Coisas Que Você Deve Fazer: Personagens Incríveis

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Os personagens são a parte mais importante de qualquer história.

 

O Que Você Deve Fazer


Seus personagens devem ser incríveis. Eles devem ser vivos, genuínos, autênticos.
Devem ter dilemas profundos, motivações fortes, conflitos internos a serem resolvidos durante a história. Devem ter peculiaridades reconhecíveis, e uma voz própria inconfundível.

 

Essa regra é fácil de entender. Bons personagens instantaneamente geram interesse, empatia. Você quer ler uma história onde você se sente amigo dos personagens. Onde você quer conhecê-los e ajudá-los, onde você se decepciona quando eles erram e se orgulha quando eles superam seus obstáculos.

 

Um Pouco de Perspectiva


E nesta semana, no coisas que você deve fazer, inicio a coluna com esta regra forte. (Se você não sabe do que esta coluna se trata, dá uma olhada aqui)

 

Esta é uma bastante verdadeira. Muitos livros se sustentam por causa de um bom personagem, que tem uma boa voz para narrar a história. Muitas histórias são impactantes não pelo que acontece, mas por quem está lá. Nos lembramos de personagens marcantes pela vida inteira. Se o autor escrever um destes personagens, sua história tem muito a ganhar.

 

Isso certamente funciona, e certamente é algo a se pensar bastante. Mas calma lá, será que ter personagens extraordinários é mandatário? A seguir, vamos ver dois exemplos, um livro que faz isso e funciona, e outro que não faz isso e ainda funciona.

 

Usa e Funciona: O Nome do Vento – Patrick Rothfuss


Já resgatei princesas de reis adormecidos em sepulcros. Incendiei a cidade de Trebon. Passei a noite com Feluriana e saí com minha sanidade e minha vida. Fui expulso da Universidade com menos idade do que a maioria das pessoas consegue ingressar nela. Caminhei à luz do luar por trilhas de que outros temem falar durante o dia. Conversei com deuses, amei mulheres e escrevi canções que fazem os menestréis chorar.

Vocês devem ter ouvido falar de mim.

Essa citação sozinha vende o livro pra muita gente. Ela funciona em diversos níveis, e um deles é convencer o leitor, logo de cara, que o Kvothe é um personagem incrível. “Olha só tudo que ele já fez! O que será que esse cara vai fazer a seguir?”

 

O “Nome do Vento” é um livro sensacional, e um dos grandes motivos que fazem ele ser tão bom é o protagonista. Ouso dizer que é impossível pensar no livro sem pensar em Kvothe. Claro, toda a criação do mundo, a elaboração da simpatia, uma magia meio científica, e todos esses aspectos contribuem para o livro, mas pense bem: o que seria da história sem seu protagonista forte?

 

Ele, com todo o seu gênio, sua arrogância e ousadia, habilidades e histórias é o que me manteve lendo, mais do que todo o resto. Se você está pensando em fazer um livro com bons personagens, O Nome do Vento é um excelente estudo de caso.

 

Não Usa e Funciona: O Fim da Eternidade – Isaac Asimov


Eu não lembro do nome de nenhum dos personagens de “O Fim da Eternidade“.

 

Não, sério, zero. Tinham uns cientistas, e tinha uma mulher, acho que um cara era um “computador”, creio que ele era meio cabeçudo. Acho que o protagonista era um técnico, algo assim.

 

Veja bem; os personagens não eram ruins, mal escritos. Mas eles eram só pessoas normais, nada extraordinárias, e pouco marcantes. Certamente não eram algo a ser lembrado e celebrado, ou gente que eu me identifiquei especialmente durante a leitura. Nenhum deles era digno das canções como Kvothe.

 

E, ainda assim, o Fim da Eternidade é um dos melhores livros de Ficção Científica já escritos.

E aí, como se resolve esse problema? O livro é bom mas não tem bons personagens, isso é possível?

 

A questão é resolvida analisando um pouco o propósito do livro. Diferente do Nome do Vento, O Fim da Eternidade não é sobre uma pessoa e a sua jornada. É sobre uma nova tecnologia que surge, e as consequências da sua existência. O leitor acompanha o personagem enquanto ele lida com essa situação e esses dilemas, que são muito maiores que uma pessoa só.

 

A história é sobre a situação, sobre a ciência, e sobre como a sociedade reage. As reações das pessoas são uma das últimas coisas que me interessaram enquanto eu lia; eu queria entender a ciência, o problema! Como isso seria resolvido?

 

Esses eram os ganchos que me fisgaram nas primeiras páginas, as promessas que o autor me fazia, nos primeiros capítulos. E a satisfação do final veio com as resoluções delas. Não veio com o protagonista ficando com a moça.

 

Essa é uma característica que vejo muito no trabalho do Asimov como um todo. Provavelmente alguém está me xingando mentalmente nesse momento, “como ousa falar mal do Bom Doutor!”, mas calma lá, não é bem isso. Eu estou dizendo que o foco dele era outro.

 

Propósito


A regra era que os personagens precisam ser incríveis: isso que ouço repetido por aí. E disso que discordo. Você precisa fazer personagens incríveis se a sua história é sobre personagens. E muitas histórias são sobre personagens, quem sabe até a maioria, mas não todas. Não as do Asimov.

 

Se a sua história não for sobre personagens, você precisa achar sobre o que ela é e tornar aquilo incrível. Pergunte-se constantemente por que as pessoas estão te lendo. Qual o apelo da sua história? Por que ela é especial? Saiba disso, e trabalhe com isso. Não force um ou outro aspecto porque alguém te disse.

 

Gênero e Promessas


Aqui entramos muito na discussão de gênero (confuso com a palavra? Dá uma lida aqui). O Nome do Vento e O Fim da Eternidade são muito diferentes porque são gêneros muito opostos. A magia (simpatia) até faz uma aparição bastante interessante no livro do Rothfuss, e o modo como ela é trabalhada é incrível, mas não é a coisa que me fez continuar lendo. Da mesma forma, o protagonista do livro do Asimov, Andrew Harlan (eu tive que procurar essa pra achar), tem seus momentos tensos, onde eu me relacionei com ele. Mas não foi por isso que eu estava lendo.

 

O gênero influencia as promessas que a obra me faz mesmo antes que eu leia ela. Se eu estiver lendo um livro policial, eu espero um mistério bem construído; se eu estiver lendo FC, espero conceitos científicos interessantes. Se estou lendo fantasia, espero um cenário diferente, magia, outras espécies. E, dependendo de como o livro se apresenta, espero sim bons personagens, mas não é uma necessidade.

 

Como nada é. Não existe fórmula para histórias únicas. Existem dicas, muito úteis de se saber, mas, ao final, nada é absoluto. Não se estresse se você não seguir algo que um grande autor ditou para escrever boas histórias. Analise bem o diferencial do que você está escrevendo. Pense no porquê o leitor vira a página.

 

E é por isso que eu acho que ter personagens excepcionais não é estritamente necessário. Mas e você, ficcionado, concorda, discorda? Tem alguma regra para eu tentar quebrar, num artigo futuro? Deixa seu comentário!

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele