4 Maneiras de Escrever Cenas de Ação Melhores

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Querendo ou não, a gente acaba assistindo mais filmes do que lendo livros. Filmes são mais rápidos, não precisam de tanta atenção ou comprometimento, e também suprem a necessidade social de vivenciar aquilo com alguém. E filmes são excelentes em mostrar cenas de ação incríveis; é natural que eles inspirem os escritores a tentarem gerar aquelas emoções nos leitores. Mas como escrever cenas de ação? Será que é só descrever algo parecido com o que se veria na tela? E, mesmo que seja, qual é um bom jeito de fazer isso?

 

No artigo de hoje, vamos discutir como escrever ação sob dois pontos de vista: roteiro e estilo. Um livro, afinal, é sempre as duas coisas. O escritor precisa se preocupar com ambas para escrever cada cena, e ação é um ótimo exemplo disso. Um duelo de espadas, uma perseguição de carros, uma guerra espacial; é fácil imaginar essas situações, mas difícil escrevê-las de uma forma cativante, fluída e memorável.

 

Sem mais, eis os meus pensamentos sobre o tema:

 

Roteiro de uma Cena de Ação


Quando falo em roteiro estou me referindo ao que acontece na cena. Como chegamos na ação, como os eventos se desenrolam, etc. As duas primeiras coisas que me vêm à mente quando penso nisso são contexto e preparação.

 

Contexto

 

Começar uma história com uma cena de ação pode parecer uma decisão certa. É recomendável começar a história num ponto empolgante, não? É preciso prender o leitor logo nas primeiras páginas! E que maneira melhor de fazer isso do que com uma cena de ação?

 

Bom… Várias.

 

Esse é o primeiro ponto que eu queria discutir: ação sem contexto. Num filme pode até dar certo, os primeiros minutos cheios de explosões bem feitas e tomadas rápidas e dinâmicas, golpes marciais lindamente executados… Mas num livro não é bem assim. Mesmo a melhor descrição do mundo pode não ser tão marcante quanto uma cena com contexto.

 

O que eu quero dizer com contexto? Faça a ação importante. Dê um significado a ela. Começar com uma batalha sem importância pode ser um tiro no pé. Ninguém liga para os seus personagens logo no começo. Ninguém vai se importar se o seu protagonista quase morrer: o leitor não conhece ele ainda, porque deveria temer por ele?

 

Voltamos ao ponto do propósito. Qual o propósito da ação, o que você quer que ela signifique? Neste caso específico, eu assumi que a ação serve para criar tensão. Vida e morte, esse tipo de conflito. Mas se os personagens não são conhecidos, não há tensão.

 

Uma coisa que eu costumo pensar é que cada cena numa história deve fazer uma pergunta, e tentar responder essa pergunta. Numa cena de ação, seria algo como “será que essas pessoas vão sobreviver?”, “será que eles vão escapar?” A pergunta é muitas vezes mais importante que a resposta. Uma cena de ação que só diz ao leitor “olha só, ele venceu o duelo!” é como aquele seu amigo pentelho que fica respondendo as perguntas que você não faz.

 

Então repito: faça a ação importante. Deixe clara a motivação dos personagens, mostre o quanto aquilo significa para eles. Se você quer começar seu livro com uma luta de boxe, pode ser mais interessante começar com uma cena mais morna, do personagem se preparando, e pensando como precisa do prêmio em dinheiro para salvar seu irmãozinho da máfia. Quando ele levar os socos o leitor vai lembrar do irmãozinho, vai torcer pelo protagonista. Dê um motivo para a ação estar acontecendo. Faça o leitor se importar.

 

Matrix começa com uma sequência de ação incrível. Os efeitos especiais, a coreografia…

Mas pensa bem. Analisa um pouco a sua reação como espectador. Quando você pensa em Matrix, qual luta você se lembra? Essa inicial, da Trinity, ou a final, do Neo contra o agente Smith?

Eu acho que as chances de você se lembrar da luta final são muito maiores. E por quê? Porque na luta final você se importa. No começo você não tem a mínima ideia do que está acontecendo, e, apesar de visualmente bonito, não há tanta tensão. No final, é a luta da humanidade contra as máquinas. E a luta do Neo, que perdeu toda a vida por aquilo. Você torce por ele. A ação significa algo, tem contexto.

 

 

Preparação

 

Uma coisa que pode estragar uma boa cena de ação é um final onde o leitor sente que os personagens não mereceram aquilo. Talvez um Deus ex machina, onde uma arma vinda do além cai na mão do protagonista logo quando ele mais precisa, ou uma tropeção do vilão logo antes de desferir o golpe final.

 

Então, uma coisa muito importante é fazer o desfecho da cena ser merecido. Faça o leitor acreditar que o personagem realmente mereceu aquela vitória ou derrota, convença-o que era a coisa mais lógica a acontecer. Prepare o terreno.

 

Aqui entramos no ponto de imersão. O leitor muitas vezes quer se esquecer de que está lendo um livro: quer mergulhar nele. E um desfecho não merecido para uma cena de ação cria muitas vezes uma situação onde ele percebe que aquele personagem tinha que morrer só para que a história continuasse (como exemplifiquei aqui). E, quando o leitor percebe isso, ele volta a estar sentado lendo uma história, e não vivendo ela.

 

Uma boa cena de ação, portanto, é tanto resultado dela própria quanto do que veio antes. Prepare o terreno, mostre o que está para acontecer, mesmo que bem sutilmente.

No final do filme, há a cena onde o Luke está sendo perseguido pelo Darth Vader, no corredor da estrela da morte, sem escapatória. Essa cena já cumpre a primeira dica: o espectador quer que o Luke sobreviva, ele já se importa. Mas como ele vai fazer isso, não há para onde fugir!

Então aparece o Han Solo, e salva o dia.

Essa cena, sem a devida preparação, poderia estragar toda a sequência. Se fosse algum outro personagem vindo sabe-se-lá de onde, a pessoa pensaria “nossa, que conveniente.”

Mas foi o Han Solo, que já era amigo de Luke, e, com sorte, já havia no espectador a esperança que ele fosse mudar de ideia e retornar. Quando ele realmente fez isso, a plateia vibra.

 

Estilo em uma Cena de Ação


Ok, mas agora como se escreve uma cena de ação? Quais estruturas se deve usar? Como transfiro as imagens mentais para a página? Bom, vamos lá:

 

Não descreva demais

 

Esse é um problema que pode surgir de ver filmes demais. Nos filmes os movimentos espetaculares são muitas vezes o chamativo da cena, os golpes bem executados, os saltos de carro, as explosões. São um banquete visual.

 

Em prosa, isso não dá tão certo. Faça o teste: pegue o seu filme favorito de artes marciais e assista uma cena, tente descrevê-la em todos os detalhes possíveis. Sem pensamentos internos, sem história: só a ação. Cada chute, cada soco. A velocidade, o ângulo das pernas, a posição das mãos…

 

A minha estimativa é que depois de uns três parágrafos já começa a ficar maçante.

 

Esse é um ponto aplicado do que eu já falei em outro artigo: escrever é uma questão de prioridades. Você até pode descrever os movimentos, mas saiba que se fizer isso por muito tempo há uma chance razoável de só ser chato para o leitor.

 

A dica que dou é tentar descrever só o que é importante. Um personagem luta de uma forma peculiar, e, mais tarde, será revelado onde aprendeu aquilo? Legal, descreva uns movimentos. O pedal do carro vai quebrar no meio da perseguição? Descreva o uso do pedal, sendo pressionado com cada vez mais força.

 

Muitos detalhes jogados tiram a importância dos detalhes realmente bons. Foque em algumas descrições que você julga importantes e faça um bom trabalho nelas, e não expanda tanto o resto.

 

Use Pontuação e Parágrafos para Ditar o Ritmo

 

Uma das características de uma cena de ação é que ela é rápida. Os personagens não têm tempo para parar e pensar muito profundamente nas suas ações, eles têm que agir.

 

Como a sua prosa pode passar isso? Afinal, é o leitor que decide a velocidade das coisas, não é? Ele que decide o quão rápido quer ler.

 

Bom… É, mas nem tanto. Há algumas coisas que podem ser feitas. Dá uma olhada no painel abaixo:

 

Lucien sacou a espada num movimento só. Foi rápido e suave, e fazia a lâmina dançar enquanto avançava, lentamente, no parapeito. Os golpes vieram rápido.

 

Gordon aparou-os com dificuldade.

 

A lâmina escorregava entre seus dedos trêmulos. O assovio das espadas cortava a noite, junto com a respiração pesada deles. Cada movimento estava no limite de defendê-lo de uma morte certa.

 

Os dois dançavam no telhado.

 

Rolavam, saltavam. Traçavam pequenos cortes nas roupas do oponente, abrindo pequenas linhas vermelhas na pele.
Cada golpe mais forte. Mais rápido. Mais próximo de terminar aquilo. Gordon levantou a espada, numa aparada violenta. Mas nada encostou na lâmina. Lucien estava com a mão da espada vazia.

 

E na outra mão, agora a centímetros de Gordon, tinha uma adaga.

Lucien sacou a espada num movimento só, rápido e suave, fazendo a lâmina dançar e quando avançava lentamente no parapeito. Os golpes vieram rápido, e Gordon aparou-os com dificuldade, a lâmina escorregando entre seus dedos trêmulos, o assovio das espadas cortando a noite junto com sua respiração pesada, cada movimento no limite de defendê-lo de uma morte certa.

 

Os dois dançavam no telhado, rolando, saltando, traçando pequenos cortes nas roupas do oponente, abrindo mínimas linhas vermelhas na pele, cada golpe mais rápido, mais forte, mais próximo de terminar aquilo.

 

Gordon levantou a espada, numa aparada violenta, mas nada encostou na lâmina. Lucien estava com a mão da espada vazia.

 

Na outra mão, agora a centímetros de Gordon, tinha uma adaga.

 

Leia os dois parágrafos atentamente. Leia-os em voz alta, se puder. Os dois são corretos gramaticalmente, e não há um problema muito claro com a estrutura deles. Mas qual dos dois foi mais rápido? Qual teve as pausas mais importantes? Qual gerou mais tensão?

 

O segundo, não? Mas por quê?

 

O tamanho das frases e a pontuação dita o ritmo. A cada vírgula, há uma pausa. A cada ponto há uma pausa ainda maior.

 

A cada quebra de parágrafo, ainda maior.

 

Vê? Não foi assim que você leu, mentalmente, os últimos dois parágrafos? Veja como, também, uma frase mais longa sem pontos tende a se estender e acelerar já que na leitura você espera o ponto final para poder respirar e assimilar o que você acabou de ler. Nossa, que terror essa frase longa. Perdão.

 

De qualquer forma, essa é uma maneira. Frases mais curtas causam mais pausas; use-as em momentos-chave, que o leitor deve parar e engolir aquela informação. Mas para momentos mais frenéticos você pode fazer parágrafos maiores, frases maiores, para criar um senso de velocidade, urgência, daquele momento de ação que nunca tem pausa.

 

O interessante é que a narração que dita a ação: dá pra descrever qualquer cena como algo frenético usando esse tipo de estrutura. Isso pode ser usado para criar efeitos cômicos, cenas mundanas cheias de tensão, coisas parecidas. Experimente!

 

Pensamentos Finais


Ação tende a ser difícil. É uma das coisas que parece fácil, mas que, com o tempo e a prática, vai se percebendo o quão complexo é o equilíbrio necessário para que ela tenha o efeito desejado. Essas dicas foram essencialmente as primeiras coisas que penso quando sinto ou ouço que uma das minhas cenas de ação não está funcionando, mas são só pontos em toda uma gama de possibilidades.

 

Claro que isso tudo pode ser subvertido. Começar um livro com uma cena de ação pode dar certo se houver muito pensamento interno, se logo no começo o leitor já se importe. Brincar com o tamanho das frases pode ter vários efeitos diferentes do que sugeri aqui. Experimente, procure feedback, e tente até chegar num estilo que você se sinta confortável escrevendo.

 

E aí, Ficcionado, sente que está mais preparado para lidar com ação?

Este artigo foi sugerido por um dos nossos leitores, que nos enviou uma mensagem! Pedidos, dúvidas e críticas são muito bem-vindos, fale conosco!

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele

  • Gabriel Oliveira

    Ótimo artigo, parabéns pelo site e seus conteúdos. Queria informar sobre um erro no tópico “Estilo em uma cena de ação” onde há a frase “como transfiro as imagem mental para a página”. Espero ter ajudado! Obrigado pelo artigo.

    • Thiago Loriggio

      Obrigado pelo apoio, Gabriel! E pelo toque, acho que eu preciso colocar um pouco mais em prática nossos próprios comentários sobre revisão…