Por Onde Começar a Construção do Cenário

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Um bom cenário é aquele que não só suporta o roteiro, mas também ajuda a desenvolvê-lo, envolvendo personagens e leitores à mesma proporção. Ele permanece na mente de quem o visitou.

 

Como esquecer Nárnia, Hogwarts ou a Terra Média? O Centro da Terra, o Parque dos Dinossauros ou o Império construído em Star Wars? Isso para citar apenas alguns dos mais famosos.

 

E essa não é uma característica exclusiva de cenários fantasiosos e tecnológicos. O Expresso do Oriente descrito pela Ágatha Christie também é difícil de esquecer.

 

Todos eles, além de bem descritos, também foram bem arquitetados.

 

Esse artigo trata da criação de cenários e do seu papel como suporte do roteiro. Ele focará mais em como você pode se organizar para começar a construção. O da próxima semana, então, irá complementar esse com dicas mais práticas.

 

Mas eles não entrarão em detalhes de forma. Se você estiver procurando dicas para descrições de cenários, esse artigo aqui pode ajudar.

 

E aí, ficcionado, preparado?

 

1. Saiba a Sua Importância


Muitas vezes o cenário oferece um forte viés para a história.

 

Você pode dizer que ela se passa em um mundo pós-apocalíptico lotado de zumbis ou numa galáxia muito distante. E apesar de eu ter feito apenas uma menção genérica, é provável que esses exemplos façam você imaginar o que seria narrado ali. São responsáveis, portanto, por criar uma expectativa no leitor.

 

Por outro lado, se eu disser que a minha história se passa em Copenhague, na Dinamarca, já não é o suficiente para entregar alguma coisa. E isso não é necessariamente um ponto positivo ou negativo, é apenas um aspecto diferente. Copenhague pode ser o lugar perfeito para se passar essa história e ter um papel crucial para o enredo, ou não.

 

No entanto, se o impacto desse lugar na trama for baixo, é provável que o leitor não fique tão decepcionado. Ao contrário do que aconteceria se descobrisse que o mundo de zumbis é irrelevante…

 

Assim como há histórias que não existiriam da mesma forma sem o cenário apresentando, como Jogos Vorazes sem Panem, há outras que poderiam acontecer em cenários semelhantes com pouca ou nenhuma mudança, como se A Coisa acontecesse em uma cidadezinha ao sul da França.

 

Lembra do que falamos sobre personagens incríveis? Para o cenário vale o mesmo raciocínio: tudo depende onde você vai querer colocar os pontos fortes de sua trama. Existem histórias excelentes com e sem cenários impactantes.

 

Porém, mesmo se sua história pudesse ser contada em outros lugares com pouca ou nenhuma diferença de roteiro, não significa que o cenário escolhido deva ser superficial. Ele é o responsável pela ambientação, por envolver todas as cenas e montá-las na mente dos leitores. Então ainda assim você devia dar uma olhada com carinho nas dicas seguintes. 😉

 

2. Pense nos Elementos que o Constituem


Pra começar, é interessante ter em mente tudo aquilo que pode ser caracterizado como cenário.

 

Só que a quantidade desses elementos que realmente vão precisar ser pensados depende do destino que você vai dar para trama. Falarei mais sobre essa relação no próximo artigo; por ora, apenas saiba o que são eles:

 

Terreno: a paisagem propriamente dita, o conjunto de relevos, vegetações e construções; ou talvez a ausência disso, caso sua história se passe no meio do espaço… É uma ilha perdida no oceano ou o centro de uma grande metrópole?

 

População: os habitantes do terreno, sejam humanos, animais ou qualquer outra espécie inteligente. Podem ser numerosos, como em uma metrópole, ou escassos, como no meio do espaço.

 

Relações Sociais: se há habitantes, eles se relacionam de alguma forma? Aqui entram questões políticas, econômicas, culturais; ou o motivo delas não existirem… Não é muito difícil pensar em uma ravina marciana habitada por seres verdes com enormes olhos negros, o diferencial vai estar na construção de sua sociedade.

 

Passado: de onde os habitantes vieram? Estiveram sempre ali? Em parte, quem sabe alguns chegaram e se misturaram aos nativos; se for assim, como foi essa chegada? Como as relações sociais evoluíram para a forma como são hoje? Houve alguma mudança no terreno com os anos? A metrópole foi erguida onde antes era uma floresta densa? O passado do cenário não só fornece explicações para o que ele é hoje, como também pode ter um peso grande nos conflitos.

 

Conflitos: aqui faço referência aos que são armados pela própria ambientação. Talvez seja algum problema ambiental constante, como um elevado índice de radiação, ou intermitente, como uma tempestade de areia severa a cada lua cheia. Talvez seja um problema social, como a opressão de um governo autoritário. Seja como for, os conflitos são influenciados pelos outros elementos do cenário e são os que criam maiores expectativas no leitor.

 

Caso você estiver pensando em criar um mundo próprio, esse elementos precisam ser pensados com cuidado, de modo que você crie algo plausível e, principalmente, que não seja superficial.

 

Mas se você acha que é muita coisa, calma aí que a próxima dica vai dar uma suavizada aos seus motores criativos.

 

3. Baseie-se em Cenários Reais


Há dois extremos aqui:

 

Primeiro, se você for escrever uma história que se passe em lugares reais, no passado ou no presente, é claro que você deva se basear no que existe.

 

Se for escrever um romance contemporâneo em Nova York, saiba como é a cidade. Pesquise seus bairros, as linhas de metrô, a localização dos pontos turísticos, os trejeitos dos habitantes, o que muda do verão para o inverno… Enfim, familiarize-se com o cenário; o leitor não conseguirá uma imagem melhor do que aquela que você oferecer.

 

É por isso que é bastante indicado escrever sobre aquilo que você já é familiarizado: a sua cidade, a sua universidade, o seu emprego… Ou, ao menos, basear-se neles.

 

Segundo, nada te impede de escrever uma cenário que seja o mais bizarro possível, onde qualquer semelhança com o nosso mundo seja pura coincidência. Mas geralmente não é o que os escritores procuram; mesmo em cenários completamente inventados, como a Terra Média, há elementos mundanos.

 

Enquanto as diferenças estão ali para causar o deslumbramento e ficar de recordação, são essas semelhanças as responsáveis pela conexão com o leitor.

 

Hogwarts é uma escola: tem professores, alunos, aulas e provas; é fácil conectar-se com esses elementos que você conhece bem, e são eles que criam as bases do cenário. Por outro lado, quando você pensa em Hogwarts provavelmente vai lembrar mais dos seus detalhes mágicos: o céu encantando do Salão Principal, o Chapéu Seletor, os fantasmas que andam pelos corredores ou as escadas que trocam de lugar.

 

Ou seja, uma boa parte das histórias cai em algum lugar entre os dois extremos: possuem tanto elementos reais quanto elementos inventados. Seguem alguns exemplos em diferentes proporções de realidade:

 

O Hotel Overlook, de O Iluminado, é baseado em um hotel real em uma localização real, mas com os elementos do horror.

 

Westeros é um mundo fictício que carrega enormes semelhanças à Europa medieval.

 

Nárnia é outro mundo fictício, rico em diversidades tanto de paisagens quanto de espécies, onde animais falam, gigantes permanecem adormecidos em montanhas e duendes pernetas são invisíveis. Mas o mundo ainda sustenta conhecidas relações sociais.

 

Em suma, instale as fundações do seu cenário em algo que você já conheça. Então acrescente outros elementos baseados no que existe, mas que talvez exija uma pouco de pesquisa. E, por fim, tempere com a sua imaginação.

 

4. Mantenha a Congruência


Certo, então a sua história pode se passar naquele mundo pós apocalíptico cheio de zumbis ou na galáxia muito distante. Mas essas são características bem gerais de um cenário mais macro: é onde o seu livro como um todo vai passar. Ao pensar em uma cena, contudo, você vai querer algo mais específico.

 

No mundo pós-apocalíptico existe a cidade-núcleo da infestação e o oásis no deserto, base da resistência. Assim como na galáxia muito distante, existe o planeta de gelo, o de fogo e a estação interplanetária. E dentro dessa estação, por exemplo, ainda tem a sala de comando e as prisões.

 

Para cada um desses lugares mais específicos, você pode pensar em diferentes características que atendam os elementos citados lá em cima. Mas, uma vez que esses cenários possuem uma relação entre si, alguns elementos vão ser compartilhados ou amarrados por causa e efeito. Alguns traços também serão herdados dos cenários de níveis mais altos.

 

As relações hierárquicas na prisão da estação interplanetária provavelmente são equivalentes às da sala de comando. E a estação está atrelada aos planetas de gelo e fogo, talvez por todos reagirem a um mesmo Império, mesmo que de maneiras diferentes. Um planeta aceita ser dominado e o outro se opõe, e é por isso que os dois estão em guerra.

 

O exemplo foi simples, mas foi apenas chamar a atenção para essas relações. Se você estiver criando um mundo completamente fictício, são elas que o farão parecer mais vivo e profundo.

 

Conclusão


Defina a importância que o cenário terá pra sua história, reflita sobre os elementos que o constituem, aprofunde-o com exemplos reais e mantenha sua congruência. Esses fatores servem de base para você começar a imaginar o seu próprio mundo ou até definir quais elementos enfatizar em seu cenário real.

 

Seja como for,  semana que vem traremos a segunda parte desse tema. As próximas dicas estão voltadas para como transpor o cenário construído, inventado ou não, para dentro de seu livro.

 

Fique ligado, ficcionado, e até lá! o/

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal