Escrevendo um Final que se Encaixa

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Escrever finais é, muitas vezes, uma das partes mais difíceis da escrita. Como fechar aquela história complicada? Como ter certeza que os leitores vão ficar satisfeitos com as últimas páginas?

 

Bom, não tem um manual exato pra isso. Algumas histórias são muito dependentes do fim, como thrillers ou mistérios. Se as perguntas não forem bem respondidas, ou se a tensão crescente não for dissipada de maneira satisfatória, o leitor pode sair com um gosto ruim na boca, como se nada tivesse valido a pena.

 

Enquanto isso, em outros casos, o final pode não ser tão importante. Algumas histórias são mais sobre a jornada do que o final, como, por exemplo, o Senhor dos Anéis. A sua história não precisa necessariamente de um final incrível, de um plot twist absurdo ou algo semelhante para ser boa. Boas histórias funcionam com finais mornos.

 

Mas, se você acha que a sua história só funcionará com um bom final, bem, eis algumas dicas do que fazer:

 

Não Tire uma Solução da Cartola


Esse é um exercício principalmente em fantasia e ficção científica, onde vários conceitos novos, científicos ou mágicos, podem ser inseridos a qualquer momento.

 

Pense bem: imagine uma história onde a solução para os problemas surge no último instante, com o mago se lembrando do feitiço incrível que salvará o dia. Será que isso é satisfatório? Agora imagine a mesma história, mas esse feitiço é algo que foi mencionado a história inteira?

 

É um equilíbrio difícil. Se o elemento usado para solucionar a história surgir do nada, pode ficar forçado, um deus ex machina enorme. Mas, se ele for mencionado muitas vezes, fica óbvio demais para o leitor.

 

Uma coisa que eu gosto de fazer é, depois de certo ponto do livro, não adicionar nenhum conceito novo. Chegar no final, analisar todas as opções que tenho, todos os conceitos já explorados no livro, e tentar usar algum deles para solucionar a trama. De novo, isso depende muito do tipo de história que você está escrevendo, mas é algo a se pensar.

 

Um filme que faz isso bem em sua trama é Ghostbusters:

No final do filme, os raios das armas se cruzam, e isso que, bom, resolve o problema. Agora imagine o quão anticlimático seria se, minutos antes, alguém pela primeira vez dissesse “espere, é só cruzar os raios!” Não é isso que acontece, não é mesmo? O filme falou várias e várias vezes sobre os perigos de se fazer isso, o que, além de preparar terreno para a solução do final, ainda criou expectativa sobre o evento.

 

 

Pense nos Temas da sua História


Pense nos temas da sua história, nas perguntas que ela levantou, as discussões que foram geradas. Sobre o que é a sua história? É sobre irresponsabilidade e poder? É sobre amizade e sacrifícios que as pessoas fazem pros outros? Procure esses conflitos, e tenha isso em mente ao escrever o final. Não precisa responder as perguntas diretamente, da mesma forma que você não precisa deixar o tema tão explícito. Mas dê os leitores um desfecho que resolva essas discussões, seja de uma maneira objetiva ou aberta.

 

 

Comparando Dois Finais


Um exemplo muito bom de basicamente tudo que eu disse neste artigo é o final de Watchmen. Esse é um caso bem específico: podemos comparar dois finais para a obra em duas mídias diferentes, nos quadrinhos e no cinema. Os dois mostram a mesma história, mas com um final levemente diferente. Se quiser entender melhor, e não se importar com spoilers, abre o quadro abaixo:

 

Nos quadrinhos temos o final do alienígena em nova iorque, enquanto no filme o evento catastrófico é um simulacro do Dr. Manhattan se voltando contra a humanidade. Os dois cumprem o mesmo papel na história: ser o plano final do Veidt, uma ameaça externa à humanidade que a obrigaria a se juntar, acabando com a guerra fria e, na visão do antagonista/herói, salvando o mundo.

 

Mas qual dos dois finais é melhor? Bom, na minha opinião (e falando só do final, em termos de roteiro, não da obra como um todo), é o do cinema.

 

Por quê? Bom, porque ele é o final que se encaixa. Pense bem: chegando na hora final da história, o conceito do alienígena é meio que inserido do nada, surgindo na cara do leitor com pouca preparação. Claro, há o papo dos cientistas, e dos experimentos de Veidt, mas é uma ideia nova jogada na cara do leitor/expectador nos quarenta e cinco do segundo tempo.

 

Enquanto isso, no final do filme, o Dr. Manhattan está ali o tempo todo. A obra, tanto o filme quanto os quadrinhos, já explora a ideia de que ele é um poder imenso e incontrolável, mantido aliado da humanidade só por pequenas coisas, frágeis. Esse final, usando o Dr. como a crise que uniu a humanidade, se encaixa muito melhor com todos os temas explorados, e não insere nada novo na trama.

 

Pense nos dois pontos que eu fiz neste artigo: tirar soluções da cartola, e procurar temas. A solução do alienígena não é exatamente tirada da cartola, mas o leitor mais distraído bem possivelmente não entendeu nada. E, além disso, há pouca menção a alienígenas e manipulação genética e tudo o mais. Enquanto isso, além do Dr. Manhattan ser um elemento de destaque na história inteira, esse final reforça o tema da sociedade não saber lidar com ele, que é algo até mais presente no quadrinho.

 

 

Final


Seja o final a primeira coisa que você pensou na sua história ou a última, é algo a escrever com calma. O começo do seu livro é o que faz o leitor comprá-lo; o final é o que faz ele se tornar seu fã, e ler o seu próximo trabalho.

Mas também não é pra pirar tanto com isso. Escreva uma vez, mande pras pessoas, escreva de novo. Deixe a história amadurecer na sua cabeça. Não seja apressado.

Por mais que um final não precise necessariamente explodir cabeças, é sempre bom ter um final satisfatório. Veja o que acontece quando algo termina sem aviso:

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele