Recursos Narrativos: Cliffhanger

com Nenhum comentário

Esse daqui é o quarto artigo da série sobre recursos narrativos. E vamos só com cliffhanger dessa vez, que ele já rendeu um artigo bem grandinho… 😉

 

Recursos Narrativos: Foreshadowing, Red Herring e Flashback/Flashforward

Recursos Narrativos: MacGuffin, Deus Ex Machina e Chekhov’s Gun

Recursos Narrativos: Save The Cat, Pet The Dog e Lampshading

 

 

Cliffhanger


O protagonista está pendurado no penhasco, sozinho. Quando tenta se erguer, um de seus braços fraqueja e escorrega. Ele firma o aperto com a outra mão, mas não consegue se puxar de volta. Seus dedos começam a escorregar. Ele grita por ajuda, mas ninguém responde.

 

Esse é um cliffhanger literal. Mas tenho certeza que você conhece o recurso; é aquele fim de capítulo que te deixa com o coração na mão, ansioso para saber o que vai acontecer em seguida.

 

Ele é extensivamente usado em séries, novelas e “thrillers de aeroporto” — à la Dan Brown, sabe?

 

E, falando assim, parece um elemento imprescindível para sua história, certo? Você quer que o leitor continue virando as páginas ou não?

 

Bem, vamos com calma. Não é todo gênero que precisa ter um cliffhanger amarrado em outro. Não me lembro, por exemplo, de ter lido uma fantasia capa e espada que tenha imprimido tanta urgência assim na maioria das páginas. Como já dissemos em outros artigos, é interessante ter momentos de baixa tensão para contrastar com os de alta (o que não significa monotonia).

 

Mas se você estiver escrevendo um suspense curto, suprimir as baixas e manter o leitor vidrado pode ser tão interessante quanto.

 

A dica mais importante sempre será conhecer melhor o que você está escrevendo e o que o leitor vai esperar de seu livro.

 

Dito isso, um cliffhanger espontâneo é sempre uma alternativa válida. Principalmente se você estiver na sequência final de um arco e quer que a tensão continue subindo…

 

Ótimo! Mas, se for usá-lo, estude-o com carinho. Se feito certo, pode sim fazer o seu leitor ficar acordado até mais tarde. Mas se feito errado, pode afastar até o mais fiel deles…

 

Há duas coisas que podem estragar um cliffhanger: não ter sido bem apresentado e não ter tido uma entrega satisfatória.

 

 

1. Montando o Cliffhanger

Às vezes temos uma boa entrega para vir logo no capítulo seguinte, mas não criamos o suspense necessário. Uma coisa é surpreender o leitor com a essência da resposta, outra é surpreendê-lo com o momento da entrega.

 

Um cliffhanger anuncia que uma resposta está por vir e deixa o leitor ansioso por ela. Não importa se é uma resposta já aguardada há três livros ou há uma página. Não importa se é uma grande revelação ou só o resultado do último conflito. O que importa é o que leitor está ansioso para saber.

 

Por outro lado, se você fizer uma entrega excelente, mas o leitor não se importar com ela naquele momento, o potencial da sua história é contido. Você perde uma chance de cativar o leitor e de, quem sabe, torná-lo seu fã.

 

Pois bem, um cliffhanger é uma das maneiras de garantir que ele estará interessado no que vier. Só que para montá-lo, não basta apenas pensar em uma cena, colocar a tensão lá em cima e interrompê-la na metade.

 

Mais do que uma interrupção, o cliffhanger é uma reviravolta abrupta e inesperada.

 

Pense nessa situação: o protagonista está amarrado e indefeso, e o vilão passa páginas e páginas brincando com ele. Aí a cena é interrompida logo antes da revelação de que o protagonista vai conseguir escapar. Preste atenção: antes dele escapar. Nessa cena não houve muitas mudanças, não é?

 

O leitor até pode está querendo saber o que vai acontecer, mas esse desejo já foi arrastado por páginas e páginas; agora ele pode muito bem colocar o livro de lado e deixar pra descobrir mais tarde. Durante esse tempo, que o vilão continue brincando com o protagonista…

 

Porém, antes do capítulo terminar pode haver uma mudança brusca na cena. Talvez o vilão finalmente tenha se cansado e vai executar o protagonista ou a cena termina logo depois da revelação de que ele se soltou. Seja como for, é essa mudança que faz o leitor se perguntar “e agora?”, e é essa pergunta que vai levá-lo até o próximo capítulo.

 

As alternativas sugeridas até criam uma mudança rápida antes da interrupção, mas não podemos dizer que elas sejam tão inesperadas assim. Então, para agitar mais as coisas, insira a aparição daquela personagem que todos achavam que estivesse morta…

 

Só que nem todo cliffhanger precisa fazer alusão é algo grandioso pra trama principal. Pequenas surpresas podem funcionar tão bem quanto as grandes. O protagonista podia estar em casa e a personagem que apareceu não precisava estar morta, talvez todos achassem que ela somente estivesse a milhares de quilômetros dali. Mas então ela bate à porta.

 

Irei repetir aqui: um bom cliffhanger é uma mudança brusca e inesperada. E pode ser montado em cima de:

 

  • Uma ação: “Lian abriu os dedos e assistiu à flecha atravessar o peito de Tom.”
  • Um resultado (geralmente a falha de uma ação): “Ela saltou e esticou os braços, mas a corda lhe escapou entre os dedos.”
  • Uma informação percebida: “As luzes apagaram e tudo o que ele ouvia era a própria respiração. Deixou a solidão se instalar e encontrou a calma. Mas o silêncio não durou muito. Havia mais alguém no quarto.”
  • Uma informação descoberta: “Eu estou grávida, pai.”
  • Uma decisão: “Estava decidido: ele partiria amanhã mesmo.”

 

 

2. Entregando a Promessa

Tenha em mente que o cliffhanger é uma promessa, e uma promessa grande e rápida. Se você não souber manejá-la, irá deixar seu leitor insatisfeito. Caso você abuse do recurso, pode perdê-lo para sempre.

 

Se você termina o capítulo anunciando um barulho na mata, é frustrante começar o próximo dizendo que foi só um pássaro. Não que você não possa subverter essa tensão, mas uma coisa é fazê-la durante a cena, outra é transformá-la num cliffhanger.

 

Tão ruim quanto é deixar o leitor se perguntando se perdeu algo. Você faz uma promessa grande e entrega metade, aí as personagens continuam como se aquilo fosse tudo o que elas estavam esperando.

 

É como se terminasse o capítulo anunciando um acidente de carro enquanto um meteoro tá caindo. Daí o próximo começa com a resolução do acidente de carro e nem uma menção é feita ao meteoro. Tudo bem, eu até entendo que você queira guardá-lo para depois, mas se você o mencionou para aumentar o suspense no fim do último capítulo, entregue algo.

 

Terminar o livro com um cliffhanger pode ser ainda mais grave. Certo, isso pode mesmo incentivar o leitor a continuar acompanhando a série; há, inclusive, várias que fazem um excelente uso disso, mas outras nem tanto…

 

“As Crônicas de Gelo e Fogo” fazem isso muito bem, em especial A Tormenta de Espadas.

 

A eleição de Jon Snow, a fuga de Tyrion, a morte de Lysa e a aparição da Senhora Coração de Pedra… apenas para citar alguns. Mas ao mesmo tempo que eles abrem novas possibilidades para os próximos volumes, eles também resolvem os principais conflitos: Jon não é punido pelo tempo com os selvagens; Tyrion não vai ser executado pela morte de Joffrey e Mindinho mostra, em cena, suas intenções.

 

Por outro lado, “The 100” já abusou um pouco do recurso — para o meu estilo, ele abusou um tanto demais. Achei o primeiro volume esticado, acontece pouca coisa e menos ainda é revelado, parece que todos os núcleos estão enrolando, esperando que aquele final aconteça. O cliffhanger acabou soando forçado, como se fosse uma tentativa da Kass de dizer “viu, tem algo muito maior por trás de tudo isso; eu sei que eu só te enrolei essas 200 páginas, mas vai lá, compra o segundo livro que eu vou compensar”. Até pode ser, mas eu ainda não dei essa chance para ela.

 

(Não cheguei a assistir à série, mas ouvi dizer que o cliffhanger do primeiro livro é o cliffhanger do primeiro episódio… aí já temos uma diferença gigante ^^)

 

Então se for usá-lo no fim de um livro, respeite o tempo que o leitor investiu. O fim pode sim abrir novas perguntas, só o suficiente para despertar a curiosidade. Mas não se esqueça de responder boa parte das antigas e amarrar as pontas soltas. O leitor precisa terminar se sentindo satisfeito com o que descobriu, mesmo que ainda haja muito mais para ser descoberto.

 

Uma dica é enfatizar as perguntas que serão respondidas naquele volume e pincelar as que virão em seguida. Assim o leitor fica satisfeito com a entrega das suas promessas mais insistentes, mas ciente de que há algo maior por vir.

 

Vou aproveitar a deixa para enfatizar que é interessante fazer isso com ou sem cliffhanger no final.

 

Pense em Harry Potter. Cada livro tem um tema principal que é bem desenvolvido e bem amarrado, sem tirar o espaço da trama principal. Em “A Câmara Secreta”, você sabe que tem todo o lance do Voldemort para ser resolvido, mas o assunto principal ali é a câmara. As perguntas que atormentam as personagem a maior parte do tempo são relacionadas à câmara. E é da câmara que vem a maior entrega do livro.

 

Continua aqui

 

 

Redes Sociais:

Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal