Por Que Pensar em Softwares Para Escrever Ficção

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Antigamente escrever era mais fácil, para a infelicidade dos escritores. Você não tinha opções. Muito provavelmente era no papel mesmo, primeiro com pena, depois lápis, caneta, lapiseira. Finalmente veio a máquina de escrever, mas a experiência não mudou tanto assim. Era mais rápido, era mais fácil, e até houve um movimento se opondo a isso (algo nas linhas de “pela delícia que é dançar os dedos no teclado, o autor pode ficar tentando a escrever mais, colocar mais palavras desnecessárias”, como diz White no Elements of Style). Hoje em dia é diferente.

 

Há um sem fim de softwares disponíveis na internet, alguns até gratuitos, à disposição do escritor. Mas, mesmo assim, na minha experiência não parece algo que muitas pessoas param para experimentar. É um misto de comodidade, resistência à mudança e falta de informação.

 

Quando comecei, caí exatamente nisso.

 

A Escolha


Quando eu comecei a escrever, a minha escolha óbvia foi o Microsoft Word. Eu até tinha uma máquina de escrever, e cheguei a usá-la na primeira centena de páginas de uma história, mas ao final eu percebi que demorava demais.

 

Ernest Hemingway defendia que você deve escrever à mão, já que isso te força a, pelo menos, olhar o texto duas vezes: uma enquanto você escreve, outra enquanto você passa para a máquina de escrever. Alguns defendem o ponto dele, argumentando que escrever à mão é outro processo, que a dificuldade para apagar faz você pensar nas palavras com mais cautela… Pontos parecidos com os que me fizeram tentar usar a máquina de escrever por uns tempos.

 

Eu não acho que essas dicas sejam essencialmente erradas; há verdade nelas. Mas, depois de pensar bastante, eu cheguei à conclusão que hoje em dia elas são um tanto… Ingênuas.

 

O meu propósito era escrever um livro, e não no curso de 10 anos: eu precisava escrever um livro o mais rápido possível, sem sacrificar qualidade. Eu queria aprender, passar por todas as etapas, e ter algo fácil para mandar para as pessoas, para organizar e ter certeza que não se perderia. Papel é muito legal, mas eu não podia me dar ao luxo de perder uma folha, ou de tirar dez cópias do manuscrito.

 

Usar o computador é, de novo, a escolha óbvia. Escrever no teclado até pode incentivar as palavras desnecessárias, resultado de uma escrita mais rápida e visceral, mas essa mesma escrita rápida também é uma vantagem. No teclado não há o medo de perder as ideias no tempo de desenhar as palavras. Talvez escrever no papel resulte em uma primeira versão mais polida, mas escrever no computador certamente resulta numa primeira versão mais verdadeira. Estão todas as ideias lá, um pouco confusas, mas nada se perdeu.

 

Tendo desistido das ideias românticas da escrita à mão e da máquina de escrever, então, eu recorri ao primeiro software que me veio à mente: o famoso Microsoft Word. De novo, a escolha óbvia. Anos de trabalhos de escola nele e mal pensei que haveria outra opção. Comodidade e falta de informação.

 

A Experiência (ou: como perder tempo por não saber usar bem as ferramentas)


Então, com o Word em mãos (ou o teclado em mãos? Você entendeu) e meia dúzia de páginas escritas num caderno, eu comecei. Realmente não fiz nenhum tipo de pesquisa da melhor forma possível para organizar um livro, e, por isso, creio que cometi todos os erros possíveis imagináveis. Aqui algumas coisas que aconteceram:

 

Os Comentários

Como eu já mencionei, o primeiro livro que escrevi foi todo sem planejamento. Eu tinha uma ideia boa do mundo é dos personagens, mas não sabia o que ia acontecer em seguida. Então, quando comecei a escrever (tudo em um único artigo, o “zelador.docx”), logo percebi a necessidade de escrever sobre outras coisas relacionadas, como detalhes do mundo, motivações, e toda a sorte de coisas que se trabalha no livro mas que não se mostra na prosa. Então eu peguei a parte final do arquivo, as últimas páginas, coloquei uma série de traços e comecei a escrever lá mesmo. Eu podia ter feito outro arquivo para os comentários, mas achei que podia ficar desorganizado, ficar alternando entre dois arquivos. Eu sempre estava escrevendo no final, também; era só ir para baixo e lá estavam os comentários.

 

Logo essa seção de comentários começou a ficar grande. Bem grande. Eu comecei a me perder dentro dela, das ondas desconexas de texto, comentários gerais de tudo. Virou uma confusão. Eu ficava com preguiça de reler tudo, então muito do que escrevi ali acabou ignorado.

 

Pulando cenas

Outra coisa que eu fazia, como eu mencionei no meu artigo sobre produtividade, era pular cenas. É uma questão de medir esforços: num dia mais animado eu me fazia escrever as partes difíceis, mais complexas e enfadonhas de escrever (mas necessárias), é num dia menos empolgado eu escrevia as partes que mais me animavam, as cenas chave, as cenas de ação, etc. Assim, logo o texto estava cheio de buracos. Seções do tipo “nesta cena isso acontece, preciso descrever depois”.

 

Eu precisava voltar manualmente e ficar procurando essas seções, ou isso ou descer para a divisão de comentários, onde, perdido entre as notas, havia talvez um comentário falando o que eu deixei de escrever em dado dia. Começou a ficar difícil me organizar quanto a isso, apontar claramente os pontos que ainda precisavam ser escritos.

 

Revisão

Depois de terminado o primeiro rascunho, veio a revisão. Eu tinha um arquivo do Word com 170 mil palavras, entre texto puro e comentários, e precisava me achar dentro daquela confusão toda. A história ficou longa. Eu não lembrava da ordem de todas as cenas de cabeça, ou o que cada cena fazia, ou deveria fazer.

 

Escrever mais coisas no Word era impensável. Já estava no ponto que a cada comando de procurar (o famoso control+f), o programa travava, e eu ficava rezando para que eu tivesse salvado e ele não fechasse. Quando destravava eu salvava o arquivo aproximadamente setecentas vezes.

 

Assim, como eu não podia mais escrever no Word, recorri ao papel. Fui até as quebras de cena da história (onde eu só pulava uma linha, colocava um #, pulava outra e começava a próxima cena) e troquei o # por um indicador, algo como “#cena23”. Depois escrevi numa página o resumo da cena, os meus comentários, os feedbacks que recebi, o que eu acho que tinha que mudar, etc.

 

Ficou algo mais ou menos assim:

 

Como dá pra ver, ficou extremamente organizado.

 

 

O resultado

 

No final da edição eu tinha:

– um arquivo de Word enorme cheio de indicadores no próprio texto, que eu tinha que procurar usando Control F e rezava pra não travar o programa e fechar subitamente, com as várias páginas finais cheias de comentários perdidos em parágrafos enormes e prolixos;

– Várias páginas escritas à mão, referenciando as cenas pelos indicadores, cheias de comentários, que demoraram um tempo humilhante pra fazer;

– pouca ideia do que fazer em seguida.

 

Acho que eu não podia ter tido um começo mais amador.

 

Ao final eu fiz a primeira revisão e foi uma confusão, sobraram vários indicadores no texto, e fiquei com a impressão que estava ignorando alguma das notas importantes, perdidas entre o mar de comentários no final do arquivo. Perdi um tempo que sinto vergonha só de tentar estimar.

 

E aí, o que fazer?


Eu achei relevante trazer a minha experiência aqui como um caso do que não fazer. Não siga meu exemplo.

 

Mas então a ideia é não usar o Word?

 

Não, não, longe disso. O Word é um software robusto, e tem a sua função. Mas um certo planejamento deve ser feito para que você não acabe na mesma situação que eu. Vale a pena pesquisar a respeito, experimentar algumas opções e desenvolver o sistema que funciona melhor para você.

 

Mas você escreveu o livro, não escreveu? Deu certo usar o word, por que eu preciso pensar nisso?

 

Bom… É, essencialmente é verdade. Mas o ponto é produtividade. Como eu mencionei, eu não queria só escrever um livro, eu queria fazê-lo o mais rápido possível, sem perder qualidade. Eu não queria ter passado horas na minha desorganização. O uso das ferramentas adequadas nos poupa tempo, e, num argumento mais filosófico, tempo é a coisa mais preciosa que temos na vida. Simplesmente não há motivo para não tentar vários softwares para tentar ser mais organizado, manter o seu trabalho mais fácil de escrever, revisar e consultar.

 

Por onde começar?


A internet está cheia de listas de softwares que você precisa experimentar, cada uma com as suas opções. Por onde começar, então? Não tema, Ficcionado! Nos próximos artigos vamos trazer as nossas opções pessoais, e listar os vários softwares que já usamos, trazendo os pontos positivos e negativos, e como aquela ferramenta específica pode ser usada para facilitar a sua vida.

 

Enquanto isso, nesta semana, pare e pense um pouco em como anda o seu processo. Como funcionam as suas revisões? Você guarda as versões passadas? Onde ficam os seus comentários sobre a história? Você faz um bom backup? Medite um pouco a respeito, nas dez mil palavras que você vai escrever esta semana (é muito? Ah, deixa eu acreditar na sua capacidade…)

 

E, se você usa uma máquina de escrever pelo amor de Deus passa isso pro computador antes que as folhas entrem em combustão espontânea.

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele