Elements of Style: As 8 Regras Mais Úteis Para Quem Escreve em Português

com Nenhum comentário

Quando eu pensei que deveria tentar escrever um livro, achei que seria prudente tentar estudar algo a respeito. Eu não tinha muita ideia de por onde começar, então acabei seguindo o que o Kaio escreveu na nossa página sobre — procurei quem já tinha chegado lá. Aí eu achei o Sobre Escrita, do Stephen King. Um livro pouco técnico, comparando com os que li depois, mas extremamente positivo, apesar das lições duras.

 

O Sobre Escrita mudou a minha vida. Quem sabe essa afirmação seja um tanto dramática, ou até verdadeira demais — qual é, todo livro que você lê muda a sua vida, por menor que seja essa mudança. De qualquer modo, uma das coisas que ele diz é que muitos desses livros que falam sobre escrever dizem muitas bobagens. O exemplo que ele dá de um livro que não fala bobagens é o Elements of Style.

 

O Elements foi o primeiro manual de estilo que li, descobrindo todo um gênero dedicado especialmente ao aprimoramento do estilo do autor. É um dos primeiros, e até hoje muitos consideram sua leitura mandatária não só para autores, mas para qualquer um que queira escrever melhor qualquer coisa, de uma carta a um romance, um post de blog ou uma legenda de foto do Facebook. Ok, legenda de foto talvez seja exagero, mas escrever melhor é sempre útil.

 

O problema é que o Elements é em inglês, sem tradução talvez por um bom motivo: muito do que está ali refere-se principalmente à gramática inglesa, e não serve pra quem escreve em português.

 

Mas mesmo assim há várias coisas muito interessantes escritas nele, que podem ser úteis pra qualquer um que queira melhorar a sua escrita, independente da língua usada. O livro é direto, positivo, rápido e incisivo nas suas colocações, servindo como um excelente auto-exemplo do que ele mesmo julga como boa escrita. Os capítulos II, Princípios Elementais da Composição, e V, uma Abordagem de Estilo, são especialmente interessantes. Reuni aqui, então, entre traduções livres, pensamentos próprios e adaptações, os 8 ensinamentos que julguei mais úteis.

 

Princípios Elementais da Composição


1 – Coloque frases na forma positiva

 

Faça afirmações definitivas. Evite linguagem mansa, pálida, hesitante, não comprometida. Use a palavra “não” como meio de negação ou contraposição, nunca como meio de evasão.

 

Em outras palavras, seja positivo. Diga ao leitor o que é, não o que não é. Coloque confiança na sua escrita. Isso também pode ser aplicado se sua escrita tem muitos “talvez”, “provavelmente”; guarde-os para situações com incerteza significativa, senão você perde autoridade.

 

O clima não estava muito bom.

Ela acreditava que aprender a dirigir não era uma habilidade necessária.

Ele não chegava a tempo na maioria das vezes.

O clima estava ruim.

Ela acreditava que aprender a dirigir era desnecessário.

Ele usualmente chegava atrasado.

 

2 – Use linguagem definida, específica, concreta

 

Prefira o específico ao geral, o definido ao vago, o concreto ao abstrato. (…) O jeito mais certo de provocar e segurar a atenção do seu leitor é sendo específico, definido, e concreto.

 

Não fuja de definições certas. Isso segue uma mesma linha da regra anterior: seja incisivo, não hesite nas suas palavras. Isso pode ser atingido de várias formas, uma delas mostrando ao invés de contar.

 

Ele demonstrou que entendeu a piada.

Um período de clima desfavorável assolou a cidade.

Consideração objetiva de fenômenos contemporâneos compele à conclusão que sucesso ou falha em atividades competitivas não exibe uma tendência a ser proporcional à capacidade inata, mas um considerável elemento de imprevisibilidade deve inevitavelmente ser levado em consideração.

Ele riu.

Choveu por uma semana na cidade.

Observei ainda e notei que debaixo do sol os velozes nem sempre vencem a corrida; os mais fortes nem sempre triunfam nas batalhas; os sábios nem sempre têm com o que se alimentar; nem a fortuna acompanha sempre os prudentes; nem os bem instruídos e inteligentes têm garantia de prestígio e honra; pois o tempo e o acaso afetam a todos indistintamente.

 

 

3 – Omita palavras desnecessárias

Escrita vigorosa é concisa. Uma frase não deveria conter palavras desnecessárias, ou um parágrafo frases desnecessárias, pelo mesmo motivo que uma música não deveria conter notas desnecessárias e uma máquina não deve conter peças desnecessárias. Isso não requer que o escritor faça todas as palavras serem curtas, (…) mas sim que todas as palavras contem algo.

 

Esta é uma das minhas preferidas. Nós tendemos a usar muitas, muitas palavras desnecessárias no nosso dia-a-dia. Uma centena de expressões de uso comum não têm propósito além de serem uma forma maior de expressar uma mesma ideia. Vê-se muitas construções mais complexas sendo usadas para dar um tom de formalidade e inteligência à escrita, quando na realidade elas só deixam a escrita maior, menos direta, mais difícil de compreender e mais enfadonha.

 

Em revisão, é incrível a quantidade de palavras que conseguimos tirar do manuscrito. São pequenos vícios, expressões como “essa é a razão pela qual”, “o fato que”, que, quando removidas, não apresentam nenhum ônus para a compreensão do texto, e também não têm grande efeito poético que poderia justificar seu uso.

 

Mas esta é, também, uma das mais difíceis de usar. Muitas palavras podem ser omitidas sem ônus dependendo do contexto, mas quando você deveria fazê-lo? Prática faz a perfeição. O livro defende muito que o autor desenvolva um bom ouvido para esse tipo de coisa.

 

Ele é um homem que sabe o que quer.
Este é um assunto que levanta várias dúvidas.
Ele caminhou de maneira rápida.
O fato que eu não cheguei no horário.
João, que é primo do Carlos.

 

Ele sabe o que quer.
Este assunto levanta várias dúvidas.
Ele caminhou rapidamente.
Eu me atrasei.
João, primo do Carlos.

 

 

4 – Coloque as palavras enfáticas de uma frase no final

O lugar ideal na frase para a palavra ou grupo de palavras que o autor deseja tornar mais proeminente é usualmente no final.

 

Dentro de uma frase, o final é usualmente o lugar ideal para colocar a palavra ou o grupo de palavras que o autor deseja tornar mais proeminente.

 

Analise a frase acima e a citação do livro. Consegue ver alguma diferença? Leia-as em voz alta, compare como soam. Concorda que a primeira é melhor?

 

Quando uma frase soa mal é usualmente uma boa ideia reordenar palavras dentro dela, e, enquanto fazendo isso, procurar as palavras mais importantes e jogá-las para o final pode resolver o problema. O começo da frase também é um bom lugar, mas o final é especialmente importante por causa da presença do ponto final.

 

A pontuação surgiu como forma de emular as pausas que se dá enquanto se fala. O ponto final é o momento de pausa, o lugar natural onde se para. E isso passa para a leitura; enquanto se lê, uma mínima pausa é dada depois do ponto final. Assim, a última palavra fica flutuando por esse tempo, presa na mente no instante que o leitor leva para começar a próxima frase. Nesse instante ele reflete mais sobre a palavra, lembra mais, absorve mais.

 

Esse princípio é válido não só para palavras na frase, mas também para frases num parágrafo, parágrafos numa composição, etc. Talvez para cenas numa história; é uma boa ideia ter um final impactante, e, querendo ou não, o final acaba sendo a parte definitiva para decidir se a maioria das história é boa ou ruim. Mas nesse caso eu pessoalmente não acho que o final precisa ser especialmente impactante ou forte.

 

Essa regra acaba dependendo muito de prioridades, do sentido que o autor quer dar à frase. Afinal, quem decide a palavra ou grupo de palavras mais importante é ele.

 

A humanidade dificilmente avançou em fortitude desde aquele tempo, embora tenha avançado em vários outros caminhos.

Por causa de sua dureza, o aço é muito usado para fazer ferramentas.

Desde aquele tempo, a humanidade avançou em vários caminhos, mas dificilmente avançou em fortitude.

O aço é muito usado para fazer ferramentas por causa de sua dureza.

 

Uma Abordagem de Estilo


5 – Escreva de uma forma que venha naturalmente

Escreva de uma forma que seja natural a você, usando palavras e frases que surjam facilmente.

 

 

Ou seja, não tente escrever de uma forma muito pomposa, muito complexa, ou simples demais, se esse não é o seu jeito de pensar. Não ache que um estilo particularmente diferente do seu é necessário para impressionar ou prender as pessoas para o seu texto.

 

Essa é bastante útil, também, para ser mais produtivo. Enquanto escreve, não perca tempo tentando usar frases mais complexas, palavras exóticas ou construções não ortodoxas se essas coisas não vêm rapidamente à mente. Isso deixa o texto com um tom forçado, inseguro, e possivelmente sem consistência: uma frase que o autor demorou uma hora para elaborar, perdida entre uma página de construções comuns, chama a atenção de uma forma negativa.

 

Não assuma, entretanto, que porque você fez isso sua escrita é sem falhas. Se o seu jeito natural de escrever é confuso, prolixo, trabalhe para deixá-lo mais fluido.

 

6 – Escreva com verbos e substantivos

Escreva com verbos e substantivos, não com adjetivos e advérbios. Não foi construído o adjetivo que consegue arrumar um substantivo fraco ou impreciso.

 

Essa combina muito com a regra 1. Substantivos e verbos são concretos, assertivos. Adjetivos são muitas vezes subjetivos, podendo significar várias coisas, e, por isso, não são tão adequados em criar imagens vívidas. Dizer que alguém “dava um passo a cada cinco segundos” cria uma noção muito mais real e exata do que está acontecendo do que dizer que essa pessoa estava “caminhando lentamente”.

 

Mas, como eu já disse, isso depende muito de suas prioridades. Entretanto, é bom manter em mente que, para descrições mais vivas, é sempre bom ter verbos e substantivos à mão.

 

7 – Não explique demais

Quando você explica demais, os leitores ficarão instantaneamente com a guarda alta, e tudo que veio antes e virá depois da sua explicação será encarado com suspeita, pois eles perderam a confiança no seu julgamento ou na sua firmeza.

 

Essa é uma que depende muito do objetivo do texto, e do seu público. Se você está escrevendo para crianças, pode ser bom explicar brevemente muitas coisas, para melhorar a compreensão. Mas, se você escreve para adultos, certas passagens de explicação podem ser lidas como um insulto à inteligência do leitor.

 

Essa também é uma um pouco complexa de acertar a mão. Entra aqui toda uma discussão sobre exposição, as maneiras possíveis de mostrar ao leitor aspectos do seu mundo, e as várias maneiras de fazê-lo que não sejam sair da narrativa e passar uma página num monólogo técnico sobre o assunto.

 

Você precisa conhecer seu público. Saber para quem você está escrevendo. Se você está escrevendo ficção científica para crianças, talvez seja uma boa ideia explicar o que é gravidade. Mas, mesmo que for para adultos, pode ainda ser interessante explicar a dualidade partícula-onda.

 

Explicar também tem um aspecto não tão voltado ao roteiro, mas à própria prosa. Num diálogo, talvez não seja pertinente escrever que “ele disse nervosamente” se o personagem estar nervoso é algo que o próprio leitor pode entender pelo texto.

 

8 – Revise e reescreva

Revisar é parte da escrita.

 

A primeira versão de um texto é cheia de problemas. Ainda falaremos muito de revisão aqui no Ficcionados, mas tenha sempre em mente a ideia de que, depois de escrita sua primeira versão de um texto, ela provavelmente ainda está muito longe de pronta. Não se assuste com isso, ou negue; prepare-se, entusiasme-se.

 

Conclusões e Pensamentos


Lendo o livro pela enésima vez (o que é fácil; ele é curtíssimo), fica renovada a minha admiração pela simplicidade e exatidão de algumas dessas regras. Mas veja bem, por mais que o próprio livro use o imperativo , as regras que ele expõe, como todas as outras, podem ser quebradas. Mas, para fazê-lo, saiba o que você quer com seu texto.

 

Há uma centena de situações onde quebrar essas regras é válido. Diálogos: os personagens não precisam falar do jeito otimizado, usar frases ótimas e evitar palavras desnecessárias. As pessoas falam errado. Quem sabe o seu estilo pessoal faça bom uso de adjetivos e advérbios, dando mais cor ao texto. Quem sabe você precise ser vago pra sua história funcionar.

 

Creio que essas regras são inestimáveis quando você quer criar um estilo fluido, agradável, mas saiba que há sempre espaço para subvertê-las.

 

O escritor deve estudar teoria, aprender as regras não só de estilo mas de roteiro também, para entender o que está acontecendo. Entender o que ele mesmo está fazendo. Só assim é possível dominar a forma de tal maneira que você possa manipular as palavras até alcançar seu objetivo.

 

Mas não precisa começar tão grande. Comece pequeno, pensando mais nas frases, colocando as palavras boas no final, cortando palavras desnecessárias, reescrevendo e revisando… Como eu fiz algumas vezes, neste artigo.

 

E você, Ficcionado, vai colocar alguma dessas coisas em prática na próxima vez que for escrever uma legenda de foto de Facebook?

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele