Como Usar Arquétipos para Criar e Desenvolver Personagens

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Então aquela personagem que parecia ser tão promissora de repente tornou-se superficial. Você já não encontra uma boa motivação para ela fazer o que precisa, ou simplesmente não sabe mais o que ela deveria fazer. E é provável que, à essa altura, seus leitores já duvidem de que ela pense por vontade própria.

 

Isso é perigoso. Mesmo uma personagem genérica não deve ser robotizada. Lembre-se que seu papel como escritor é contar uma história que, por mais irreal que seja, não evoque descrença no leitor. Você deve ser congruente dentro de sua própria fantasia. Se ele começar a duvidar do que você escreve, você o perdeu!

 

Certo, e como manter as escolhas das personagens congruentes?

 

Uma possível solução é se questionar sobre os objetivos externos e internos que elas possuem. Mas pode ser que você tenha dificuldade de se colocar no lugar delas. Pode ser até que algumas nem sejam tão importantes assim para ter objetivos bem definidos. Afinal, por que fazer esse exercício mental?

 

Felizmente, independente da importância que você dará às personagens ou do quão diferentes elas sejam de você, há uma maneira de guiar suas escolhas.

 

A Solução: Arquétipos


Arquétipos são padrões de pessoas ou coisas já repetidos tantas vezes que são considerados modelos universais. Isso porque independem de cultura, traduzindo muito da essência humana.

 

Eles também não se restringem à literatura. São padrões que aparecem ao longo de toda a História, sejam personalidades ou eventos, e que por isso são refletidos nos livros.

 

Aqui vamos focar em arquétipos de personalidades. E por mais que eles sejam um pacote de características, não os confunda com estereótipos.

 

Arquétipos são naturais e estereótipos são culturais.

 

Um arquétipo é um modelo base que serve de origem para algo maior e, portanto, tende a ser expandido. Por outro lado, estereótipos são características pré-julgadas que limitam algo maior e, assim, reduzem sua interpretação.

 

Muitas vezes se desenvolve um arquétipo pensando em um estereótipo, o que resulta em um clichê.

 

Por exemplo, rebelde é aquele que vai contra os padrões atuais da sociedade. Há inúmeras maneiras de construí-lo, mas se você pensar em alguém com jaqueta de couro, óculos escuro, calça apertada, dirigindo uma moto… aí você tem um estereótipo.

 

Os Arquétipos de Jung


Há vários conjuntos de arquétipos que podem servir como referência: os signos do zodíaco, o eneagrama, os quatro temperamentos e coisas do tipo. Porém, quando se trata de personagens, um dos mais famosos é o proposto por Carl Jung.

 

Assim como os signos do zodíaco ou os outros arquétipos citados, o modelo de Jung não foi elaborado especificamente para personagens de um roteiro. Ele é um estudo psicológico, mas que acaba sendo aplicado em outras áreas como na literatura ou no posicionamento de marcas.

 

O que dita a principal diferença entre cada um dos arquétipos de Jung é o seu valor dominante, aquilo que é buscado acima de todas as coisas. E por seguir nessa direção, a personagem tende a apresentar as características de seu arquétipo.

 

Só que antes de apresentá-los, é interessante agrupá-los em categorias.

 

Se você tem uma ideia vaga de uma personagem ou não tem ideia nenhuma, comece pensando o que a motivaria a viver seus dias. Muitas pessoas, de maneira geral, não têm uma noção clara de que direção seguir na vida, pois elas nem mesmo têm consciência de seu valor dominante. No entanto, aquilo que as motiva é mais evidente.

 

Nesse quesito, os arquétipos podem ser agrupados em quatro tipos:

 

Estabilidade: querem oferecer estrutura ao mundo.

Pessoas: querem se conectar aos outros.

Maestria: querem deixar sua marca no mundo.

Independência: querem descobrir quem são.

 

Em complemento, cada uma dessas motivações pode aparecer sob três formas:

 

Socialização: colocam seu poder pessoal a favor de um grupo.

Mudança: usam seu poder pessoal para mudar o que existe.

Controle: têm consciência de seu poder pessoal e o usam como bem entenderem.

 

Tá, e o que isso significa?

 

É da combinação dessas duas classificações que surgem os doze arquétipos de Jung. Por exemplo, há pessoas que são motivadas para oferecer estrutura ao mundo e tentam fazer isso colocando seu poder pessoal a favor de um grupo. Esses são chamados de cuidadores, e é com eles que começamos…

 

 

1. Cuidadores (Estabilidade e Socialização)

Valor Dominante: Compaixão

Vivem para ajudar os outros, protegê-los, atenuar suas dores. Acreditam que uma vida só é completa se for doada ao próximo. Temem ser egoístas e às vezes são explorados sem se darem conta. Hagrid, Samwell Tarly, Primrose Everdeen.

 

2. Criadores (Estabilidade e Mudança)

Valor Dominante: Criatividade

Estabilidade e mudança podem parecer contraditórios, mas os criadores querem, na verdade, oferecer uma nova estabilidade. Eles querem transformar aquilo que imaginam em realidade e, portanto, esperam reestruturar o mundo com base em suas criações. Fogem da mediocridade. Dr. Frankstein, Qyburn, Plutarch.

 

3. Governadores (Estabilidade e Controle)

Valor Dominante: Prosperidade

Relacionam sua prosperidade ao poder que exercem sobre um grupo. Esse poder pode tanto ser usado de uma maneira abusiva quanto nobre, afinal, sua liderança pode ser mesmo o melhor para o povo. Temem ser depostos. Rei Arthur, Daenerys, Presidente Snow.

 

4. Pessoas Comuns (Pessoas e Socialização)

Valor Dominante: Segurança

Querem se misturar aos outros, fazer parte de um grupo e adequar sua vida ao padrão. Temem se destacar, suprimindo, muitas vezes, a verdadeira expressão de suas identidades. Rony Weasley, Bilbo Bolseiro.

 

5. Amantes (Pessoas e Mudança)

Valor Dominante: Amor

Acreditam que o verdadeiro amor é capaz de mudar o mundo, pelo menos o seu mundo interior. Vivem em busca dessa mudança e são capazes de criar relações profundas e duradouras. Temem não serem correspondidos. Sansa Stark, Lancelote, Peeta.

 

6. Bobos (Pessoas e Controle)

Valor Dominante: Diversão

Vivem o momento e estão sempre à procura da próxima descontração. Gostam de ser o centro das atenções e usam o humor para evidenciar a hipocrisia. Fogem do tédio a qualquer custo e não possuem um plano para o futuro. Fred e Jorge Weasley.

 

7. Heróis (Maestria e Socialização)

Valor Dominante: Sucesso

Querem provar seu valor ao mundo colocando sua cara à tapa. Assumem os riscos necessários para preencher as necessidades de um grupo. Determinados e corajosos, só desistem de uma tarefa se morrerem. Temem ser esquecidos ou desonrados. Jon Snow, Frodo, Finnick.

 

8. Rebeldes (Maestria e Mudança)

Valor Dominante: Ruptura

Querem quebrar as regras e mudar o que há de errado no mundo. Independentes, seguem seu próprio senso do que é certo e errado e fazem questão de mostrar que estão fora da caixa. Katniss Everdeen, Arya Stark, Mordred.

 

9. Magos (Maestria e Controle)

Valor Dominante: Poder

Sabem como a natureza funciona e usam esse conhecimento para moldá-la ao seu bel prazer. Procuram por uma transformação ou a conexão com Algo Maior. Geralmente são o catalisador de uma história, os responsáveis pelo pontapé inicial. Gandalf, Voldemort, Mindinho.

 

10. Inocentes (Independência e Socialização)

Valor Dominante: Felicidade

Acreditam que o paraíso na terra pode ser encontrado dentro dos valores da sociedade, no modelo de “vida perfeita” entregue por ela. Acham também que é a jornada em busca dessa vida que faz alguém descobrir quem realmente é. Geralmente são otimistas e ingênuos, podendo ser facilmente manipulados. Pippin Took, Tommen Baratheon, Arthur Weasley.

 

11. Exploradores (Independência e Mudança)

Valor Dominante: Liberdade

Buscam mudar a si mesmos. Querem desbravar o mundo e seguir pelos próprios pés, esperando encontrarem-se ao longo do caminho. Não vêem problema no isolamento e geralmente o procuram. Fogem de qualquer restrição ao seu livre-arbítrio. Sirius Black, Ygritte, Kevin (O Bardo).

 

12. Sábios (Independência e Vontade)

Valor Dominante: Conhecimento

Buscam compreender os mistérios da natureza e acreditam que somente através deles são capazes de entender a si mesmos. O único caminho aceitável é o caminho da verdade. Geralmente são as personagens mais experientes e assumem o papel de mentor. Merlin, Dumbledore, Haymitch.

 

Como Usá-los


O valor dominante de cada arquétipo não é algo concreto, é apenas um ideal. Como um rebelde pode atender seu valor de ruptura? O que ele realmente busca para preenchê-lo?

 

Definição

Primeiro, você define o objetivo principal da personagem. O rebelde pode querer organizar uma revolução ou apenas fazer questão que todos vejam que ele não dá a mínima para as regras.

 

Depois você começa a pensar em como vai mostrar ao leitor essa imagem de rebelde. Que tipo de comportamento a personagem apresenta? Como ela expressa o arquétipo através das qualidades e defeitos que possui?

 

O rebelde pode ser eloquente, valente, desleixado e arrogante. A eloquência e a valentia podem fazê-lo líder de um grupo de resistência. E ele não se importa com o desleixo, pois isso evidencia seu desprezo pelos “bons costumes”.

 

É claro que o grau de detalhamento vai depender da importância da personagem e do quanto você está disposto a investir em sua construção.

 

Diferenciação

Se quiser uma personagem marcante, acrescente detalhes que a afastem do estereótipo.

 

Pense em valores adicionais que dêem a ela mais profundidade. Pode ser que o valor secundário do seu rebelde seja paz e, por isso, ele viva em conflito consigo mesmo. Como alterar o padrão da sociedade e manter a paz? Se ela for quebrada e uma revolução for instalada, será possível equilibrar as coisas novamente?

 

Combine também diferentes arquétipos. Dificilmente sua personalidade cabe inteira dentro das fronteiras do Rebelde. Pode ser que esse seja o arquétipo dominante e ele incorpore traços de outros, mas pode ser também que haja dois dominantes…

 

Nem sempre as fronteiras são fáceis de definir. Gandalf é mais Mago ou mais Sábio? Sansa Stark é mais Amante ou Inocente?

 

Se você for pensar em um objetivo interno e um externo, talvez cada um esteja relacionado a um arquétipo diferente. Lembre-se que Harry quer derrotar Voldemort e, assim, tem um objetivo externo ligado ao sucesso e que faz dele um Herói. Só que ele precisa aprender magia, um objetivo interno ligado ao poder e que faz dele um Mago.

 

Além disso, é bem comum que a personagem passe por uma transformação ao longo da história. Harry começa como uma Pessoa Comum, desejando pertencer a algum lugar, e vai se transformando em Herói e Mago conforme os livros avançam.

 

Seguir por esse caminho ajuda você a vencer possíveis bloqueios criativos. Com isso você vai já ter definido as principais características da personagem e, se ela for importante, você vai querer ir ainda mais a fundo. Agora você pode dar seus toques pessoais: pense em seu passado, como ela se encaixa em seu mundo, em sua maneira de falar, em possíveis tiques nervosos ou qualquer outro detalhe que a deixe única.

 

Validação

Com tudo isso em mente, fica fácil validar as escolhas feitas. Um tanto óbvio: suas escolhas tentam aproximá-la do valor dominante e são expressas através de sua personalidade…

 

Os eventos incidentes no roteiro não são por si só o atrativo de uma história. A reação das personagens a eles é que cria a conexão com o leitor. E para mantê-lo imerso em seu mundo, essas reações precisam ser congruentes.

 

Fazer o protagonista entrar na casa em chamas só por ser legal não é uma boa motivação. Você precisa amarrar esse impulso dele à sua personalidade. Apresentar ao leitor provas de que ele é o tipo de pessoa que faria isso. Reforço a palavra apresentar; afirmar um parágrafo antes que o protagonista é corajoso não é uma boa prova. É uma questão de mostrar, ao invés de contar.

 

Por isso é tão importante entregar aos poucos essa imagem que você pensou. Cada interação da personagem com o mundo é uma oportunidade de você apresentar sua personalidade, de implantá-la na mente do leitor e cativá-lo.

 

E aí, quando o protagonista precisar entrar na casa em chamas, por mais suicida que a ação pareça, você vai levar o leitor a acreditar que não havia outra reação possível. Se você conseguir fazê-lo acompanhar a sucessão de eventos pensando “infelizmente era o que ele iria fazer de qualquer jeito e eu espero que ele consiga!” sua missão foi completada com sucesso.

 

Notas Finais


Arquétipos, assim como qualquer outra técnica de roteiro, são um guia. Isso significa que você não precisa deles para construir bons personagens e muito menos deve se restringir ao que está mostrado aqui.

 

No entanto, quando você se sentir bloqueado ou achar que sua história está desandando, vale dar um passo para trás e revisitar esses conceitos. Partindo deles você pode descobrir o que está errado e até mesmo tirar alguma inspiração.

 

Há algum outro modelo de arquétipos que você conheça?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal