As Barreiras que Retêm a Sua Criatividade

com Nenhum comentário

A relação entre criar histórias e criatividade é bem direta.

 

E assim como a capacidade de contar histórias pode ser aprendida, a capacidade de criá-las também.

 

Lá no início do curso de engenharia, eu tive algumas aulas sobre criatividade. Nada muito aprofundado, uma visão geral e alguns exercícios manjados pra estimulá-la. Já ouviu falar do brainstorming? Pois então…

 

Mas o pouco que eu vi foi o suficiente pra me deixar intrigado. Passei a ler alguns livros a respeito e dar uma olhada em alguns estudos. Daí eu me convenci de que ela não tem nada de mística. Pelo contrário, é bem natural.

 

Tão natural que nascemos criativos, só que vamos deixando de ser. E se é assim, a pergunta passa de “como desenvolver a criatividade?” para “que características eu adquiri ou perdi que a afetaram?”.

 

Por trás disso repousa um conceito bem simples: a criatividade nada mais é do que maneiras de combinar aquilo que você já tem aí na sua mente. Quanto mais criativo, mais variadas são as combinações que você é capaz de fazer.

 

Quem fala bastante disso é o Murilo Gun. Hoje já fica até difícil de falar em criatividade aqui no Brasil sem citar o cara, ele tá em todas. Mas se você já viu o workshop dele, sabe que ele prefere chamar criatividade de “combinatividade”.

 

E para ampliar as combinações que somos capazes de enxergar, precisamos suspender algumas barreiras. Algumas delas construídas conforme amadurecemos, quando abrimos mão do “faz de conta” para ver o mundo de uma maneira mais “sólida”.

 

Mas antes de chegar lá, como se dá um processo criativo?

 

O Processo Criativo:


Quando estamos refletindo sobre um problema — uma situação qualquer que exija nossa criatividade —, abstraímos as informações que o constituem como tal e passamos a procurar soluções dentro de um espaço, o que chamarei aqui de “espaço criativo”.

 

Testamos combinações com o que quer que esteja lá dentro; porém, por ser um espaço limitado, os recursos disponíveis para serem combinados também são.

 

Pessoa criativas atuam, então, em duas frentes:

1. Conseguem enxergar mais combinações em um espaço reduzido e/ou

2. Conseguem mais recursos expandindo suas fronteiras.

 

E como posso fazer isso? Ou o que me priva de fazer?

 

Certo, vamos ver isso com calma. Neste artigo, exploraremos como otimizar as combinações feitas e, no da próxima semana, veremos como expandir as fronteiras.

 

As Barreiras:


Mesmo que seu espaço criativo esteja limitado, você pode melhorar sua concepção de soluções. Para tanto, como já falei, precisamos suspender algumas características que adquirimos conforme amadurecemos.

 

Muito do que está aqui foi tirado do livro de James L. Adams, “Ideias Criativas: Como Vencer Seus Bloqueios Mentais” (a tradução parece que está fora de catálogo, o original se chama “Conceptual Blockbusting: A Guide to Better Ideas”).

 

Julgamento Precipitado

Muitas vezes julgamos uma ideia antes mesmo dela ter tempo de se desenvolver. E assim a podamos ou, pior ainda, a descartamos completamente.

 

Nossa mente está ocupada testando múltiplas combinações e dificilmente lhe entregará a combinação perfeita de uma vez; às vezes, você recebe o estalo com apenas uma parte das conexões feitas, uma ideia incompleta. E aí, mesmo que você ache que essa parcela seja ruim, nunca sabe se ela levará você a uma ideia muito mais interessante…

 

O problema é que esse descarte pode ser feito muito rápido. Por isso, durante suas sessões criativas, é importante estar atento a qualquer ruído mental, preparado para registrá-lo assim que se forme.

 

O outro lado da moeda também é pernicioso: quando achamos muito rápido que uma ideia é boa demais. Isso gera uma satisfação precoce e pode interromper a busca por combinações melhores…

 

Nesse caso, porém, é mais provável que o registro seja feito. E uma vez registrada, a ideia boa pode ser maturada sempre que possível. Basta você continuar se perguntando como melhorá-la.

 

Inabilidade para Incubar

Isso é uma consequência do julgamento precipitado. Incubar uma ideia significa deixar o nosso inconsciente tomar conta dela, com carinho, enquanto nos ocupamos com outras tarefas. Significa deixá-la ter o seu tempo de maturação, “dormir com ela”, e depois empregar esforços conscientes para ver qual o progresso inconsciente.

 

Essa é uma dica que vejo com frequência. Só que colocada desse jeito, não apresenta muita novidade e, pior, até parece uma preocupação adicional.

 

Aí entra a inabilidade, pois incubar uma ideia não é ganhar uma nova preocupação.

 

No artigo sobre o Bloqueio, eu falei sobre criar espaço mental. Pois bem, preocupações nos podam espaço mental, pois alocamos uma parte de nossa mente útil tanto para remoer esses problemas quanto para se certificar de que não esqueceremos de nada importante.

 

Tá, e como incubar uma ideia propriamente?

 

Primeiro, registre-a. E registre-a em um lugar que sua mente confie. Você vai estar dizendo para ela “tudo bem, mesmo que você se esqueça completamente disso, eu ainda irei lembrar, sem problemas”. Uma preocupação a menos e um espaço mental a mais.

 

Segundo, evite cair em círculos. Você sabia que a maioria esmagadora dos pensamentos que teve hoje foram os mesmo que você teve ontem? Certa vez eu li que isso era em torno de 90%. Um tanto assustador. Ainda mais se for levar em conta que dos 10% de pensamentos novos, uma boa parte é descartada.

 

Aumentar esses 10% é desafiador, não só para a criatividade, mas para o nosso próprio amadurecimento.

 

Acredito que essa é a principal diferença entre uma preocupação e uma incubação apropriada: a sensação de avanço, de mudança, de progresso.

 

O que eu faço para incentivar minha mente a abrir caminhos novos é me forçar a escrever. Mais do que registrar a ideia de forma geral, eu escrevo suas particularidades, assim eu também estou dizendo para minha mente “já captei esses pensamentos, podemos ir adiante”.

 

Se nada novo vier, mas tudo o que já foi pensado está anotado, a incubação estará no ponto. Agora basta que você forneça a ela o espaço mental apropriado para se desenvolver. Como já citei no mesmo artigo do Bloqueio, a meditação é uma prática bem eficaz nesse quesito.

 

Falta de Apetite para o Caos

Caos. Ideias jogadas pelos cantos, semi-acabadas, conflitantes. Conflitantes não só entre si, mas também com as nossas crenças e valores. Ideias que nos incomodam, nos sacodem, nos instigam. Instigam a pensar sobre o problema, sobre as outras ideias e sobre nós mesmos. Pensamentos que não sejam lineares, organizados, enquadrados; mas sim pensamentos soltos, divagações filosóficas, questionamentos profundos.

 

Geralmente quando alguma ideia ameaça a segurança dos nossos pensamentos, tendemos a afastá-la. Criamos resistência. Seja porque a ideia é muito difícil de ser compreendida, seja porque ela vai contra nossa visão de mundo. “Como é que vou ser capaz de entender esse tal de efeito fotoelétrico? Que nome bizarro é esse?” Ou, “largar o emprego pra escrever? Não… não é possível.”

 

Ficar atento para essa repulsão ao caos é interessante, mas não acho que seja tão fácil percebê-la. Mais interessante ainda seria trabalhar a sua resiliência para suportá-lo.

 

Procurar entender um conceito que você sempre achou difícil demais é um bom exercício. O que? Você nunca entendeu as etapas da divisão celular? O que raios significa entropia? Como rochas magmáticas são formadas?

 

Quando estamos refletindo sobre conceitos que achamos difíceis de assimilar, precisamos permitir que nossa mente crie possíveis interpretações. Então elas serão testadas mentalmente na incerteza e confrontadas com as que já temos. Vivemos alguns instantes no caos.

 

Como Saramago diria: “O caos é uma ordem por decifrar”. E pode ter certeza que lá é a morada das melhores ideias, então visite-o de vez em quando, sem compromisso.

 

Medo de Assumir Riscos

Isso pode aparecer de duas maneiras:

 

  • Medo de declarar suas ideias a outros: nesse caso, anote-as, desenvolva-as e ganhe confiança nelas. Na maioria dos cenários, você não precisa divulgar de imediato o que pensou, então esse medo só será um problema se for forte o suficiente para fazer você descartar a ideia. Quando torna-se um julgamento precipitado.

Por outro lado, é interessante treinar seu lado de aceitar críticas. Mais do que aceitar a crítica sobre uma ideia vaga, é fundamental para um escritor absorver críticas sobre seu trabalho. Ainda dedicaremos um artigo a isso.

  • Medo de conviver com suas ideias: isso está diretamente relacionado com a falta de apetite para o caos. Reveja o que foi comentado na seção anterior.

 

Preocupação Prematura com os Detalhes

Isso pode virar uma obsessão. Mas lembre-se que nenhuma ideia vem pronta e tá tudo bem se a sua está incompleta. Esse é o esperado. Certo, você precisa pensar nos detalhes, eles são importantes. Porém a ideia recente ainda é muito bruta para que você tente encaixá-los.

 

Os detalhes podem sufocá-lo e fazer com que a ideia pareça complexa demais. E uma vez que ela pareça complexa, as chances de você descartá-la para procurar por uma mais fácil aumentam.

 

E mesmo que a ideia complexa sobreviva, os detalhes pensados prematuramente serão descartados ou alterados. Isso porque, quando a ideia estiver melhor polida, muito do que foi pensado não valerá mais.

 

Então concentre-se em poli-la ao seu tempo, passo a passo, com zelo. A necessidade dos detalhes aparecerá de novo, na hora certa.

 

Excesso de Motivação

Claro, motivação é um elemento fundamental para a criatividade. Sem ela, você nem começará a testar combinações. Mas assim como tudo na vida, o excesso é prejudicial.

 

Motivação demais faz com que você se agarre com muito apreço a algumas opções, ofusque outras e, principalmente, se atenha a algum ideal de perfeição. As ideias que não sejam congruentes com esse seu “superdesejo” serão eliminadas antes mesmo que você se dê conta.

 

Portanto, atenção redobrada quando a motivação excessiva aparecer. Acalme-se, continue anotando todas as ideias, não julgue e não se preocupe com os detalhes… tudo o que já foi comentado.

 

Treine o princípio oriental da “mente como a água”: não exagere nem seja displicente.

 

Tabu

Com tabu eu quero me referir a todas as coisas que enxergamos do exato jeito que são. Do jeito que fomos ensinados a enxergar. Do jeito que nossos pais e avós já enxergavam.

 

Isso não só cria uma dificuldade em ver múltiplos usos para uma mesma ideia, como também cria dificuldades de pensarmos em ideias novas para usos já atendidos. Essas ideias podem ser produtos, serviços ou um trecho de uma história…

 

Se você quiser contar a história de um cavaleiro que mata um dragão e salva uma princesa, como respingar originalidade na trama?

 

Um passo importante a ser dado é entender exatamente qual a função de cada personagem na história. Por que o dragão aparece? Pra ser morto? Qual o papel da princesa? Apenas ser resgatada?

 

Uma vez que as funções de cada parte estejam definidas, você pode preservá-las para manter o resultado desejado, mas alterar o elemento que a atende. Tem um exercício que repetimos bastante ao longo do curso de engenharia chamado de “Matriz Morfológica”. E ele consiste exatamente nisso: pensar em vários elementos que possam atender as mesmas funções.

 

Por exemplo, você usa o fogão para cozinhar seu almoço. A associação pode ser direta: quero cozinhar o almoço, então uso o fogão. Porém ao entender que aquilo que cozinha o almoço não é propriamente o fogão, mas o calor que ele gera, você pode se perguntar “será que consigo pensar em outra coisa que gere calor e seja capaz de cozinhar meu almoço?”.

 

Certo, exemplo simples. Mas mudando um pouco o cenário, o raciocínio segue similar. Você vai para o seu emprego para conseguir dinheiro. Associação direta: preciso de dinheiro, então vou para o meu emprego. Mas o que te faz conseguir dinheiro é o emprego ou a sua capacidade de produzir algo enquanto está empregado? E se assim for, você pode se perguntar “será que consigo usar minha capacidade de produzir fora do meu emprego para conseguir dinheiro?”.

 

As Conclusões:


Criatividade é permitir a si mesmo cometer erros. Arte é saber quais erros manter.” – Scott Adams

 

Então permita-se cometer erros. Eles fazem parte não só do processo criativo, mas da vida como um todo. As crianças erram o tempo inteiro, mas não parecem se importar tanto assim.

 

Talvez essa seja a maior diferença: levantamos as barreiras mencionadas aqui justamente para tentar manter nossos erros sob controle. Mas elas mais restringem nossa criatividade do que nos impedem de cometê-los.

 

Como é difícil destruir essas barreiras de vez, o melhor que podemos fazer, por ora, é suspendê-las durante nossos esforços criativos. De maneira breve, as atitudes comentadas aqui que trabalham com isso foram:

 

  • Anotar todas suas ideias;
  • Anotar todos os pensamentos que você tem a respeito de cada ideia;
  • Tentar entender conceitos complexos (de seu próprio jeito, sem medo do caos);
  • Treinar a aceitação de críticas;
  • Entender a função de cada parte que compõe uma ideia.

 

Assim você consegue um acesso maior às combinações disponíveis, otimizando o seu “espaço criativo”.

 

Mas lembre-se que a criatividade também pode ser aprimorada expandindo as fronteiras desse espaço. E isso é o que exploramos no próximo artigo!

 

E aí, ficcionado, qual a barreira que mais limita sua criatividade?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal