Recursos Narrativos: Foreshadowing, Red Herring e Flashback / Flashforward

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Volta e meia escuto alguém dizendo: “não gostei daquele flashback”, ou “esse foreshadowing me deixou intrigado”, ou ainda “ah, esse final ficou muito deus ex machina”.

 

Todos esses termos são recursos narrativos. Muitos já são bem conhecidos e fáceis de identificar. Só que olhando para eles do lado do criador da história, já não são tão triviais assim.

 

Mesmo sem conhecê-los ou sem planejar usá-los, é difícil escrever história em que nenhum apareça. Só que às vezes eles funcionam, às vezes não.

 

Então tomar consciência de quais são e para que são usados vai ajudar você, senão a arquitetar melhor seus roteiros, a avaliá-los melhor.

 

Montei uma lista com doze dos mais comuns. Mas para o artigo não ficar muito grande, dividi ela em algumas partes. Hoje vamos de foreshadowing, red herring, flashback e flashforward. 😉

 

EDIT: Se quiser ir para as outras partes:

MacGuffin, Deus Ex Machina e Chekhov’s Gun

Save the Cat, Pet the Dog e Lampshading

Cliffhanger

In Media Res e Eucatástrofe

 

 

Foreshadowing


É uma dica a respeito de acontecimentos futuros. Pode ser uma breve menção em um diálogo, um elemento do cenário ou uma frase do próprio narrador. E pode ser dada tanto de maneira direta — ah, nossa, vai chover hoje à tarde! — quanto indireta — as nuvens estão carregadas.

 

Muitas vezes o foreshadowing só é percebido quando volta a ser citado, criando aquele momento “a-ha!”. Em “A Câmara Secreta” há uma aula de herbologia sobre mandrágoras, quando seus poderes restaurativos são mencionados. Mais tarde elas são usadas para curar os petrificados pelo basilisco.

 

No entanto, isso também pode ser usados para criar expectativa antes de uma revelação. A intenção é sinalizar algum ponto-chave em que o leitor deveria ficar atento; um elemento aparece, mas não é explicado por inteiro. Sabe aquela conversa em que duas personagens frisam um nome desconhecido? Isso deixa o leitor curioso para saber quem é essa pessoa e por que ela é importante.

 

O foreshadowing também pode ser usado para:

 

  • Apresentar as pistas em um mistério. Em “Assassinato no Expresso do Oriente”, há a conversa entre Mary Debenham e o Coronel Arbuthnot logo no início; o aviso de Ratchett de que vai ser assassinado e as doze facadas no corpo, algumas feitas com a mão esquerda e outras com a direita. Essas e outras pistas conduzem a atenção do leitor ao longo de toda a trama.

 

  • Criar suspense. Em “O Iluminado”, Dick diz que nenhuma das visões de Danny poderá machucá-lo, mas ele deve ficar longe do quarto 217. Mais tarde, quando Danny entra no quarto e vê a mulher na banheira, a tensão sobe vários pontos adicionais graças à menção anterior.

 

  • Criar humor. “O Guia do Mochileiro das Galáxias” começa com Arthur tentando impedir que sua casa seja demolida para a construção de uma rodovia. Pouco depois, os Vogons anunciam a destruição da Terra para construção de uma rodovia hiperespecial.

 

Outros pontos importantes:

 

  • Uma profecia é um tipo de foreshadowing. Ela faz um prenúncio ao leitor e deixa ele supor como as coisas vão se encaixar para trazer aquele resultado. E ela não precisa ser o pronunciamento de um vidente, Deus, profeta ou algo do tipo; viajantes do tempo que tentam mudar/garantir o futuro também sabem o que deve acontecer.

 

  • O foreshadowing pode ser usado através de um simbolismo. Por exemplo, há a descrição de uma tempestade real se formando no horizonte e depois as personagens passam por momentos difíceis. Em “Adeus às Armas”, Hemmingway diz que “as folhas caíram cedo naquele ano”; um prenúncio de uma morte prematura.

 

Red Herring


Significa “arenque vermelho”. O termo veio do treinamento de cães de caça, quando testavam se o cão era capaz de seguir um rastro, apesar do cheiro do arenque desviando sua atenção.

 

Em termos de roteiro, red herring é uma pista falsa. Um elemento da história que transmite uma imagem errada ao leitor.

 

E isso pode ser bom?

 

Claro! Se o escritor sabe o que está fazendo, pode usar essa pista falsa para desviar a atenção enquanto monta a verdadeira história por trás dos panos. É uma excelente forma de construir uma reviravolta.

 

Em “O Código da Vinci”, o Bispo Aringarosa é apresentado e desenvolvido como se fosse o líder de toda a conspiração. Mas no fim descobrimos que ele é inocente. Toda essa construção deixou o verdadeiro antagonista agindo por trás das cenas sem ser percebido. O engraçado é que “Aringarosa”, do italiano, significa “arenque rosa”; próximo de “rossa”, que significa vermelho.

 

Shawn Coyne, em “The Story Grid”, diz que gêneros possuem convenções, elementos que ajudam a defini-los. Red herring é um dos que caracterizam mistérios e suspenses.

 

Em “O Silêncio dos Inocentes”, todas as pistas levam a crer que a polícia encontrou a localização de Buffalo Bill. Ela monta uma operação e se prepara para pegá-lo em casa. Em paralelo, Clarice investiga o passado do assassino a quilômetros dali. O red herring é a casa em que a polícia bate, e a reviravolta é o encontro de Clarice com Buffalo.

 

Flashback / Flashforward


Tá, esses você já sabe. Nem todas as cenas precisam seguir uma sequência cronológica, umas podem ser uma memória do passado, outras um aviso do futuro. Séries gostam bastante de usar esse recurso, não?

 

Mas antes de brincar com a cronologia, planeje bem sua cena. Tenha o propósito dela bem claro: é desenvolver uma personagem? Revelar um segredo? Expor uma pista falsa? Construir melhor o cenário? Será que você não consegue explorar mais de um desses itens?

 

Depois de ter certeza que a cena é necessária, reflita sobre o que você ganha invertendo a ordem temporal. Se você precisa narrar uma cena da infância da personagem, por exemplo, veja quais seriam suas opções:

 

  1. Adiantar essa cena e encaixá-la no tempo, talvez colocando-a como prólogo ou primeiro capítulo. “O Sorriso da Hiena” começa contando o trauma que David passou na infância.
  2. Mencionar a lembrança como um pensamento da personagem no presente. “O Apanhador no Campo de Centeio” faz isso com todas as lembranças, desde as mais inocentes até as mais dramáticas.
  3. Adicionar um flashback.

 

Às vezes, adiantar a cena pode passar uma informação desnecessária para aquele ponto da narrativa. Seja porque o leitor não está preparado para entender os eventos ou simplesmente por não estar interessado ainda. E claro, há casos em que adiantar significa estragar uma surpresa.

 

Então você pode pensar em mencionar a lembrança no presente. Mas, em alguns casos, ela não transmite todo o impacto que uma imersão real na cena é capaz de trazer.

 

E aí pode lhe sobrar o flashback. Se for usá-lo, certifique-se de que:

 

  • Ele reforça o presente: geralmente segue uma cena forte e prepara o que vai acontecer em seguida.
  • Ele está bem orientado: o leitor consegue identificar que se trata de um outro tempo e sabe quando e onde se passa.
  • Ele foca em um evento específico: o propósito dele está bem delineado e você sabe quando cortar de volta para o presente.

 

Para definir um flashforward você também pode seguir essa linha. Mas eles são um pouco mais delicados de serem encaixados. Faz sentido expor o futuro? Os seus leitores vão esperar por um motivo dele ser exposto? Enfim, é bom tomar uma cuidado extra.

 

Continua aqui

 

 

 

 

 

 

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Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal