Mudanças e Reação das Personagens

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Uma história precisa evoluir. E uma evolução se faz com mudanças.

 

Sim, elas vão temperar todo o seu roteiro.

 

E sim, elas estão relacionadas com os conflitos. Afinal, toda mudança é um potencial de conflito, e todo conflito é um potencial de mudança.

 

Vamos, então, ver como explorar os conflitos que uma mudança pode causar e como usar isso para aprofundar sua história.

 

As 5 Etapas da Mudança


Em “Sobre a Morte e o Morrer”, Dra. Kubler-Ross transcreve conversas que teve com seus pacientes terminais.

 

Ao debaterem o significado da morte, ela percebe não só reações parecidas, mas também um desenvolvimento similar dessas reações. Introduz, então, a ideia das “5 etapas do luto”.

 

Elas ficaram tão famosas que acabaram sendo expandidas. Hoje são citadas como as etapas que qualquer um enfrenta em qualquer mudança.

 

E quais são elas?

 

0. Choque. Seria um pré-estágio, antes da ficha cair. É caracterizado pela falta de reação.

 

1. Negação. A informação foi processada, mas não é aceita. Se no choque não há reação, aqui não há uma reação especial frente à mudança. A pessoa tende a fazer o que faria se nada tivesse acontecido e, muitas vezes, inventa histórias que a convençam de que nada mudou.

 

2. Raiva. A pessoa percebe que não adianta ignorar a mudança, é preciso confrontá-la. Só que ela não quer e, por isso, sente raiva ou frustração. Isso acaba culminando na busca por um culpado: pode ser ela mesma, aqueles que a cercam, a sociedade, a economia, a vida…

 

3. Barganha. Essa é a primeira tentativa de lidar com a mudança, mas é feita de forma indireta. Talvez a pessoa peça ajuda ou despeje o problema inteiro nas mãos de outro. Talvez ela fuja ou tente afastar o problema com uma mudança de vida simplória. Talvez ela procure por algo que ainda restou da sua vida antiga ou se agarre à consequência menos traumática da mudança. Talvez um pouco de tudo isso.

 

4. Depressão. Nenhuma das reações anteriores adiantou e até podem ter piorado a situação (em um roteiro é até melhor se piorarem). Aqui a pessoa não tem vontade de fazer nada e está imersa em tristeza, culpa ou medo. Está indiferente à vida e não enxerga nada de bom no futuro.

 

5. Aceitação. Chega um ponto em que a pessoa precisa dar um basta no sofrimento e percebe que o melhor é aceitar a mudança. A transformação começa a acontecer.

 

É comum dividir essa etapa em duas partes:

 

5.1. Experimentação. A pessoa encara seus demônios interiores e aceita que não há uma resposta fácil para a mudança. Consegue pesar seus prós e contras e sintetiza isso em um novo estilo de vida. Então começa a experimentá-lo.

 

5.2. Escolha. Aqui ela vai sintetizar todo o processo em uma decisão. E para fins de roteiro, essa decisão deve envolver algum tipo de perda. É impossível conciliar tudo o que ela era antes com quem ela se tornou.

 

Você percebe que é aqui que temos o saldo da mudança?

 

É quando a pessoa mostra em quem ela se transformou.

 

O leitor deve pensar: “Nossa, lá no início ela jamais teria tomado essa decisão!”. E quanto maior for a diferença, maior será o impacto na leitura.

 

+ Integração. Essa é uma etapa pós-mudança. É quando a pessoa mostra uma nova estabilidade. Em roteiros, esse seria o finalzinho da história. Aquilo que você mostra logo antes do “viveram felizes para sempre” (ou nem tão felizes assim…).

 

Observações Sobre as Etapas


Na maioria das vezes, as etapas não são tão bem-definidas:

 

  • O tempo de cada uma varia muito de caso para caso. Algumas pessoas podem viver muito mais a barganha e passar rápido pela depressão.

 

  • Nem todas as etapas precisam ser vividas. Em muitas mudanças, etapas são puladas.

 

  • Muitas vezes não há uma divisão clara entre onde começa uma etapa e termina outra. Algumas podem acontecer em paralelo, como é comum ocorrer com a raiva e a barganha.

 

  • O fim de uma etapa não significa que ela não voltará. Pode ser que a raiva, por exemplo, apareça de tempos em tempos, mesmo durante a aceitação.

 

A Curva de Kubler-Ross e Como Usá-la em seu Roteiro.


Há duas maneiras de explorá-la:

 

1. Na história como um todo.

No artigo sobre Ponto Sem Retorno, escrevi que enxergo o gancho inicial como uma mudança macro, aquela a que o protagonista vai se adaptar durante todo o roteiro.

 

Então, seguindo os passos de Shawn Coyne, você pode usar a Curva de Kubler-Ross para marcar as etapas da sua história. Se você estiver usando a estrutura de três arcos, a divisão ficaria mais ou menos assim:

 

 

Vou exemplificar elas com “Viagem ao Centro da Terra“.

 

Choque. Acontece logo após o gancho inicial. No livro, o gancho é a descoberta de um documento com runas criptografadas. Não há um choque bem-definido, Axel só mostra pouco interesse pelo assunto.

 

Negação. O próprio desinteresse é uma forma de negação. Mais tarde, quando Axel descobre o significado das runas, pensa em destruir o documento e esconder a verdade do seu tio. Nesse caso, mais do que a negação da descoberta, fica evidente o medo do seu significado.

 

Raiva. Começa como frustração, por acabar sendo forçado a revelar o significado das runas e ser incluído naquela viagem maluca. A raiva acaba indo e voltando ao longo de toda a história, dependendo do quão problemática é a situação em que Axel se encontra. E ele joga a culpa, é claro, toda em seu tio.

 

Barganha. Começa com Grauben encorajando Axel a fazer a viagem, no fim do primeiro arco. E acaba se estendendo por quase todo o segundo.

 

Axel primeiro se convence que a jornada pode ser boa, mas deixa seu tio cuidar de tudo. Quando Hans se junta ao grupo, Axel também se sente mais confiante sabendo que tem alguém capaz de ajudá-los a sobreviver. De qualquer jeito, ele não acha que o sucesso da viagem dependa de si.

 

Aqui a história transita entre perigos superados, que aumentam a confiança de Axel, e medos incertos, que fazem com que a frustração retorne e ele volte a culpar o tio.

 

Depressão. O ponto mais baixo é quando Axel se separa do grupo e sua lanterna apaga. Ele está machucado e perdido no escuro, sem perspectiva nenhuma de sobreviver.

 

Aceitação. Depois que seu tio consegue guiá-lo para saída, ele chega enfim ao centro da Terra (ou ao menos ao ponto mais significativo até lá). Aqui é quando as grandes descobertas acontecem e Axel começa a se ver como um grande explorador.

 

A Experimentação acontece justamente na tentativa de assumir um papel de explorador ao desbravar terras e oceano.

 

A Escolha que encerra a mudança é a proposta dele para explodirem a rocha que lhes barrava o caminho com pólvora. É algo que o antigo e cauteloso Axel jamais teria feito.

 

“De que forma eu falava! A alma do professor transferira-se para mim. Estava sob inspiração do gênio das descobertas. Esquecia o passado, desdenhava o futuro”, Axel momentos antes da Escolha.

 

Integração. As notícia da viagem chegam à público e eles se tornam exploradores famosos.

 

2. Em um arco, sequência ou cena.

Por trás dessa mudança maior, existem mudanças pequenas. Algumas vão exigir uma resposta rápida da personagem e você não vai ter tempo para transitar entre etapas. Outras podem ser maturadas em várias cenas, deixando com que a personagem vivencie uma etapa ou outra.

 

Mas claro, isso só faz sentido se você der chance para mudanças acontecerem. Lembre-se: uma história precisa evoluir. E uma evolução se faz com mudanças.

 

E aí, quando pensamos nas mudanças que vão temperar a história, começamos a tratar dos Pontos de Virada. Eles podem ser tanto algo grandioso, como um Ponto Sem Retorno, quanto algo simples, como uma amostra de um traço de personalidade até então oculto.

 

Aqui o assunto já se estende… O melhor é deixar para tratar disso com calma em outro artigo. 😉

 

Crie Conflitos!


Últimas palavras: acrescente conflitos que evidenciem a etapa que sua personagem está passando. Se ela está negando, mostre a situação piorando. Se ela está culpando alguém, coloque os dois frente a frente. Se ela está tentando fugir do problema, traga-o de volta por onde ela menos espera.

 

Se precisar de algumas dicas para agitar os conflitos, dê uma olhada nesse artigo.

 

Por hoje é isso, pessoal!

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Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal