalho de H. G. Wells podem dizer que os primeiros parágrafos do livro preparam o final. Sim, mas é algo contado, não mostrado em cena.

 

É claro que não é a falta disso que irá estragar todo um bom trabalho. Provavelmente Wells não quis deixar o final tão evidente e preferiu deixá-lo sob os panos.

 

Ainda assim, se der para evitar o Deus ex Machina, melhor. Use o Foreshadowing para lançar as pistas ou deixe mesmo bem evidente de que algo poderá ser importante.

 

Pode ser que no seu mundo exista a chance de uma arma divina cair dos céus na mão do guerreiro de coração nobre quando ele estiver prestes a morrer. Então mencione que isso já aconteceu antes, mil anos atrás, quando o lendário Cavaleiro Alado… (tá legal, o problema aqui seria de originalidade haha)

 

Ou nem precisa ser algo tão grandioso. Se o protagonista precisar de um objeto simples lá no final, mencione que ele carrega o objeto desde o início. Pode ser um grampo de cabelo, um alicate, uma poção ou um multímetro, mas mencione-o e justifique-o com antecedência.

 

Alguns elementos que geralmente são usados como Chekhov’s gun:

 

Lugares. “Nossa, você sabia que lá em Pasárgada eles têm/fazem/aconteceu…”

Notícias. “O jornal sobre a mesa anunciava um acidente na esquina das ruas 7 e 34”.

Presentes. “Tome, esse colar era da sua mãe.”

Personagens. “Hmmm, achei que você era só um figurante, mas agora mostrou sua importância.”

Habilidades. “Eu sabia que passar sete semanas aprendendo a surfar seria útil um dia!”

Promessas. “Lembra? Você me prometeu isso lá no primeiro capítulo!”

 

Continua aqui…

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Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal