Exposição: Como Decidir o que Entra e o que Não Entra na sua História

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Então você criou um mundo.

 

Você desenhou mapas de todos os países, reinos, continentes inabitados, e até planetas, nele. Você fez fichas detalhadas para os seus protagonistas, antagonistas, e até personagens secundários, contando as ambições deles, as vontades, os desejos internos e externos, as habilidades e inabilidades. Você sabe o nome, sexo, cor de cabelo, altura, signo e cor preferida de todas as dezesseis milhões de pessoas que moram no país principal da sua história. Isso tudo é o que chamam de worldbuilding, ou simplesmente construção de mundo. Um cenário rico é complexo, completo, e lotado dos mais variados detalhes interessantes. Quando aplicado em personagens é a criação de uma backstory, um histórico do personagem. Bons personagens tiveram uma vida antes da história começar, cheia de nuances e acontecimentos.

 

Você pode ter lido em algum lugar que isso é desnecessário, mas, diabos, é o que você adora fazer. Ter tudo planejado. Ter todos os detalhes, desde as coisas grandes, como eras e marcos históricos, quanto as menores, como o histórico escolar do seu protagonista. Você não está errado fazendo isso; se essa é a sua paixão, vai fundo! Mas, na hora de usar esses elementos para contar histórias, é preciso ter cuidado. É preciso dominar algo que eu vou chamar de exposição.

 

O que é Exposição?


O que eu chamo de exposição é a técnica e arte de passar informações aos seus leitores. As pessoas têm que saber que o seu reino exporta carne, não? Ou que a avó do seu personagem era uma espiã russa. Você planejou tudo isso; faz parte da história.

 

Exposição pode também se referir a passar informações presentes, como o jeito que os personagens reagem a alguma coisa ou como se sentem. Mas vamos focar no worldbuilding. Nas backstories dos personagens, no seu sistema de magia, e em todos esses detalhes que existem além do seu plot.

 

Uma história é feita de detalhes, não? Bem, que forma melhor de enriquecer qualquer narrativa do que mostrar quantos detalhes existem? Falar de todas aquelas coisinhas minúsculas que fazem o seu mundo soar vivo? Eu já falei por aqui que é importante mostrar pro leitor que você se importa, que você se esforçou no seu livro; que forma melhor de fazer isso do que narrar todos os detalhes?

 

Eu entendo essa ânsia. Sério, entendo. Você ama todos os detalhes da sua história. Acha genial a forma como a guerra civil se resolveu, trinta anos atrás do seu plot principal. É óbvio que isso tudo tem que entrar na sua história, certo?

 

“Então este artigo é sobre como passar todas essas informações de uma forma legal, é isso?”

 

Bom… Não. Por mais verdadeiro que possa ter soado tudo que eu disse ali atrás, a verdade é que muito do que se planeja pra história não cabe no livro. Não é um erro ter feito todo esse planejamento; como eu falei, se é o que você ama, vai fundo. Mas pode ser maçante, desnecessário, e resumidamente amador informar ao seu leitor tudo sobre todo grão de areia do seu mundo.

 

Exposição é uma coisa complexa de se fazer bem. Separei o tema em dois artigos, e semana que vem eu vou sim falar sobre bons jeitos de expor essas informações. Hoje vou falar sobre quando essas informações devem entrar na história, e quando é melhor deixá-las só no seu planejamento.

 

Decidindo o que Expor


Como eu não me canso de dizer, escrever é uma questão de prioridades.

 

Olhe bem para toda a sua história, e olhe bem para quais informações estão nela. E seja bastante crítico: será que isso aqui melhora a experiência?

 

A primeira resposta, muitas vezes, é que sim. Claro que esse detalhe é importante! Ele dá mais vida ao mundo! Ele mostra como o meu cenário é rico e original!

 

Essa é a resposta mais lógica, a parte que tenta te convencer. O motivo real, muitas vezes, é um muito mais pessoal “poxa, mas isso aqui é tão legal, isso precisa estar na história”.

 

Aí entra a maior dificuldade: decidir o que entra e o que não entra.

 

Há vários níveis que você pode assumir no seu estilo. Você pode ser como o Anton Chekhov (como o Kaio falou esta semana), e dizer que, se algo aparece na sua história, ele DEVE ser útil depois. Se uma arma aparece, ela vai ser disparada. Se você descreve os cavalos no começo, eles vão ser montados depois. Esse é um dos extremos: nada entra ao acaso. Mas talvez seja extremo demais; há como relaxar um pouco, e descrever algumas pequenas coisas que só dão um tempero ao seu mundo. Afinal, se cada arma que aparece vai ser disparada, você corre o risco de escrever uma história excessivamente formulaica, previsível.

 

O que é melhor, então? Aí entra o seu senso de escritor. Experimente um pouco. Leia o seu trabalho múltiplas vezes. Pergunte pras pessoas.

 

O princípio que rege a “Chekhov’s Gun” é simples: o seu livro não deve ter partes inúteis. Se algo foi descrito, é mandatório que seja usado, senão ele é essencialmente inútil, e deve ser cortado. Por mais que esse seja um modo extremo de ver o problema, talvez, a base é sólida: sua história deve ser enxuta, o mais curta possível. Então, a cada informação que você der, se pergunte se ela é útil depois. A descrição daquele garçom que só apareceu uma vez provavelmente é um bom ponto para se cortar. Uma história menor é mais forte.

 

“Mas toda descrição ajuda na ambientação”, você pode pensar. “Todo detalhe ajuda a deixar meu mundo único”. Ok, claro, mas há um limite. Uma das piores coisas que você pode fazer é deixar o leitor com aquela sensação de “ok, eu entendi, você pensou em tudo, agora vamos pra parte que importa”. Se você trabalhou bem a ambientação ou falou bastante de algum detalhe em certo ponto, confie que o leitor entendeu, e está imerso. Não subestime a inteligência dos seus leitores.

 

E, quando em dúvida se uma informação deve ou não ser cortada, questione alguns pontos simples:

 

Se eu tirar essa informação, o livro faz sentido? O seu plot continua totalmente compreensível? E, se não for, será que é legal explicar isso aqui ou deixar certo mistério?

 

Se eu tirar essa informação, o livro fica menos imersivo? Este detalhe é único o suficiente para dar um ar legal pra história? Se encaixa com os temas, no espírito da narrativa?

 

Se eu tirar essa informação, algum evento fica forçado? No terceiro capítulo, seus personagens escapam da morte certa usando a propriedade secreta dos barcos voadores: eles ficam invisíveis em noites de lua cheia. Se você não explicou isso antes, vai ficar conveniente demais, um tipo de Deus Ex Machina.

 

Se a resposta a essas três perguntas for não, considere remover aquele pedaço. Faça um teste, experimente ler com e sem aquilo. Quem sabe faça um experimento com seus leitores beta, mande uma versão para um grupo e outra versão para outro. Falam que escrever é uma atividade que se faz sozinho, e com certeza é verdade, mas você pode (e até deve) pedir ajuda na hora de revisar.

 

Primeiros Rascunhos e Revisão


Se você é um planejador, você já tem o mundo inteiro feito antes mesmo de escrever a primeira cena. Então é um pouco mais fácil ir decidindo o que deve e o que não deve entrar. “Bom, em toda a história eles não vão pros países do norte, então não preciso nem mencionar eles, ou todas as guerras que aconteceram lá. Quem sabe eu não precise mencionar que a moda do reino são sapatos azuis com babados, já que o meu personagem, o Bárbaro Jonas, nunca olha pros sapatos de ninguém”. Isso é ótimo, já vai mostrando um pouco mais de senso crítico e maturidade. Mas às vezes chegam decisões difíceis: “poxa, esse martelo que o Bárbaro Jonas encontra tem uma história muito legal… Será que vale a pena contar ela?” Aí pega. A resposta é um bem pouco satisfatório “não sei”. Depende. Mas este é o seu primeiro rascunho! Na dúvida, deixa lá. Depois relê, analisa, revisa. Passa pra uns leitores beta e vê o que eles te dizem. Na dúvida, peque por excesso, e depois vá tirando a gordura. É mais fácil cortar palavras do que adicionar mais.

 

Isso é especialmente válido pros não planejadores. Se você não planeja, o mundo vai surgindo conforme a história se desenrola. E de vez em quando aparece algum detalhe importante pra justificar algum ponto da história. Nesses momentos, deixe fluir. Você pode escrever na história mesmo, sem se preocupar em já começar um compêndio de worldbuilding. Escreve tudo na história, coloca tudo ali. Depois você corta, tira a parte do worldbuilding que não é muito relevante e coloca em outro lugar, guarda pros extras da edição de colecionador do seu livro.

 

Expondo a Exposição


Como eu falei, este é um assunto bem complexo. Seu domínio é muito importante, principalmente em gêneros com mundos criados, como fantasia e ficção científica. Uma boa exposição muitas vezes é o que diferencia uma história que flui de uma maçante.

 

É meio contra-intuitivo, mas às vezes menos detalhes fazem a sua história mais única. É uma questão de prioridades. Colocar os detalhes certos. Num mar de informação, é mais difícil ver um ponto brilhante. Mas se há só aquele ponto, seu brilho será muito maior.

 

Decidir o que cortar já é um passo em direção a um livro mais conciso, mas ainda não é um domínio completo da exposição. Semana que vem vou falar especificamente de como colocar essas informações na história, algo tão (ou até mais!) importante quanto.

 

Espero ter passado todas as informações necessárias pra compreensão deste artigo; cortei uma parte grande que eu fazia uma metáfora com jacarés dançando valsa, era uma parte tão legal… Mas achei que não adicionava tanto. Enfim. Até semana que vem, Ficcionado!

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele