7 Dicas para Turbinar os Conflitos da Sua História

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No último artigo falamos que os conflitos de uma história têm dois grandes objetivos: gerenciar a tensão e desenvolver as personagens.

 

Às vezes, esses objetivos não são atendidos. Seja porque a maioria dos conflitos possui um mesmo nível de tensão ou porque a personagem não pareceu ser afetada pelo resultado de nenhum deles.

 

Outras vezes, mesmo atendendo-os, a história pode ter se tornado previsível demais ou as personagens podem não ter conseguido mostrar toda a profundidade que você gostaria.

 

Nesses casos, as dicas a seguir podem ser úteis. 🙂

 

1. Faça as Complicações Aumentarem


Os conflitos devem ficar cada vez mais complicados e não o contrário. A cada nova sequência eles devem exigir mais das personagens e oferecer a elas mais oportunidade de amadurecimento.

 

O ponto delicado desse raciocínio são os conflitos iniciais. Se você relaxar neles e guardar o melhor apenas para o fim, o leitor pode nem sequer chegar na metade. E se você tiver um gancho muito bom que coloque o protagonista logo de cara em confrontos espetaculares, pode ser difícil sustentar o ritmo.

 

Embora não haja uma solução exata, refletir sobre alguns pontos pode ajudar.

 

Primeiro, lembre-se que você precisa permitir que a história tenha altos e baixos, e são os altos que devem ir ficando mais tensos.

 

Segundo, não deixe esse pensamento privar o seu gancho de todo o potencial. Escreva os conflitos iniciais como você acha que devem ser para manter a atenção do leitor. Depois é que você deve se preocupar em complicar a vida da personagem cada vez mais. É aquela história de jogar o chapéu do outro lado do muro e só depois pensar em como buscá-lo.

 

Terceiro, escreva uma vez e ouça a opinião dos seus leitores betas. Se o início estiver maçante, melhore o gancho; se os conflitos estiverem mornos na metade, pense em como dificultar as coisas. A bem da verdade, seus leitores betas são a solução para boa parte das suas dúvidas de roteiro.

 

Dito isso, tem uma dica para, pelo menos, segurar os seus altos em um mesmo patamar. Pense no último conflito e no que a personagem aprendeu com ele (ou no que deveria ter aprendido) e faça com o que o próximo evidencie esse aprendizado.

 

E se você precisar de ajuda para injetar aquela complicação adicional, continue a leitura…

 

2. Relacione o Conflito Interno com o Externo


É, eu sei, já repetimos isso algumas vezes por aqui. Mas é difícil você ter um conflito externo que não tenha relação interna nenhuma com as personagens envolvidas; ou um conflito interno que não tenha nenhum reflexo externo.

 

Essa relação mútua deixa a sua história mais real. E a falta dela deixa aquela sensação de que algo está faltando; as personagens não convencem, tornam-se superficiais.

 

Pense em um protagonista que seja um exímio e solitário guerreiro e todo o conflito da história é uma luta física contra a força das trevas. Isso não é só um clichê, é um genérico barato. O leitor percebe que o protagonista é bom no que faz, mas e quanto ao resto? Por que ele é solitário? Quais conflitos vão colocar sua solidão à prova? Será que não tem como relacionar esses conflitos com as batalhas externas? Talvez até justificá-las?

 

3. Pense Também em Conflitos Pequenos


Se todos os conflitos forem grandes e exigirem sempre o máximo das personagens, toda essa grandeza pode acabar se enfraquecendo. É a questão de conseguir entregar altos e baixos.

 

Depois de uma grande batalha épica, dê tempo para as personagens absorverem as sequelas. Mas esse tempo de baixa não significa monotonia ou ausência de conflitos. Insira pequenos desafios e aproveite-os para mostrar faces das personagens que você até então não tinha conseguido.

 

Ao passar por uma pequena vila, aquele guerreiro solitário escuta uma canção que o faz lembrar de seu passado. Talvez ele fique com raiva, talvez ele chore; talvez ele obrigue o bardo a parar de cantar, talvez ele fuja. Mesmo sem entregar a lembrança, você dá pistas ao leitor do que ela significa e oferece camadas adicionais da personalidade do guerreiro.

 

4. Balanceie Bem os Resultados


A personagem pode ser bem-sucedida, pode falhar ou pode deixar as coisas piores. Se todos os seus resultados forem sempre os mesmos, a história começa a se tornar previsível.

 

Brinque com as expectativas do leitor. Cultive a dúvida de que o fracasso seja possível. Faça ele pensar que o guerreiro pode não alcançar a beirada do outro lado do precipício.

 

Para isso, mostre fracassos anteriores. Tanto falhas gerais, para dizer “olha, as coisas não dão sempre certo para ele”, quanto específicas, como o guerreiro ter saltado antes e não ter conseguido. Isso mostra os defeitos, as fraquezas e cria potenciais de desenvolvimento.

 

Ainda assim, você precisa vencer o pensamento meta-livro. Sabe aquela certeza de que no final as coisas têm que dá certo? “Ah, naquele outro salto ele não tinha muito a perder, mas agora…”.

 

Então faça seu leitor acreditar que as coisas podem sim ficar piores do que estão. Tempere sua história com aqueles momentos em que a falha crie um novo conflito ainda mais tenso. Mas tempere, não faça disso uma regra; se todos os conflitos desencadearem um pior, você não vai conseguir surpreender o leitor quando precisar.

 

Nos momentos de clímax, por exemplo, você quer que a tensão chegue ao limite. É provável que o leitor já tenha alguma suposição do que vá acontecer, ou uma expectativa do que precisa ser resolvido. Uma forma interessante de preparar esses momentos é começar entregando isso: monte o conflito esperado e satisfaça a expectativa. E então deixe que as ações das personagens desencadeiem conflitos inesperados e mais tensos.

 

5. Crie Conflitos Entre Aliados


A questão é maior do que parece. Não se trata só de colocar discussões e intrigas internas que desequilibrem o lado “bom” da história. É também levantar conflitos que questionem essa divisão.

 

As personagens não precisam estar divididas entre aquelas que fazem de tudo para ajudar o protagonista e aquelas que fazem de tudo para detê-lo. Na verdade, esses extremos são muito mais a exceção do que a regra, se é que eles se manifestam.

 

A maioria cai no meio termo. Podem ajudar, desde que não precisem arriscar nada do que têm ou porque vão tirar um benefício da situação. Podem atrapalhá-lo, porque acreditam que estão fazendo o melhor para elas mesmas ou para um ideal maior.

 

Se o objetivo do protagonista é salvar o mundo das mãos de um ditador maléfico, pode ter alguém oposto ao ditador e que ainda assim atrapalhe o protagonista. Essa pessoa pode simplesmente não achar que a solução dele seja a melhor.

 

Ou mesmo naquele cenário onde há um grupo de aventureiros unidos e comprometidos em extirpar o mau do mundo, não significa que eles precisem gostar um do outro. Ou mesmo que gostem, não precisam concordar sempre.

 

6. Faça a Personagem Encarar Seus Medos


Essa é uma daquelas dicas batidas, mas que nem sempre são exploradas a fundo. A estrutura é simples: mostre um medo (mostre, não conte) e depois coloque a personagem em uma situação em que precise enfrentá-lo.

 

Lembre-se de balancear os resultados. Você pode fazê-la evitar ou fugir da situação nas primeiras vezes, e essa é até uma boa maneira de apresentar o medo. E depois de atormentada durante um tempo, a personagem o supera.

 

É uma fórmula um tanto clichê. Mas também não precisa ser usada como o núcleo da sua história, nem ser a responsável pela grande reviravolta no final. Também não precisa ser narrada de forma tão explícita.

 

Holden Caulfield, em O Apanhador no Campo de Centeio, teme encarar a vida adulta do jeito que a sociedade espera; estudar, se formar e achar um bom emprego. Mas esse medo é mostrado por outros meios: seu descaso com a escola e com a saúde, e seu temperamento instável.

 

Além disso, enfrentar o medo não significa que ele deixe de assombrar a personagem.

 

Sam consegue derrotar um Caminhante Branco e ganha o apelido de O Matador. Mas isso não faz com que deixe de temê-los.

 

Ou ainda, a resolução do medo não precisa ser positiva.

 

Katniss teme perder a irmã para a Capital e, no fim, é exatamente o que acontece.

 

7. Faça a Personagem Colocar Seus Valores em Cheque


Essa é a mesma lógica do item anterior. Estabeleça os valores da personagem (os arquétipos podem ajudar nisso) e depois coloque-a em uma situação em que deva abrir mão deles, ou pelo menos seja tentada a isso.

 

Se quiser trabalhar com algo mais concreto, evidencie um código moral interno, como não roubar de pobres ou um voto de silêncio.

 

Ou pode até ser que algo menos pessoal sirva, como uma convenção da sociedade. Algo como não desrespeitar os soldados do rei ou sair de casa depois da meia-noite.

 

Seja o que for, estipule uma fronteira e dê motivos para o leitor acreditar que a personagem jamais seria capaz de atravessá-la. E aí, force a travessia.

 

Notas Finais


Os conflitos não são ilhas isoladas. Eles se conectam, fazem causas e consequências se misturarem, influenciam futuras decisões, definem e transformam caráter.

 

Lembre-se, eles são aquilo que dá a sensação de progresso ao leitor. Então sempre que você sentir que sua história está travada, pense nos reflexos possíveis das ações anteriores. E, claro, use essas dicas para conseguir um impulso adicional.

 

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Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal