Como Lidar com As Inseguranças na Hora de Escrever

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Eu entendo. Você senta para escrever, mas não confia nas palavras que saem. Talvez desconfie também das sentenças, das pontuações, das escolhas dos adjetivos, das quebras de parágrafo… Como saber se você realmente tem habilidade para escrever? Será que a sua ideia é boa o bastante? Será que um dia irão ler uma de suas páginas com satisfação? Será que esse esforço vale a pena?

 

Essas são perguntas que já passaram pela cabeça de qualquer escritor. A insegurança não é apenas comum, muito menos exclusiva dos anônimos; afinal, será que um grande escritor é capaz de superar as expectativas de seu público com o próximo livro? A maioria precisa lidar com a insegurança durante toda a carreira.

 

Mas a dúvida por si só não é algo negativo; ela permite que você olhe para o seu trabalho com um olhar mais crítico e, portanto, conduz ao aprimoramento. O excesso de confiança cega e dificilmente entregará um resultado melhor que um mediano.

 

No entanto, é claro que existe um ponto em que a insegurança se torna perniciosa. Talvez ela esteja lhe privando de tirar a sua ideia da cabeça, de finalizar o seu primeiro rascunho ou até mesmo de receber críticas construtivas…

 

Abaixo estão os tipos de inseguranças mais comuns e algumas dicas de como lidar com elas:

 

1. A sua Ideia Não te Satisfaz


A maioria das ideias que temos são ruins. Só que você não deve deixar que uma ideia ruim interrompa seu processo criativo, afinal, você nunca sabe o que pode surgir do amadurecimento dela. Quem sabe ela sirva até mesmo como inspiração para uma ideia melhor daqui a alguns meses…

 

Adquira o costume de anotar o que lhe vem à cabeça e nutra suas explosões de criatividade. Não faça julgamentos precipitados e aceite o que seus motores criativos entregam.

 

Ideias são como coelhos. Você consegue um par, aprende como lidar com eles e logo tem uma dúzia.” — John Steinbeck

 

Mas ainda assim, você pode estar sendo muito exigente. Se um número considerável de ideias já passaram pela sua cabeça, você tem todas anotadas, maturadas e nenhuma lhe agradou, é bom pedir a opinião de uns amigos.

 

Se você for do tipo que prefere não planejar a história e tem apenas um gancho em mente, pergunte se ele é interessante o suficiente.

 

Agora se você não tiver muito mais do que a temática, talvez seja melhor escrever as primeiras cenas, sentir o rumo que a história vá tomar. Não é justo dizer que uma ideia é ruim se ela mal foi desenvolvida, não é?

 

Se você já tiver um esboço do que poderia ser o seu roteiro, explique os principais pontos dele: o gancho, as complicações intermediárias, as principais reviravoltas e a entrega final, o que quer que você tenha. Peça uma opinião sincera e pergunte as expectativas criadas.

 

Ao avaliar a opinião dos seus amigos, considere também o quão perto eles estão de seu público-alvo. A propósito, você também pode ir atrás de livros com temáticas parecidas e ver a opinião dos leitores… O que eles elogiaram? O que criticaram? A sua ideia se encaixa em algum desses quesitos?

 

Mas, então, quando estiver satisfeito…

 

2. Você Acha que Irá Arruinar a sua Ideia se Colocá-la no Papel Agora


Você vem pensando nessa ideia há um bom tempo e vem polindo-a cada vez mais em seus pensamentos. Ela é algo em que você acredita, em que depositaria suas fichas. Só que não confia em sua capacidade de desenvolvê-la.

 

Pode ser que isso seja fruto de uma confiança excessiva na ideia, aliada a uma insegurança excessiva em suas habilidades. Seja como for, não espere pela perfeição; nem de sua ideia, nem de seu desenvolvimento.

 

Primeiro, veja se você não está superestimando demais o que está em sua cabeça. Conversar com uns amigos e pedir opinião é também uma boa forma de colocar seus pés no chão.

 

Dar um passo para trás e fornecer espaço para que sua ideia ganhe perspectiva é excelente para que ela não se torne inflexível demais — você nem começou a escrever ainda, não é? Então respire e dê a si mesmo o espaço necessário; não se agarre a ela com unhas e dentes como se fosse o pote dourado no fim do arco-íris.

 

Segundo, a melhor forma de ganhar confiança em suas habilidades é praticando. É fácil acreditar que não é capaz de desenvolver a ideia, se faz meses desde a última vez que você sentou para escrever e a prática ainda lhe deixou um gosto amargo. Há dias melhores e dias piores, mas a única certeza que você deve ter é a de continuar praticando.

 

Só não deixe também o pensamento de “ah, eu vou começar a treinar, talvez pense em outra coisa e deixe essa ideia aqui para um dia, daqui uns anos, quando estiver escrevendo melhor” te paralisar.

 

Certo, nada contra a guardar uma boa ideia para um próximo livro, mas se for fazer isso, deixe-a anotada e já pense no que escrever agora! Pratique! Não deixe sua prática para “amanhã”, para “depois do feriado” ou “semestre que vem, quando eu tiver mais tempo”.

 

E pratique sem se criticar demais. Estar colocando as palavras no papel é mais importante aqui. A crítica terá sua função, sem dúvida, mas ela sim deve ser guardada para “semestre que vem, quando eu tiver mais coisa escrita”.

 

3. Você Não Acha que Seja Capaz de Terminar


Então aqui você já começou a escrever. Bom.

 

Mas daí você percebeu que seu projeto é grande demais e/ou o que você já fez não lhe agradou. Pode começar a pensar que a sua ideia nem era tão boa assim e que o melhor é desistir.

 

Em relação ao tamanho, pode ser mesmo que você tenha mirado em algo muito grande. Se você não tem muita prática, é provável que acabe se sentindo sufocado ao se dar conta que sua trilogia ainda está longe de ser concluída, mesmo após meses de trabalho…

 

Nesse caso, pense na possibilidade de pausar o projeto e começar um novo. Comece com algo menor, uma crônica, um conto, uma novela… Vá ganhando confiança em si mesmo e pegando embalo.

 

Meu primeiro projeto planejado foi uma novela. Estimava não passar das 20 mil palavras. Para alguns isso pode ser muito, para outros pode ser pouco; mas para mim era o ideal: algo desafiador, mas não grande o suficiente a ponto de me deixar inseguro.

 

Depois que você tiver encontrado o seu nível de desafio, quebre-o em partes menores. Faça um plano para manter-se no trilho até a conclusão.

 

Se gosta de planejar a história, vá em frente e pense nos capítulos e nas cenas, e coloque-se para escrever uma delas sem pensar nas demais. Se prefere descobrir a história enquanto escreve, estipule metas diárias por palavras… 500 é um bom número para começar.

 

Conforme os dias passem, você irá sentir a Resistência ganhando forma e até mesmo o famoso Bloqueio dando as caras. Para isso, dê uma olhada nos artigos que já escrevemos a respeito deles.

 

Se o seu maior problema para continuar é ser muito crítico, lembre-se do item anterior: deixe sua crítica para depois e preocupe-se apenas em escrever. Falarei mais disso a seguir.

 

4. O seu Primeiro Rascunho Não te Satisfaz


Excelente! Isso apenas prova que você está no caminho certo. Primeiros rascunhos não são feitos para ficarem bons. Na verdade, o ideal é escrevê-los sem se apegar muito, esperando que fiquem bem ruins. O importante é colocá-los para fora o mais rápido possível. E só então deixar o pensamento crítico fazer o seu papel na edição.

 

Sim, a função do primeiro rascunho é apresentar as ideias de uma maneira concreta e permitir que sejam lapidadas. Enquanto estiver escrevendo-o, esteja apenas preocupado em deixar as palavras fluírem.

 

Há quem diga que quanto mais rápido você escrever o seu primeiro rascunho, menos apego emocional você cria. O que torna a edição mais fácil.

 

Mas isso também é algo a se treinar. Há sessões de escrita em que eu edito os parágrafos conforme vou escrevendo, outras em que apenas sigo em frente e não paro de teclar. As primeiras são mais lentas e acabam vindo com uma qualidade maior, mas eu prefiro as segundas.

 

Editar um parágrafo ruim é mais fácil de que escrever um bom de primeira. Além disso, escrever algo sabendo que estará aberto a futuras edições, preparado para recebê-las sem medo, pode deixar você mais ousado em sua sentenças. Você não restringe aquela frase duvidosa apenas por não saber onde ela vai levar; se descobrir que não foi a lugar nenhum, edite depois.

 

Como o seu primeiro rascunho é um trabalho inacabado, evite comparações! Não tem o menor sentido você esperar uma equivalência de qualidade de seus capítulos com os de outros livros já publicados!

 

No entanto, se você achar que saberá dosar as comparações, elas podem ser interessantes. Analisar outras obras pode fazer você perceber uma coisa ou outra a mais a ser ajustada na edição da sua. Mas é isso: compare apenas para engrandecer o que tem, jamais para depreciar.

 

Dito isso, dê uma olhada em “Por que o Escritor Deve Ler?

 

5. Você Não Está Preparado Para Mostrar o seu Trabalho


O ideal é encontrar um parceiro de crítica ou até um grupo de escrita. Encontre pessoas que o apoiem, em quem você pode confiar, mas que ao mesmo tempo saiba que irão fazer uma crítica honesta.

 

Admita que nenhuma história é perfeita e esteja preparado para receber os pontos negativos. Se eles existem, é melhor que você saiba quais são, não? E no fim das contas, você será sempre o último a colocar os pontos finais. Deverá saber receber as críticas, ponderá-las e fazer os ajustes necessários.

 

Mas esteja aberto. Mostrar o seu trabalho é a forma mais rápida para amadurecer suas habilidades. Não espere até que você tenha um manuscrito perfeito, pois pedir opiniões é justamente o que te levará aos manuscritos melhores. É como querer chegar primeiro ao fim de um caminho e só depois passar pelo meio…

 

Escrever algo ruim não é a linha de chegada, as falhas não são o final do percurso, os fracassos não são o fim do mundo e vou parar de ser prolixo aqui. Acho que você já entendeu. 😛

 

Ah, e á claro que existem pessoas que fazem críticas pouco construtivas, algumas que até gostam de falar mal de tudo que é coisa. Evite-as. Você não irá ganhar nada com elas.

 

Pensamentos Finais


Quanto maior o artista, maior a dúvida. A perfeita confiança é concedida aos menos talentosos como prêmio de consolação.” — Robert Hughes.

 

Um dos nossos maiores desafios é encontrar o ponto de equilíbrio entre confiança e insegurança. Ou, melhor ainda, ser apto a optar por um dos sentimentos conforme a situação exigir.

 

Por ora, aprenda a lidar com a insegurança e procure atenuá-la quando perceber que ela está paralisando você. Manejá-la é uma das maiores vitórias de um trabalho criativo.

 

Preparado para seguir em frente?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal

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