Recursos Narrativos: Save The Cat, Pet The Dog e Lampshading

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Continuamos a série de artigos sobre recursos narrativos. Se você ainda não leu os anteriores, dá uma conferida lá:

 

Recursos Narrativos: Foreshadowing, Red Herring e Flashback/Flashforward

Recursos Narrativos: MacGuffin, Deus Ex Machina e Chekhov’s Gun

 

“Save The Cat”/ “Pet The Dog”


Então o seu protagonista é do tipo que não mede esforços para ajudar os fracos e oprimidos. E aí você quer que seu leitor associe essa imagem a ele, mas sabe que afirmar “Fulano é corajoso, gentil e bonzinho” não é a melhor maneira de fazer isso. Você precisa mostrar.

 

“Save The Cat” é a cena clássica de introdução dos bonzinhos. Aquela em que o protagonista aparece salvando o gato que ficou preso na árvore, ajudando a velhinha a atravessar a rua ou oferecendo comida para os necessitados.

 

Legal, mas isso não é um tanto clichê?

 

Se abordada dessa forma direta, pode ser sim. Assim como a personalidade desse protagonista.

 

Mas vamos dar um passos para trás e entender o conceito em jogo aqui.

 

A personagem não precisa ser o bonzinho clássico: valente, incorruptível e sempre altruísta. O propósito do “Save The Cat” é fazer o leitor enxergar um traço de gentileza. Então a personagem pode ter medos, anseios e inseguranças, que a impeçam de salvar o gato na árvore; mas isso não significa que ela não possa ser gentil.

 

Talvez na cena ela brinque com uma criança, leve um café para o amigo que passou a noite trabalhando ou segure a porta para um desconhecido.

 

Tá, e por que fazer isso na introdução da personagem?

 

Não que isso seja um pré-requisito, mas as primeiras impressões moldam todas as demais. Então se a gentileza for uma característica importante é bom mostrá-la logo.

 

Só que para não forçar tanto a barra, você não precisa construir toda a cena em volta do ato de gentileza. Em alguns casos, uma casualidade funciona melhor.

 

Lembre-se que é sempre bom usar uma cena para vários propósitos. Faça uma lista de características da personagem e defina quais devem ser mostradas na primeira impressão. Você pode querer mostrar a gentileza, mas também alguma fraqueza ou defeito. Então arquitete a cena de acordo.

 

Mas pode ser também que a personagem fique mais gentil conforme a história avança. Então ter um “Save The Cat” no meio da trama é uma ótima forma de mostrar isso (exemplo daqui a pouco).

 

Uma variante ainda mais atenuada é chamada de “Pet The Dog”. Essa é quando a gentileza não é uma característica principal. A personagem pode ser apática ou mesmo cruel. Pode ser um anti-herói ou o antagonista.

 

Mas ainda assim você quer oferecer a esperança de que os valores dela possam ser subvertidos. Quer que o leitor acredite que há um potencial de bondade. E, nesse caso, você pode mostrar os valores corrompidos e temperar a cena com um ato tão simples quanto o de acariciar um cachorro.

 

No início de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, Jaime Lannister aparece como um dos mais cruéis antagonistas. Ainda assim, ele é o único da sua família que se importa com Tyrion. E essa relação instala um “hmm, ele não é todo mau”.

 

Lá pelo terceiro livro ele tem a sua inversão de valores. Inclusive ganha um “Save The Cat” apropriado. Finalmente livre para seguir a Porto Real com os próprios pés, ele decide voltar para Harrenhal e resgatar Brienne.

 

Lampshading


Já falamos algumas vezes que o escritor precisa saber lidar com a descrença dos leitores. A última coisa que você vai querer é que eles saiam da imersão.

 

Só que a história precisa seguir em frente e, às vezes, para sustentar um bom fluxo, acabamos recorrendo a um truque forçado. Uma coincidência estranha, uma reação inusitada ou só uma falta de originalidade.

 

É claro que isso pode ser usado com vários propósitos. Colocá-lo no gancho principal ou na solução final (ver Deus Ex Machina) é arriscado. Mas se for para criar uma motivação extra, um desenvolvimento mais profundo, um conflito mais sério ou até para corrigir um desvio do protagonista, pode funcionar.

 

Pode. Ter um propósito razoável não vai diminuir a descrença.

 

A questão é que, às vezes, coisas improváveis acontecem. Você pode chegar na sala de aula sem ter estudado e descobrir que a prova foi adiada. Você pode ouvir a informação que queria em uma conversa de desconhecidos. Mas como convencer o leitor de que isso foi uma coincidência da vida?

 

Uma alternativa é deixá-la menos coincidente. Se a prova foi adiada porque o professor passou mal, você pode usar um foreshadowing e preparar o terreno.

 

Mas com ou sem preparação, você pode também chamar atenção para o truque. Ao invés de tentar camuflá-lo e esconder sua improbabilidade (ou falta de originalidade), deixe-a explícita, diga ao leitor que você sabe que aquilo soa forçado. Isso é o lampshading.

 

O lampshading não deixa o truque menos improvável (nem mais original), mas a intenção é trazer o leitor de volta para imersão assim que a descrença for instalada.

 

Para isso você precisa saber o pensamento que tira a imersão e colocá-lo dentro do livro, como se dissesse “eu sei que você tá pensando isso, minhas personagens também; é, eu sei, é meio forçado, mas confia em mim e vamos prosseguir”.

 

No caso da prova, um amigo pode dizer: “nossa, você tem uma sorte danada!”, e aí você responde: “acho que isso nunca mais vai acontecer”.

 

É, eu sei, esse é um recurso que pode não ser lá muito satisfatório, mas confia em mim e vamos prosseguir…

 

Dependendo do uso, o lampshading pode até trazer a imersão de volta, mas abalar a confiança do leitor pro resto da história. Quanto maior for a improbabilidade e quanto maior for a importância do ato para a trama, maiores as chances da confiança ser abalada.

 

O filme “Núcleo” começa com um cientista enumerando todas as razões de por que não dá para escavar até o núcleo da Terra. E aí tudo isso é descartado com a pergunta de um militar: “tá, mas e se fosse possível?”. Além de improvável, esse é o gancho principal; pode até não tirar a imersão, mas te deixa com um pé atrás durante o resto do filme.

 

Por outro lado, em “Onde os Fracos não têm Vez”, o lampshading é usado para atenuar um clichê. Quando Carla percebe que vai ser assassinada, ela diz pro Chigurh: “você não precisa fazer isso”, e ele responde: “as pessoas sempre dizem as mesmas coisas”.

 

E se a história tiver um tom leve e descontraído, o lampshading é muito bom para criar humor.

 

Como resgatar seus protagonistas que estão prestes a morrer, sozinhos, no meio do espaço? Douglas Adams admitiu a improbabilidade de salvar Arthur e Ford de uma situação dessas. Na verdade, ele até a estimou como uma chance em 2 elevado a 276709.

 

É, realmente bem improvável. E aí, ainda assim, eles são resgastados. A solução? Um motor de improbabilidade infinita, que aumenta infinitamente as probabilidades dos eventos. 😀

 

Continua aqui

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Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal

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