Como Desenvolver o Hábito de Escrever Diariamente?

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Então você está comprometido a desenvolver consistência na escrita e possui um objetivo claro e mensurável para cada dia, tal qual escrever 500 palavras (ficou perdido? veja o artigo “Como Começar a Escrever Sem Inspiração?”).

 

Mas talvez esteja com dificuldade em encontrar uma brecha em sua agenda para dedicar-se diariamente.

 

Ou talvez tenha encontrado e até começado bem, mas daí topou com aquele dia em que sua força de vontade não estava das mais altas e nem chegou a abrir o seu editor de texto.

 

O seu hábito parece simplesmente não querer vingar.

 

Pois bem, caso ache que sua consistência esteja comprometida, esse artigo é pra você!

 

O Ciclo do Hábito


Citei o Charlie Duhigg e o seu livro “O Poder do Hábito” no último artigo. Discutimos os hábitos angulares e a importância de treinar a força de vontade para iniciar qualquer outro hábito.

 

No entanto, não dei a devida atenção ao desenvolvimento do hábito da escrita em si. Apenas esclarecemos como fazer um bom uso da força de vontade (a sugestão das 500 palavras diárias veio daqui, lembra?).

 

Ótimo, então se você ainda tá com dificuldade de ganhar consistência, se liga no ciclo do hábito definido pelo Duhigg:

 

Gatilho: aquele estímulo que aciona a rotina.

Rotina: a atividade em si.

Recompensa: o benefício por ter feito a atividade.

 

É a recompensa que avisa pro cérebro se vale a pena memorizar o ciclo e desenvolver o hábito.

 

Em primeiro lugar, ela precisa gerar satisfação. Duhigg diz que o hábito só é criado quando começamos a ansiar pela recompensa tão logo o gatilho seja acionado. E é esse anseio que alimenta e fortalece o ciclo.

 

Para exemplificar isso, pense nas notificações do seu celular:

 

Sempre que um alerta for ouvido (gatilho), nos sentimo compelidos a dar uma olhada no que se trata (rotina), porque isso nos proporciona uma distração momentânea (recompensa).

 

Se estivermos envolvidos em uma atividade de elevado esforço cognitivo (lembra do Kanehman?), a distração nos permite abaixar o nível de energia de nossos processos mentais e isso nos traz alívio.

 

Assim, começamos a ansiar pela distração sempre que um alerta de notificação for ouvido; por isso deixar o celular no silencioso resolve boa parte do problema.

 

Certo, e como utilizo isso em meu favor?

 

Gatilho: Encontre o Horário Ideal e Reforce-o


Os mestres de yoga geralmente dizem que o movimento mais difícil é o caminho até o seu tapete. Com efeito, a resistência para iniciar uma atividade pode ser desvastadora; felizmente, os gatilhos a enfraquecem.

 

Existem cinco tipos de gatilhos que podem acionar um hábito: localização, horário, estado emocional, outras pessoas ou ações anteriores.

 

Acredito que desses cinco, o mais fácil de se trabalhar seja o horário.

 

Não sei como é sua agenda semanal, porém suponho que o seu horário seja meio rígido. Portanto, você já está acostumado a separar blocos de tempo para determinadas atividades, sejam elas o estudo, o trabalho, o exercício físico…

 

É bem provável também que você faça suas refeições aproximadamente num mesmo horário todos os dias. Mais do que costume, aquela é a hora em que seu cérebro já começa a aguardar pela comida.

 

Percebe como esse gatilho é eficiente?

 

Sim, sim, mas e quanto à escrita?

 

Bem, todos temos um horário do dia em que nos sentimos mais produtivos. E se ele estiver disponível para você, não terá porque pensar duas vezes.

 

De fato, existem pessoas que, não importando o quão cansativos foram seus dias, ao se sentarem para escrever às 9, 10 ou 11 da noite, ainda conseguem fluir. É como se uma parte de suas baterias de força de vontade só fosse desbloqueada nessas horas… e se isso funcionar para você, excelente.

 

Contudo, caso seu horário ideal já esteja comprometido e você não se sente muito útil no fim do dia, eu sugiro que tente ir pra cama mais cedo e acordar mais cedo. As primeiras horas do dia (as últimas da madrugada) podem ser mágicas se forem bem utilizadas.

 

Se essa não lhe soou uma boa ideia e não lhe resta outras opções, eu posso te contar como foi minha própria saga contra o despertador.

 

Eu estudei no período da tarde até o ensino médio (e mudei pra manhã apenas por falta de opção). Meu cérebro parecia simplesmente não querer funcionar antes das 8 e, assim, as primeiras horas do dia eram sempre mais lentas…

 

Minhas horas de máxima eram as da tarde e, inclusive, foi nesses intervalos que concentrei meus estudos mais intensos para o vestibular (e eles realmente rendiam…).

 

E daí esses estudos fizeram-se valer e eu entrei na faculdade. Passei a ter que acordar ainda mais cedo, pois morava bem longe do campus e o trânsito até lá não é dos mais amigáveis.

 

Isso somado a carga de estudos alta e as atividades extra-curriculares logo me fizeram adquirir menos apreço ainda por acordar cedo; descobri que os estudos para o vestibular não eram nada quando comparados à engenharia.

 

E aí chegou o ponto em que levantar da cama começou a realmente me incomodar e afetar minha produtividade durante o resto do dia. Nessa época eu já nem tinha um período em que me sentia mais produtivo, todos os horários eram iguais e todos eram de baixa.

 

Então fui atrás de algo que pudesse me ajudar. Eu já tinha lido uma coisa ou outra sobre produtividade antes, mas aqui foi quando eu mergulhei fundo nesse mundo e comecei a devorar vários livros sobre o tema.

 

Descobri uma porção de técnicas legais sobre organização de tempo. Mas a que mais me impactou foi a de acordar mais cedo e realizar sua tarefa mais importante do dia antes mesmo que ele comece.

 

A essa altura eu já tinha me convencido de que precisava mudar minha visão sobre acordar cedo.

 

Pois bem, comecei um teste. Eram férias de verão e, independente do que acontecesse, comecei a me forçar a ir pra cama mais cedo. Meu objetivo era acordar 7 da manhã e fazer algum exercício físico. Experienciei duas coisas importantes:

 

  • O fato de levantar mais cedo para me exercitar me impedia de “deixar isso para depois”, afinal, havia saído da cama justamente por esse motivo.
  • O exercício em si retirava qualquer dormência que ainda podia se instalar pelo meu corpo.

 

Passei a me sentir produtivo na manhã, algo que nunca tinha sentido antes.

 

Além disso, o exercício físico é um dos hábitos angulares que Duhigg cita, aqueles hábitos que melhoram vários outros aspectos da vida. Um deles é o próprio sono.

 

Não demorou muito e passei a levantar às 6 da manhã com pouca dificuldade. O teste tinha sido um sucesso e agora me restava testar isso durante o semestre letivo.

 

É, não foi tão fácil quanto nas férias. Mas ainda assim minha produtividade começou a crescer e passei a gastar menos tempo com os estudos… o que me rendeu tempo livre!

 

Alguns anos já se passaram desde então, testei várias atividades diferentes para abrir o meu dia e acabei desenvolvendo meu próprio ritual matinal. Vou falar disso logo mais abaixo, mas é claro que a escrita faz parte dele. 🙂

 

Certo, assim que você definir um horário, mantenha-se fiel a ele. Com a prática, apenas a hora do dia vai ser suficiente para provocar uma vontade de escrever.

 

Ainda que isso não seja a maior das inspirações, acredito que essa vontade, mesmo tímida, é ao que Somerset Maugham se referia quando disse que a inspiração sempre lhe vinha às 9 horas em ponto.

 

Mas além do horário, não posso utilizar outros tipos de gatilho?

 

Apesar de eu achar o horário o mais fácil de se começar, você pode utilizar os outros tipos de gatilho para reforçá-lo.

 

Se você sempre escreve em uma mesma escrivaninha, essa pode ser a sua localização. Só que talvez não seja tão fácil usá-la como gatilho principal, principalmente se ela for utilizada para outros fins além da escrita.

 

De qualquer forma, procure-a deixar sempre organizada e preparada para servir de base para o seu trabalho: obstruções podem exigir alguma tarefa de preparação e, mesmo que ela seja simples, fará com que a força de vontade necessária para começar a escrever aumente. Isso acabará funcionando como um “gatilho negativo”.

 

Quanto ao estado emocional, acredito que o que impulsione a escrita seja justamente o estado de inspiração. Na verdade, é bem provável que esse já seja o gatilho para você parar o que estiver fazendo e escrever; ou seja, é um hábito já consolidado. Contudo, não é muito eficiente quando estamos tratando de consistência.

 

No que toca as outras pessoas, pode ser interessante se você tiver um “parceiro de escrita”: alguém com que você se reúna para escrever. Seria como marcar com um amigo para ir à academia. O compromisso que você fez com outra pessoa ainda serviria para mantê-lo fiel à sua palavra (vou falar um pouco mais disso na parte de recompensa).

 

Entretanto, também pode ser difícil manter-se consistente caso baseie-se apenas nesses encontros.

 

Por fim, temos as ações anteriores. De todos os citados, essas eu acho que possuem o maior potencial de reforçar o horário (e, se bem utilizadas, podem até mesmo substituí-lo como gatilho principal).

 

Se você começar a escrever logo depois de fazer algo que já é um hábito seu, você pode utilizar desse mesmo hábito como gatilho para escrita. Escreva depois do seu café da manhã, depois da academia, depois do banho ou talvez até depois de uns minutos de meditação…

 

Com o tempo, você pode até mesmo criar uma sucessão de ações que te levam à escrita (e além). Assim você começa a formar o seu próprio ritual de escrita. E acredite, rituais são poderosos.

 

Hal Elrond em seu livro “O Milagre da Manhã” defende os rituais matinais. Com minha própria experiência, eu preciso concordar com ele. Se você acordar cedo e realizar uma série de ações que impulsionem o seu dia, deixando-o pronto para o que for mais importante, dificilmente sua força de vontade vai lhe deixar na mão.

 

Mesmo que seu ritual não seja matinal, você pode tentar algumas ações recomendadas por Elrond:

 

  • Silêncio: alguns minutos em que você fica sozinho, apenas com os próprios pensamentos. Isso é interessante de ser feito logo antes de começar a escrever para que você reflita sobre as ideias que serão colocadas no papel e prepare sua mente para entrar no “modo escritor”.

 

  • Leitura: muito boa para aquecer a mente e ter novas ideias. Você pode escolher algo relacionado ao tema sobre o qual irá escrever, um livro geral sobre roteiro ou qualquer outro que lhe possa servir de inspiração.

 

  • Escrita Reflexiva: na verdade o Elrond fala apenas em escrita, mas eu preferi trazê-la pra cá chamando de “reflexiva”, porque ela não se refere a escrita de que estamos tratando nesse artigo. Trata-se de alguns minutos para você colocar no papel o que passa pela sua cabeça, como quais foram as reflexões que você teve durante o silêncio e/ou a leitura.

 

A bem da verdade é que considero essas três ações fundamentais para o desenvolvimento pessoal, independente se você quiser escrever ou tocar trombone. Mas como o assunto em pauta aqui é a escrita, nada mais justo do que ter deixado os exemplos voltados a ela.

 

Rotina: Proteja-a


Enquanto você estiver executando a rotina, permaneça concentrado no que estiver fazendo.

 

Evite distrações (lembra da notificação do celular? Nossa mente estará ansiando por alguma distração, então faça o possível para dificultar que ela a receba).

 

As frases acima resumem a intenção do que quero dizer com “proteja a rotina”, mas há muito dentro disso que pode ser dito. Por isso o próximo artigo será dedicado apenas para essa parte, em que abordarei especificamente a resistência que sentimos durante a rotina.

 

Fique ligado!

 

Recompensa: Torne-a Irresistível


Como discutimos lá no início do artigo, é a recompensa que vai fazer nascer o anseio pela execução do hábito. E é o anseio que o alimenta. Portanto, ter uma recompensa irresistível é crucial.

 

E o que é irresistível?

 

Bem, isso depende de você, é claro.

 

Pode ser que somente a sensação de dever cumprido seja o suficiente. O seu objetivo de longo prazo com a escrita está tão bem definido, tão bem repartido em objetivos menores e é tão empolgante que o simples fato de você saber que ao escrever hoje estará um passo mais perto de completá-lo é o suficiente. Aqui a chave é saber nutrir aqueles objetivos menores de modo que sejam tão empolgantes quanto o de longo prazo.

 

Pode ser que você precise realizar algo prazeroso logo depois (e somente depois) de ter concluído a rotina, como se permitir comer um doce, jogar um pouco de videogame, assistir um vídeo divertido ou tocar violão. Caso for seguir por esse caminho, me parece mais lógico escolher algo prazeroso que você não faça em outro período do dia, dessa forma você consegue amarrar a recompensa escolhida apenas com a escrita.

 

Existe ainda uma outra maneira de deixar o jogo sério. Além de ter algo bom como recompensa, você pode acrescentar a graça de evitar que algo “ruim” aconteça.

 

Comprometa-se com seu objetivo publicamente ou com seus melhores amigos. Dê sua palavra a eles. Estipule metas semanais e peça para que eles as cobrem de você.

 

Se sua palavra e a cobrança não forem o bastante, combine alguma punição com seus amigos. Algo como “se essa semana eu não atingir minha meta, eu pagarei um rodízio de pizza pra todos… e vão sem mim”.

 

O fundamento por trás dessa atitude de responsabilidade e comprometimento é que nossas mentes estão tão programadas para evitar a dor quanto para buscar pelo prazer. Na verdade, há quem diga que evitar a dor seja um impulso ainda mais forte…

 

Minhas Experiências


As pessoas não escolhem seus futuros; elas escolhem os seus hábitos, e seus hábitos determinam os seus futuros” — F. M. Alexander

 

Desde que comecei a escrever diariamente, optei por fazê-lo pela manhã. No início, o tempo disponível era específico e restrito, não me restando muitas alternativas. Mesmo que agora eu tenha um horário flexível, a escrita continua sendo uma das minhas primeiras atividades após acordar.

 

Esse é o horário em que a vontade bate, o gatilho; o hábito já foi consagrado.

 

Antes mesmo de começar com isso, eu já mantinha um ritual matinal (ele não é completamente imutável e volta e meia vou testando algo novo, mas não procuro alterá-lo muito de uma só vez). E, sem dúvida, ele me ajudou com a escrita quando passei a treiná-la.

 

Na data em que escrevo esse artigo, 7 da manhã é a hora em que meus dedos tocam no teclado e ensaiam as primeiras palavras. Antes disso, eu já escovei os dentes, tomei café da manhã, me alonguei, fiz uma prática rápida de Tai Chi e sentei em silêncio por alguns minutos. Quando começo a escrever, minha mente está calma e concentrada.

 

Quanto à recompensa, a sensação de dever cumprido funciona bem para mim.

 

Mantenho metas diárias bem definidas, assim como metas de curto prazo que funcionam como marcos do meu progresso para atingir o objetivo maior. Se esse objetivo for escrever um livro, um marco poderia ser terminar um capítulo, enquanto a meta diária poderia ser escrever uma cena, ou um pedaço dela.

 

Também anunciei para os meus amigos em que data planejo publicar meu livro. Isso me ajudou, principalmente no início, a manter-me focado. Eu sabia que se deixasse um dia passar em branco, ele poderia se transformar rapidamente em dois, três ou uma semana… e isso complicaria meu prazo.

 

Entretanto, mesmo que hoje eu me considere consistente com a prática da escrita, isso não significa que meus dias possuam uma produtividade constante.

 

Há dias em que a escrita consegue me seduzir independente de quão inspirado eu me sinta, basta que eu tecle a primeira palavra. Nesses dias posso ficar imerso por longas horas sem me dar conta. A consistência cumpriu sua tarefa e ajudou a convocar a inspiração pro campo de batalha, ou pelo menos em parte.

 

Há dias em que a escrita é arrastada, e mesmo colocar as singelas 500 palavras para fora parece um sacrifício. Esses são os dias em que o hábito e a consistência são mais importantes. É difícil, mas ainda assim as palavras saem. Ficaram boas? Nesse momento não importa, no dia seguinte eu descubro.

 

E você, ficcionado, já pensou em um gatilho e em uma recompensa que lhe ajudam a ganhar consistência?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal