Usando Saltos Temporais na sua História

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Esta semana recebemos uma dúvida interessante:
 

Tô aqui com uma dúvida me corroendo e queria a ajuda de vocês, se não for incômodo é claro. Eu estava revisando minha sinopse e percebi que faltava mais planejamento, porém depois vi que precisaria usar SALTOS TEMPORAIS logo no primeiro ato e é aí que tá o problema. É uma história em que há muitos personagens e usa vários pontos de vista (alá Cronicas de Gelo e Fogo, mas as semelhanças param ai kkkk) e eu não sei se vai haver eventos o suficiente no começo da história para sustentar a narrativa. Agradeceria muito se vocês me ajudassem pois não tenho a menor ideia de como usá-los (e também como não usá-los) na narrativa sem deixar a história estranha.

 

Obrigado pela pergunta! Nunca é incômodo pra gente tentar responder alguma dúvida. 😉

 

Um começo tedioso, onde nada acontece ou nada que acontece tem importância, é claramente um problema. Saltos temporais, entretanto, podem facilmente ficar complicados e confusos, o que afasta o leitor mais ainda. No artigo desta terça, o Kaio falou um pouco sobre Flashbacks e Flashforwards, que são jeitos de dar saltos temporais, com algumas dicas gerais do que fazer. Pode ser um bom lugar para começar, junto com algum livro que você já tenha lido que faça isso, como por exemplo A Batalha do Apocalipse, do Eduardo Spohr (onde a história é contada toda de forma picotada, saltando entre lugares e períodos o tempo todo), ou talvez A Coisa, do Stephen King (que tem múltiplos personagens de ponto de vista, como na sua história, e vai saltando entre duas linhas temporais distintas). Ler coisas de quem fez algo parecido com o que você está querendo fazer é um bom jeito de sanar algumas dúvidas; ler tentando entender o que aconteceu, quais as decisões conscientes que o autor tomou que você pode tomar também.

 

Usar saltos temporais pode ser uma excelente ideia; dependendo do seu gênero, pode ser uma ótima maneira de lidar com exposição (em vez de falar daquele evento passado, você pode narrar um flashback sobre ele, mostrando exatamente como foi), mostrar eventos interessantes mas isolados… Dependendo de como a sua história for, os conflitos importantes, que dão vontade de ler o seu livro, podem estar separados por grandes pedaços de monotonia. Neste caso, pode ser interessante dar grandes saltos entre eles. Talvez seja até interessante mudar a ordem deles! Começar a história no meio, no ponto mais empolgante, e depois ir voltando, fazendo flashbacks, para narrar as partes necessárias para a compreensão da trama.

 

Meio complicado, talvez? Vamos a um exemplo polêmico: no Senhor dos Anéis, temos a festa do Bilbo, um acontecimento muito legal e marcante. E depois dele temos ANOS onde não acontece, bom, nada. Nos filmes esse tempo todo foi cortado, possivelmente para dar mais urgência à história. A minha sugestão seria experimentar começar pela parte do Frodo saindo do condado com os companheiros, perseguido pelas forças de Sauron. “Mas de onde veio esse anel, Frodo?”, alguém perguntaria. E então entraria um flashback, para a distante festa do vovô Bilbo, quando o anel foi passado para ele…

 

Sou um herege por achar que o Senhor dos Anéis podia ser melhor desse jeito? Provável. Não estou dizendo que seria, mas pense nas vantagens: ganchos mais evidentes no começo da história, e um grande senso de urgência.

 

Sendo mais específico, aqui algumas coisas a ter em mente quando usando saltos temporais:

 

Tenha certeza que o leitor sabe onde e quando o evento se passa

 

Deixe claro que aquilo que você está escrevendo não acontece na mesma linha do tempo do que veio imediatamente antes. Não precisa dizer “trinta anos depois”, ou “na semana anterior”; arranje jeitos mais criativos de fazer isso! Se você está escrevendo uma história baseada no mundo real, faça alguém comentar algum evento histórico, como quem ganhou a copa do mundo daquele ano, ou como alguma guerra acabou de começar ou terminar. Se for uma história de fantasia, você pode mencionar como os personagens são mais novos ou mais velhos. Se você está saltando para a frente, pode resumir as coisas importantes que aconteceram entre um salto e outro: alguém se casou, alguém morreu, o filho de alguém nasceu… Um parágrafo curto para alguns anos de acontecimentos, com alguém refletindo a respeito, alguma conversa sobre os eventos passados, ou alguém perguntando a respeito do que ocorreu (já que todo o acontecimento tem consequências…).

 

É claro, estou levando em consideração que você quer que o leitor saiba quando o evento se passa. Em alguns casos, pode ser interessante deixá-lo meio no escuro, confuso sobre quando algo aconteceu. Um caso interessante é a série Westworld, da HBO:

 

Durante a série, principalmente nos capítulos iniciais, recebemos várias cenas do que achamos que é Bernard conversando com Dolores. As cenas não fazem muito sentido, e não se encaixam muito bem com o resto da trama, mas, complexa como é a trama, é algo relevado. Achamos que Bernard tem algum motivo para estar fazendo aquilo.
 
É só bem depois que descobrimos que aqueles na realidade são flashbacks de muitos anos atrás, de antes da abertura do parque, e que não é Bernard que estava conversando com Dolores, é Arnold. A localização e tempo daqueles saltos temporais foi revelada só no final, enquanto os eventos foram mostrados antes para criar interesse nos temas chave da trama: a discussão do que é a consciência, e do que fazer se (ou seria quando?) robôs a alcançarem.

 


Deixe claro quando o evento começa e acaba

 

Além de fazer o leitor entender que aquela passagem é um salto temporal, é interessante ter certeza que ele não vai confundir eventos presentes de passados ou futuros. Deixe claro o que é presente e o que acontece fora dele. Um jeito fácil de fazer isso é isolar o evento entre cenas, criando espaços apropriados nas páginas para definir que aquele bloco de história está separado dos demais, talvez separar por capítulos bem definidos.

 

Um exemplo de quando isso é feito de forma excessivamente confusa pode ser encontrado no Pistoleiro. Eu mesmo tive que ler aquele começo algumas vezes para entender que ele começa no ponto A, volta por um tempo razoável ao ponto B, antes de A, e depois retorna ao ponto A. É um tanto confuso. Até o Stephen King falou que esse não é o melhor trabalho dele.

 


Pergunte-se se vale a pena saltar

 

Isso é uma aplicação de uma das dicas maiores: faça o seu livro conter só o essencial, só aquela parte mais importante necessária para que a história tenha seu impacto. E um dos jeitos de fazer isso é mostrar só os pontos com conflitos importantes.

 

Mas às vezes há algum evento passado interessante, e vem a ideia de fazer um flashback para mostrá-lo. Aí vem a dica: aquele evento é isolado? Não aconteceu nada de muito importante antes ou depois dele? Se ele não é isolado, por que não começar a história narrando aquele momento?

 

Pense a respeito disso. Experimente, imagine a sua história contada naquela ordem, quem sabe mostre pra alguém numa ordem e pra outra pessoa em outra. E faça uma decisão consciente a respeito.

 


Procure o momento onde aquele evento terá maior impacto

 

Pense bem, na estrutura da sua história, na ordem dos eventos e nas informações que são dadas ao leitor. Pense no que o seu salto temporal está fazendo, e no impacto que isso terá. Por exemplo, imagine que a sua cena é a morte de um personagem. Será que é legal introduzir isso no começo do livro, para o leitor saber como ele morreu? Ou no final, quando os atos daquele personagem já foram mencionados várias vezes e o leitor já sabe quem ele é e como foi importante?

 

Veja bem, nenhuma das duas é melhor que a outra: depende dos seus objetivos com a sua história.

 


Pense no efeito dos saltos temporais no ritmo da história

 

O ritmo é uma das coisas mais importantes num livro. O escritor tem que ter em mente quais são as cenas que o leitor vai acabar lendo rápido, e quais vão ser mais lentas, mais difíceis de mastigar. Não é um pecado fazer cenas mais lentas, da mesma forma que pode ser um pecado ter só ação ininterrupta, sem dar tempo pro leitor respirar.

 

Então pense no ritmo que a narrativa tem. Um bom flashback pode servir para colocar um pouco e ação num começo mais calmo, aumentando brevemente o ritmo para despertar o leitor. Não é ruim que a cronologia da sua história tenha um tempo grande onde nada de empolgante acontece; mas é ruim se isso fizer o leitor dormir.

 


Pense nos efeitos dos saltos temporais na exposição dos temas da história

 

Especificamente no início, saltos temporais são interessantes para deixar claro o que você está fazendo. Digamos que o seu livro é sobre guerras com dinossauros. Mas ele começa com três capítulos pacatos em uma vila, para deixar o leitor conhecer os personagens e o mundo. Talvez seja interessante colocar alguns flashbacks sobre batalha, para deixar o leitor decidir logo no início se aquele é o tipo de livro que ele vai gostar de ler.

 

E pense também nos temas mais profundos. Se no final a sua história é sobre a relação entre pai e filho, quem sabe ela pode começar na infância do filho, mostrando o início de tudo, para logo saltar para a adolescência. Isso cria o clima, e vai construindo o tema maior da sua história desde o início.

 


Acabei focando muito em saltos temporais fora de ordem, principalmente flashbacks, o que talvez não fosse o foco da pergunta… Mas se a ideia é simplesmente contar duas coisas com um período grande de tempo entre elas, foque nas dicas iniciais, deixar o tempo e a separação claras.

 

Bom, muitas dessas coisas são baseadas em experiências pessoais minhas, escrevendo, recebendo críticas e analisando minhas próprias histórias, que sempre têm linhas temporais malucas, cheias e idas e voltas. Veja que tentei não dar nenhuma regra absoluta; quero só levantar essas dúvidas, fazer você tomar uma decisão consciente desses aspectos, não só instintiva. Acho que a dica final é essa: escreva, experimente, pense a respeito, e tire suas próprias conclusões. Não tenha medo de errar; você não tem nada a perder.

 

E, como citado no começo, este artigo veio por causa de um e-mail de um leitor! Se você tiver dúvidas, questionamentos ou discussões, não hesite em falar com a gente! Quem sabe sua dúvida não dá um artigo…

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele