Quando Contar e Quando Mostrar

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Um leitor alpha (ou seja, um amigo com boa vontade o suficiente pra ler uma versão do seu livro que fica no limite entre fazer sentido e ser só um conjunto de erros de digitação e cenas prolixas) uma vez separou um parágrafo meu e disse uma coisa que eu mesmo me vejo falando bastante pros outros:

 

“Neste pedaço, você está me contando várias coisas. Será que não é melhor você me mostrar?”

O famoso “Mostre, não conte”


 

Procurando por dicas de como escrever um livro, essa é uma das que mais ouço. “Show, don’t tell” no inglês; em português algo como “mostre, não conte”. É algo que já vi sendo dito de diversas maneiras.

 

Chuck Palaniuk diz que você deveria experimentar não usar os “verbos de pensamento”, como entender, perceber e querer. Mostre o seu personagem entendendo, não diga que ele entendeu. Narre os sons e as sombras, não diga que ele percebeu. Mostre-o admirando algo, planejando aquilo, sendo passional. Não diga que ele queria.

 

E.B. White, no clássico Elements of Style, diz “escreva com verbos e substantivos”. Não comprima o texto em adjetivos e advérbios, não modifique um andar com um simples “nervosamente” quando você pode mostrar (com verbos e substantivos) o que esse nervosamente significa, como exatamente o personagem reage a estar nervoso. Ok, quem sabe o White não quis dizer bem isso quando escreveu essa regra emblemática, mas ela se aplica bem aqui.

 

Acho que, se você nunca tenha ouvido a dica, deu para entender a essência. O diabo está nos detalhes. O escritor pode abrir ou fechar um instante em quantas palavras ele quiser. Dá pra resumir As Crônicas de Gelo e Fogo num parágrafo, da mesma forma que posso passar um livro narrando o acender de uma lâmpada. Se você parar para analisar bem por cima, vai ver que muitas histórias são extremamente parecidas, e nem precisa entrar no mérito da análise Cambeliana pra isso. Mas algumas histórias se destacam mais que outras pelos detalhes. Os detalhes que fazem um personagem deixar de ser um meio para a história acontecer e se tornar uma pessoa. O jeito que ele caminha nervosamente, o jeito que ele manifesta seu desgosto e sua felicidade, o jeito específico que ele tem para fazer as tarefas mundanas.

Legal, mas como isso fica na prática?


 

Ok, concordo, muito teórico. Digamos que, numa cena, eu queira passar uma informação simples. João estava esperando uma carta, e isso o deixou ansioso.

 

O que exatamente significa estar ansioso? Não digo o sentimento, mas qual a consequência disso? O que acontece quando você mostra o personagem ansioso, ao invés de simplesmente contar ao leitor que ele está ansioso?

 

Vamos ver três maneiras de fazer isso:

 

João passou a tarde ansioso, esperando a carta.
João passou a tarde andando de um lado para o outro, incapaz de parar num lugar só.  Os empregados vieram a ele meia dúzia de vezes, oferecendo seu uísque de costume ou alguma outra informação menor, mas tudo que ele queria era saber sobre a carta. Como não havia notícia, ele dispensava todos. Via-se ou zanzando pela casa sem rumo ou sentado na frente da janela, pelo tempo que conseguia antes de perceber que aquilo era uma perda de tempo e ir até outro canto da casa, só para pensar na carta mais uma vez e voltar até a janela.
João não falou muito naquela tarde. Dispensou o uísque, passando o tempo na sala de estudo, preso eternamente na mesma página. O mesmo parágrafo era uma música de fundo nos pensamentos, que estavam longe, na carta, e qualquer som lá fora era motivo para fazê-lo erguer os olhos, ouvindo. Trocou de livro meia dúzia de vezes, mas não leu uma página.

 

Qual a diferença entre esses três parágrafos? Ou, melhor dizendo, qual a diferença no João? O que o modo como ele se comporta tem a dizer a respeito dele, como pessoa? É aí que jaz a parte especial sobre o mostrar: o modo como João lida com a ansiedade tem muito a dizer sobre ele. Quem sabe você empatize com ele, para que, quando a carta contar que ele está para ser assassinado, você sinta o medo dele. E, com esse medo no coração, você correrá entre as páginas, batendo o pé no chão, roendo as unhas ou respirando pesado, tentando descobrir o que acontece com ele.

Bacana, então contar é bom, certo?


Quando o meu leitor alpha fez aquele comentário, todas essas coisas e algumas mais me passaram pela cabeça. Eu li a parte que ele mencionou, li o resto do capítulo, e dei uma pensada geral na estrutura da minha história. E eu respondi:

 

“Não.”

 

Olhando os três parágrafos do exemplo, há um ponto mais prático a ser notado. O parágrafo B tem cento e uma palavras; o C, sessenta e duas. O primeiro, onde João está simplesmente “ansioso”, tem oito.

 

E se o João pouco importa? E se ele só vai aparecer naquele parágrafo, para ficar ansioso e nada mais, e depois sumir da história?

 

Escrever histórias é uma questão de prioridades.

 

É uma questão de ser conciso. Eu creio que um livro deve ser o menor possível, enxugado até só sobrar a essência da história, o que realmente importa. De forma alguma isso significa que a sua história deve ser curta, isso só quer dizer que cada palavra escrita deve ter um propósito. Mas só ter um propósito não é o suficiente; deve ser um propósito que realmente adiciona à experiência de ler a história.

 

No exemplo que meu leitor alpha apontou, eu julguei que pouco importava como exatamente estavam acontecendo as coisas que eu condensei, não teria grande impacto. E, portanto, contar era um jeito mais eficiente de narrar aquela cena do que passar mais tempo mostrando algo que não adicionaria muito.

 

Isso é altamente subjetivo, como, bom, tudo, quando se fala em escrever. Você poderia argumentar que mostrar como é a ansiedade do João deixa a história mais crível, constrói a ambientação, e quem sabe esse seja o ponto especial da sua história, todos têm uma vida própria. E você não estaria errado.

 

Eu sempre penso muito em tentar entender o propósito do que você está fazendo. Não siga cegamente regras ditadas por terceiros, mas também não ignore-as. Entenda as ferramentas que são apresentadas, não só como utilizá-las, mas qual propósito elas servem na sua narrativa, para, então, poder aplicá-las entendendo o que você está fazendo.

 

Como muito do que é escrever, o negócio é praticar. Escrever e depois parar, analisando frase por frase, entendendo o que está acontecendo com o texto. Acho que é prudente não perder o sono tentando ser impecável nisso de primeira.

 

E, se você acha que eu contei algo que deveria ter mostrado, dá um toque, vamos bater um papo.

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele