Tutorial do Scrivener 1: O Básico

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Vamos começar agora uma série de tutoriais sobre o Scrivener!

 

O Scrivener é um software voltado a escritores, um programa versátil que ajuda a organizar uma obra longa, seja de ficção ou não. Ele tem inúmeras ferramentas muito legais, e é o software que nós, do Ficcionados, usamos no dia-a-dia para os nossos projetos. Mesmo sendo um software pago, o tempo ganho com organização e praticidade, pelo menos para nós, faz valer muito a pena. A filosofia por trás dele é poder ser usado da forma que o usuário quiser, sem ter que seguir fórmulas narrativas, como a jornada do herói ou estruturas em de história em três arcos (como alguns outros softwares). Ele peca um pouco na correção gramatical em português, mas se isso for o que você está querendo, mais vale usar outro programa.

 

Já falamos do Scrivener algumas vezes aqui no site, como nestes artigos:

 

Scrivener: Motivos Para Experimentar

 

Softwares de Escrita que Você Já Conhece e Alguns que Você Deveria Conhecer

 

Muitas pessoas têm dificuldade em usar o programa, talvez pela quantidade de ferramentas que ele possui, e seu jeitão meio esquisito ao primeiro olhar. A ideia deste artigo e dos tutoriais futuros é dar uma ajuda àqueles que querem aprender a usar, já usam e querem aprender melhor, ou estão só curiosos para saber o que o programa pode fazer.

 

Este primeiro artigo será uma visão mais rápida, básica, das coisas essenciais que vão te ajudar a usar o programa melhor. Nas próximas semanas serão postados artigos específicos de algumas funções mais complexas, mergulhando fundo nas particularidades do programa.

 

Os tutoriais serão da versão 3.0, a mais recente. Se você usa Mac, ela já está disponível, enquanto para os usuários de windows ainda vai demorar mais um pouco, segundo o desenvolvedor. Aos mais intrépidos, uma versão beta de windows já está disponível para ser testada por sua conta e risco. De uma forma ou de outra, se você usa alguma versão anterior, não se assuste: a ideia básica continua a mesma, e tenho certeza de que esses tutoriais serão úteis.

 

Algumas Coisas a Saber Logo Que Começar


A ideia geral do Scrivener é usá-lo como você quiser. Sendo assim, não se preocupe muito se não estiver usando todas as funções ou não saber o que faz cada botão. O básico já é uma ferramenta bastante interessante.

 

Abrindo um projeto, você deve ver uma janela parecida com essa da imagem abaixo. As três principais áreas do Scrivener a serem conhecidas são o Fichário, à esquerda, em amarelo; o Inspetor, à direita, em vermelho; e o Editor, ao centro, em azul.

 

 

O Fichário é onde você separa o seu projeto como quiser, criando documentos e organizando-os em pastas. Você pode fazer de cada cena um documento diferente, e juntar as cenas de um capítulo em pastas. Pode organizar informações relevantes na pasta de pesquisa, fazer fichas de personagens, salvar links da internet e até arquivos de som ou vídeo. Olhando a imagem acima dá pra ver um exemplo de uso, com alguns dos elementos que citei.

 

O Inspetor é onde você vai escrever sinopses dos arquivos, para ajudá-lo ou a fazer o outline, e também é onde você fará notas, comentários, verá versões anteriores do texto, trabalhará com meta-dados, favoritos e palavras-chave. Caso ele não esteja aparecendo, é só apertar no botão azul com o “i”, no canto superior direito.

 

E o Editor é onde você vai escrever o texto propriamente dito. Ele pode ser separado em dois, para ver duas passagens lado a lado, e também pode ser ampliado para um modo em tela cheia, que é bastante útil para escrever sem nenhuma distração. Além disso, permite a visualização do quadro de cortiça e do esboçador, ambos ferramentas muito úteis para organizar e planejar projetos longos.

 

Uma estranheza que você pode notar, principalmente se estiver usando o Windows, é o formato de arquivo. O Scrivener não salva em algo tipo um arquivo com extensão .docx, do Word, que você pode enviar às pessoas: ele salva numa pasta, separando os documentos do projeto em pequenos arquivos individuais. Não mexa nesses arquivos. No Windows, para abrir o seu projeto, você tem que abrir a pasta e clicar no arquivo com a extensão .scrivx. É mais fácil, na maioria das vezes, abrir o Scrivener e pedir para ele abrir um projeto recente, pelo botão “Arquivo” na barra de ferramentas superior.

 

Quando quiser passar o arquivo para alguém, imprimí-lo ou qualquer coisa do gênero, você terá que compilá-lo. Na barra de ferramentas superior, clique em Arquivo e depois em Compilar, e uma janela parecida com esta aqui deve aparecer:

 

 

Cheque os itens a serem compilados nas caixinhas, na parte da direita (você provavelmente não quer incluir a sua pesquisa no livro, não é?), selecione o formato desejado na caixa superior (onde diz “compilar para”), e o Scrivener criará um arquivo com o seu projeto, seja em .docx, em .pdf ou num dos vários outros formatos suportados, incluindo .mobi, a ser lido em kindles. A compilação é uma coisa meio complicada, mas usando esse método acima você deve conseguir uma versão legível do seu projeto. Num artigo futuro, falaremos das opções de compilar com mais detalhes.

 

Não é necessário compilar para salvar seu projeto: salvando normalmente, usando Control+S (ou Command+S, no Mac), seu projeto será salvado naquela pasta mencionada. O Scrivener também salva a cada poucos segundos, então essa não é uma coisa a se preocupar. Eu, pessoalmente, nunca perdi nada nele, incluindo depois de quedas abruptas de luz.

 

Agora, vamos falar mais um pouco sobre as três áreas básicas.

 

O Fichário


O Fichário, como já mencionado, é o lugar onde você vai separar o seu projeto em seções. Esta é uma das maiores vantagens do Scrivener: a capacidade de quebrar o a história em várias seções menores, sejam elas capítulos, cenas, parágrafos… O que você quiser. É muito mais fácil trabalhar com pequenos pedaços de texto ao invés de ter um único arquivo enorme contendo tudo, ininterrupto. Esse tipo de coisa ajuda muito na sua produtividade, também.

 

Existem duas coisas que podem ser adicionadas ao fichário: pastas e documentos. Pode parecer meio esquisito, mas a única diferença entre eles é que as pastas não contém texto dentro delas. Você pode colocar um documento dentro de outro, e fazer uma hierarquia de organização.

 

Para adicionar um novo documento ou uma nova pasta, clique no botão correspondente na parte inferior.

 

Uma das coisas básicas que você pode fazer para modificar e deixar seu fichário mais organizado é mudar os ícones dos documentos. Quem sabe você deixe os arquivos de texto como bandeiras coloridas, usando um código de cores para definir se o documento está pronto, está precisando de revisão… Dê uma olhada nesse exemplo ao lado para ter uma ideia do que você pode fazer.

 

Para mudar o ícone, clique no arquivo ou pasta com o botão direito e selecione mudar ícone. Há como adicionar mais pacotes de ícones, como será explicado num artigo futuro.

 

O Inspetor


O Inspetor é uma das áreas mais úteis do Scrivener. Ele reúne uma grande quantidade de informações sobre cada arquivo, separadas em quatro áreas:

 

Notas

A parte de Notas, a primeira, é onde ficam as notas do documento e a sinopse. Dê uma olhada no exemplo ao lado:

 

A sinopse é onde você pode fazer um resumo da cena ou capítulo, algo curto. Um dos usos que você pode dar a isso é fazer outlines; use as sinopses das cenas para indicar brevemente o que acontece em cada ponto, para depois escrevê-las. Outro uso é ter as sinopses à mão para a revisão, e conseguir, rapidamente, lembrar o que acontece em cada ponto da história.

 

As notas atreladas a cada documento são, bom, notas. É o lugar para colocar pensamentos gerais, opiniões de terceiros, e escrever coisas úteis que você gostaria de se lembrar sobre aquela cena. É muito útil para revisão.

 

Favoritos

 

 

A segunda divisão do inspetor é a parte de favoritos, onde você pode selecionar arquivos para serem seus “favoritos”, tanto do documento quanto do projeto.

 

Qual o propósito disso? Bom, a ideia é ter sempre à mão arquivos úteis, como fichas de personagem, desenhos ou linhas do tempo, e poder checá-las constantemente lado a lado com o seu arquivo. Clicando num dos arquivos, ele será mostrado na parte inferior.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Metadados

 

 

A aba dos metadados, a terceira, é onde são reunidas uma série de informações úteis sobre o arquivo, como data de criação e modificação, palavras-chave, e os meta-dados personalizados.

 

Os meta-dados personalizados são critérios que você pode criar no seu projeto, características que você pode associar a documentos, para se organizar melhor depois. Se o seu livro tiver múltiplos pontos de vista, por exemplo, você pode criar um meta-dado “Ponto de Vista”, e listar o ponto de vista de cada cena. Também pode ser útil listar a data e horário de cada cena, para ter certeza que a sua história segue uma linha do tempo concisa. Clicando na engrenagem, é possível mudar vários fatores e criar meta-dados personalizados.

 

A parte de palavras-chave é onde você pode criar suas palavras chave e associá-las a arquivos, para poder controlar a frequência de elementos na sua história. Você pode usar isso como um jeito de controlar os personagens que aparecem nas cenas, ou talvez outros eventos e ideias recorrentes.

 

Note que os meta-dados personalizados e as palavras-chave têm usos parecidos; você pode só usar um ou outro, dependendo do que estiver querendo controlar. Fica a seu critério.

 

Essas informações podem ser visualizadas no Editor, usando a opção do Esboçador. Mais sobre isso em seguida.

 

Instantâneos

 

 

Aqui é onde você tirará instantâneos, versões anteriores do texto.

 

A ideia é ter sempre as versões anteriores do texto salvas, para poder compará-las. É um ótimo jeito de controlar a ansiedade e aquela sensação de “nossa, a versão anterior que eu escrevi estava melhor, apaguei coisas demais…” Com essa função, você pode sempre comparar as versões do texto.

 

Para criar um instantâneo do documento atual, é só clicar no “+”. Selecionando um dos instantâneos, você pode visualizá-lo na parte inferior da janela. E, clicando no botão “comparar”, é possível visualizar as diferenças entre os dois arquivos, como se pode ver no exemplo, que mostra um pedaço do texto que existia na versão 1 e foi cortado, riscado em vermelho.

 

Comentários

 

Por último, temos a sessão de comentários, onde ficam organizados os comentários do arquivo.

 

Para fazer um comentário, selecione uma parte do texto e clique no balão de fala. Uma dica rápida é que, clicando no comentário com o botão direito, você pode trocar a cor dele, para organizar os comentários em tipos diferentes, como dúvida gramatical, comentário sobre a história, frases importantes….

 

Como dá pra ver, o Inspetor no geral é muito útil. Passei só rapidamente por ele aqui, ele merece um artigo inteiro sobre suas particularidades. Uma última coisa a comentar é sobre a parte inferior, que sempre mostra um seletor de duas coisas: a etiqueta e o status do arquivo. Ambos são bastante customizáveis, mas a ideia básica é usar a etiqueta para definir o tipo do arquivo (seja o tipo como você quiser) e o status em como o artigo está (como rascunho, revisado, pronto).

 

O Editor


O editor é onde você vai passar a maior parte do seu tempo, apesar de ser bastante simples. Você pode usá-lo basicamente de três formas: no modo básico, onde você só visualiza o documento, no modo quadro de cortiça e no esboçador. A forma de visualização pode ser escolhida nos botões na parte superior, destacados em vermelho na imagem abaixo:

 

 

O modo básico (à esquerda) é onde você irá de fato escrever, não tem muita surpresa. Uma funcionalidade útil é que, selecionando múltiplos documentos, você pode vê-los todos “colados” um depois do outro, que pode ser útil para avaliar como as cenas se juntam.

 

Outra funcionalidade extremamente útil é o modo composição, ativando clicando no botão destacado em amarelo. Esse modo permite escrever em tela cheia, sem distrações, muito bom para se concentrar.

 

O Quadro de Cortiça

 

O nome dessa função é auto-explicativo: é um quadro de cortiça, onde os pedaços do seu livro são organizados como cartões. Isso pode ser usado para ver rapidamente todas as cenas de um capítulo, por exemplo, junto com as suas sinopses.

 

 

O Quadro de Cortiça emula quadros de cortiça de verdade, que escritores usam para planejar seus livros com cartões e notas. Ele tem algumas funções legais, como mostrar cores para organizar as etiquetas dos documentos, e uma função de organizar por etiqueta, interessante para visualizar uma história com linhas do tempo ocorrendo paralelamente, por exemplo.

 

O Esboçador

O esboçador é uma modo de visualização diferente, como uma tabela, onde você pode ver várias informações de cenas ao mesmo tempo. Abaixo temos um exemplo:

 

 

Aqui é possível fazer uso da seleção de etiquetas, dos meta-dados personalizados, das palavras-chave… É um ótimo jeito de visualizar todas essas informações ao mesmo tempo.

 

 

Clicando em cima da barra superior, é possível escolher uma série de opções:

 

 

Palavras Finais


O Scrivener ainda tem uma porção de opções, mas o intuito aqui era, rapidamente, dar uma introdução e algumas dicas rápidas das ferramentas mais importantes para usar o programa. Nos próximos artigos essas funções básicas serão exploradas com mais detalhes, chegando até pequenas funções bem específicas.

Redes Sociais:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele

  • Renata Lima

    Scrivener é minha religião! Simplesmente amo o programa. Uso ele não só para a escrita criativa (motivo que me levou a compra-lo), mas também no trabalho e outros projetos. 😀

    • Kaio Gabriel Joner

      Sim, Renata! Usamos ele até para escrever os posts aqui do blog. o/

  • Ítalo Silva

    Confesso que não consegui ler tudo,mas vou ler mais tarde, parei quando vi a página do seu livro. E a pergunta é: tem pra vender. Me prendeu bonito, numa única página construiu os personagens de uma forma incrível, coisa que não faço em um capítulo. Quero estudar suas técnicas com mais afinco.
    Aguardo a resposta.
    Ps: se não tiver concluído e quiser
    um leitor beta, estou aqui.

    • http://oucoisaparecida.com.br Thiago Loriggio

      Olá Ítalo! Obrigado pelo comentário 🙂
      Essa passagem que eu coloquei no artigo é de uma história que ainda não terminei de revisar, mas sai ainda esse ano, que tá com o nome provisório “A Hipótese da Magia”. Se quiser saber mais a respeito, dá uma olhada na página do meu site onde falo sobre os livros: http://oucoisaparecida.com.br/livros/
      Mas valeu pelo interesse! Se quiser bater um papo sobre escrita é só me procurar nas redes sociais o/