O Que Traz Valor Para o Seu Texto? Entenda a Diferença Entre Forma e Roteiro

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Aqui no blog dividimos as categorias dos artigos em escrita e metaescrita. Os de escrita ainda são divididos entre forma e roteiro. Você saberia dizer por quê? Sabe qual a diferença entre uma coisa e outra? Como elas se relacionam? O que é mais importante?

 

Antes de postarmos artigos que tratem das mais diversas questões que envolvem a escrita, acho interessante ter essa distinção bem clara em nossas mentes. Assim vocês saberão o que esperar de cada uma dessas subcategorias.

 

Para tanto, comecemos refletindo sobre o que agrega valor a um texto.

 

A Matéria


A matéria é simplesmente o assunto abordado.

 

É aqui que recai todo aquele papo sobre o tema principal e os secundários discutidos no artigo sobre outline. E chamo atenção novamente para que você escreva sobre algo que conheça.

 

Como Schopenhauer escreveu: “um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor”. Se o seu conhecimento acerca do assunto é raso, seu livro assim será. E com conhecimento não estou me referindo a algo necessariamente científico, não, mais importante é o conhecimento a cerca de suas próprias experiências.

 

Certo, existem assuntos mais complexos do que outros. Mas a complexidade por si só não faz a excelência da matéria. Acredito que a intimidade que você tem com ela é mais importante. Pois é apenas essa intimidade que o permitirá explorar melhor o que vem a seguir: a forma e o roteiro.

 

Pense bem, você já sabe que o que distingue um bom escritor de um mediano não é necessariamente a profundidade dos temas que aquele aborda. Se fosse apenas isso, qualquer cientista que dissertasse sobre a dualidade onda-partícula seria um escritor melhor que a Stephenie Meyer.

 

A Forma


A forma pode ser traduzida em duas frentes: a parte formal, atrelada às normas linguísticas, e a parte mais espirituosa, atrelada a cada escritor. Chamo de espirituosa, mas talvez haja uma palavra melhor; me refiro ao estilo próprio, à maneira como cada escritor consegue impregnar suas sentenças com sua marca.

 

Sob essa “espirituosidade” (e antes de se pensar nela), a forma é construída baseada na gramática, na lógica e na retórica (já ouviu falar do trivium?). Por sua vez, isso reflete nas construções de diálogos, objetividade das sentenças, elaboração de parágrafos… Quanto maior for o seu domínio dessas artes, maior será a qualidade de seu texto.

 

Entretanto, as normas estudadas são flexíveis o suficiente para que um escritor exprima a individualidade característica de seus pensamentos. Agora sim, a “espirituosidade” entra em cena. A ela dá-se o nome de “estilo”, o qual certamente você já ouviu falar.

 

Certo, vamos exemplificar. Trago aqui embaixo excertos de três obras: “Trio em lá menor”, do Machado de Assis; “O Alquimista”, do Paulo Coelho; e “O Nome do Vento”, do Patrick Rothfuss. Assumimos que todos eles possuem um domínio notável das normas linguísticas, porém diferentes estilos. Você conseguiria apontar qual trecho pertence a qual autor?

 

“Ouvi o que os poetas escrevem para as mulheres. Eles fazem rimas, desmancham-se em elogios e mentem. Já vi marinheiros no cais, fitando emudecidos o lento inflar das ondas. Já vi velhos soldados de coração empedernido lacrimejarem ao contemplar a bandeira de seu rei, desfraldada ao vento.
Escute o que digo: esses homens nada sabem do amor.”
“Convenho que é abominável, mas não posso alterar a feição das coisas, não posso negar que se os dois homens estão namorados dela, ela não o está menos de ambos. […] Ninguém lhe nega coração excelente e claro espírito; mas a imaginação é que é o mal, uma imaginação adusta e cobiçosa, insaciável principalmente, avessa à realidade, sobrepondo às coisas da vida outras de si mesma; daí curiosidades irremediáveis.”
“[…] é fácil entender que sempre existe no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio de um deserto, seja no meio das grandes cidades. E quando estas pessoas se cruzam, e seus olhos se encontram, todo o passado e todo o futuro perde qualquer importância, e só existe aquele momento, e aquela certeza incrível de que todas as coisas debaixo do sol foram escritas pela mesma mão.”

 

O estilo não está apenas na maneira como o escritor constrói suas frases — o que é diretamente ligado à maneira como ele pensa —, mas também à disposição dessas frases. Há quem prefira frases curtas, há aqueles que sabem dosá-las dependendo do ritmo da narrativa. Há quem prefira fazer de cada cena um capítulo, há quem faça capítulos compostos por dez cenas. José Saramago, por exemplo, possui seu jeito peculiar de escrever parágrafos gigantescos (de duas, três ou mais páginas).

 

Um bom escritor, além de fazer um exímio uso das normas gramaticais, consegue usá-las para dar forma aos seus pensamentos da maneira mais pura possível. Não tenta copiar um estilo já formatado. Claro, que como bom leitor, é comum que a sua escrita acabe sendo uma mistura de seus pensamentos com o estilo de seus autores favoritos, mas ainda assim, eles são apenas um tempero especial.

 

O Roteiro


O roteiro abrange tanto a sequência com que os eventos da história acontecem e são revelados quanto os próprios eventos. Ele é o panorama do seu texto, a organização dada à forma que expressou a matéria. Contudo, é bom chamar atenção que o dito estilo está aqui também presente de uma maneira tão vivaz quanto na forma.

 

George Martin toma a voz de personagens distintas que vão desvendando a história para nós leitores. J. K. Rowling aborda a saga centrada em um protagonista, deixando o leitor ir aprendendo as nuances do mundo por ela criado juntamente com Harry. Stephen King retrata o passado de suas personagens vinculando-o a algum evento no presente ao mesmo tempo em que explicita uma característica pessoal… e por aí vai.

 

(Sim, sim, os autores citados não são os únicos nem os primeiros a utilizarem as características de estilo mencionadas, mas isso não desmerece o exemplo…)

 

Aqui os temas de estudo são construção de personagens, elaboração de cenas, arcos narrativos, estruturas, pontos de virada, ganchos, apresentações, valores externos e internos…

 

Existem livros… e livros


Algumas obras escritas possuem seu valor centrado no objeto, isto é, na matéria do texto. Parafraseando Schopenhauer, estes são os assuntos que são interessantes por si só, independente de quem os aborde. Nesses casos, você está lendo o texto puramente pela informação nele contida. Aqui se enquadram textos acadêmicos, catálogos, reportagens, guias de viagens…

 

Os textos acadêmicos, por exemplo, possuem uma forma própria. Tenho certeza que você reconheceria um texto acadêmico se lesse um: introdução, apresentação do problema, revisão bibliográfica, apresentação do método utilizado, dados coletados/produzidos, conclusões, tudo escrito de maneira impessoal. Esse não é o espaço para o escritor destacar-se pelo seu estilo único de conduzir as palavras, claro que não, o importante do texto acadêmico é a matéria e é apenas ela que deve se sobressair.

 

Certo, certo. Um cientista objetivo e claro ganha pontos (já li uma porção de artigos e muitos perdem nesse quesito). Mas você não encontrará algum texto acadêmico com metáforas ou um mínimo resquício de humor.

 

Por outro lado, existem obras que possuem seu valor centrado no sujeito. Aqui o que se destaca é o estilo do escritor, é a sua maneira de apresentar e conduzir a matéria que mais conta. O tema pode até ser interessante, mas se não fosse a capacidade singular do escritor, a obra não teria nem metade de seu brilho.

 

Com efeito, essas obras podem falar tanto de assuntos complexos e/ou difíceis de lidar, como o amor, quanto de assuntos tão banais quanto a chuva batendo na janela do seu quarto. Não importa, o leitor é conduzido primorosamente. Como nesse caso o estilo é importante, a forma e o roteiro possuem um peso maior do que a matéria.

 

O Resumo


Para agregar valor ao seu texto, pense em três possibilidades:

 

1 – Aprofunde seu conhecimento sobre a matéria. Isso pode ser feito apenas vivenciando o assunto; mesmo que o estudo seja importante, é crucial ter algo dentro de você que tenha compartilhado da experiência a ser descrita.

 

2 – Aprimore a forma: estude gramática, lógica e retórica (abrangendo aqui ortografia, sintaxe, objetividade, construção de diálogos, descrições…)

 

3 – Aprimore o roteiro: estude construção de personagens, cenários, ganchos, cenas, arcos, pontos de virada…

 

Se por acaso ainda há alguma dúvida sobre matéria, forma, roteiro e estilo, ou sobre a importância deles para o seu texto, pense na música.

 

O tema retratado pela canção é a sua matéria, sem novidades aqui. A forma está na escala utilizada, na progressão dos acordes, no tom principal, nas oitavas abrangidas, no tempo… O roteiro está nos versos, riffs e solos (eventos), na harmonia, na ordem e no papel de cada instrumento para composição final. O estilo, é claro, é o que domina o arranjo inteiro: quando você ouve uma música é capaz de distinguir se é um rock ou uma bossa nova, isso porque o estilo dela exala das escolhas feitas para a forma e o roteiro.

 

Ademais, apenas porque você compõe uma música, não significa que seja capaz de cantá-la afinadamente. Para tanto, é necessário conhecer as técnicas vocais. O que transpondo para a escrita significa que apenas porque você rabisca umas frases, não significa que elas fazem sentido ou estejam gramaticalmente corretas; é necessário conhecer as normas e técnicas apropriadas.

 

E, então, preparado para se aprofundar?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal