Quatro Dicas para Escrever Bons Mistérios

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A porta bateu atrás de mim. Incomum por ser de madrugada, mais incomum ainda por eu estar sozinho em casa. Eu me virei na cadeira, encarando a porta, meio sem saber o que fazer. Isso vem acontecendo há semanas. Acho que há… algo… Aqui comigo.

 

Por mais que a maioria das histórias não seja predominantemente um mistério, boa parte delas tem elementos do gênero. Mistérios criam excelentes ganchos (afinal, o leitor precisa descobrir o segredo!), criam tensão (como isso vai se resolver), e são, no geral, bons elementos narrativos. Várias histórias têm mistérios, me arrisco a dizer que quase todas, sendo estes muito presentes ou quase ausentes.

 

Reuni aqui algumas dicas para melhorar seus mistérios, sejam eles a parte principal da sua história ou apenas subtramas interessantes. A parte principal é fazer um mistério que possa ser solucionado. E, para isso…

 

Dê Todas as Peças


A porta da frente sempre está trancada. As janelas estão fechadas. Quem bate na porta está dentro da casa, em algum lugar. Eu sempre saio para olhar, mas não vejo ou ouço nada. Os vizinhos são todos em sua maioria velhos, vivendo ou sozinhos ou com algum animal de estimação.

 

Bons mistérios são complexos na medida certa. Isso depende do seu público: não espere que o mistério em um livro infantil seja tão encantador para um leitor mais velho. De qualquer forma, o que você quer fazer é ter um mistério que não seja trivial.

 

Boa parte da diversão é tentar desvendar o mistério. Para isso, é essencial que o leitor tenha todas as ferramentas (informações) necessárias para chegar na solução. Isso é bastante importante: numa história onde um elemento é tirado da cartola no último instante, o mistério perde o apelo. O leitor se sente enganado, como se jogasse um jogo que nunca poderia vencer. Imagine um romance policial onde, no final da trama, descobre-se que havia outra arma em baixo da cama, cuja presença torna a solução óbvia. Como não se sentir traído? Você só não descobriu tudo porque o detetive não olhou a cena do crime bem!

 

Achar o ponto ótimo de complexidade é sempre um problema. Invariavelmente alguém vai desvendar o seu mistério antes do que você esperava. É fato; alguns leitores vão ser mais espertos que você. Então deixe isso acontecer, não se preocupe. Deixar as coisas complexas demais, pensando em enganar todo o mundo, provavelmente deixará a sua história difícil demais para o resto do público.

 

“E como equilibro as coisas? Deixo o mais difícil possível mas ainda solucionável?”

 

Bom, uma maneira é ter um processo mais iterativo, procurando feedback de leitores beta e ir ajustando a dificuldade. Mas outra ferramenta importante de se usar são as pistas falsas.

 

Use Pistas Falsas


Existe uma janela no ático, ela está emperrada há anos, meio aberta. Uma pessoa magra conseguiria subir pelo muro, saltar no telhado e entrar por ela. É difícil, mas… Qual outra alternativa eu teria? Espera… Um gato passaria fácil pela porta. Claro, gatos são silenciosos! E o vizinho tem um!

 

Tudo no assassinato fazia sentido, menos uma coisa: o cabelo loiro no chão. Não fosse aquilo, o culpado já estaria preso, mas… Como que foi parar lá? Não se encaixa com nenhuma outra pista!

 

Talvez porque essa seja uma pista falsa, feita para despistar o leitor. Esse é o tipo de coisa que acontece o tempo todo na vida real: uma história não faz sentido por causa de um mínimo detalhe, que tentamos associar com o evento, mas que, na realidade, não tem nada a ver. Quem sabe o cabelo loiro tivesse entrado pela janela, ou sido carregado nas roupas de alguém. Uma coincidência, não um aspecto importante do mistério.

 

Esses elementos são importantes para deixar a solução do mistério não trivial, exigir pensamento do seu leitor. A última coisa que você quer é que seu mistério seja desinteressante e fácil de resolver. Pistas falsas são um bom jeito de arrumar isso. É bom que elas sejam bastante críveis, mas ainda dúbias. Idealmente, boa parte das suas pistas deve parecer igualmente verdadeira, ou igualmente falsa.

 

As pistas têm que vir com naturalidade. Não podem ser óbvias, verdadeiras ou falsas. Um caminho interessante para os não planejadores é não planejar o seu final enquanto escreve. Escrever um romance policial sem saber quem é o assassino; deixar todos igualmente prováveis. Vai precisar de alguma revisão depois, mas que maneira melhor de convencer o leitor que qualquer um pode ter cometido o crime do que o próprio autor acreditar nisso?

 

O complicado é pensar em como você quer que o leitor se sinta enquanto lendo o seu mistério. Quer que ele se sinta inteligente, desvendando tudo muito rápido? Ou burro, incapaz de acompanhar a complicação do seu enredo? É uma escolha sua, que depende, de novo, do público, e do que você quer com o livro. Um alvo que eu acho especialmente interessante é tentar deixar o seu mistério ser solucionado só momentos antes de deixá-lo explícito. Fazer o leitor descobrir parágrafos antes do detetive na história. O leitor se sente esperto na medida certa, e isso só dá mais força ao clímax, quando ele vai, aos poucos, lendo a resolução e conferindo se pensou certo em todos os pontos. As últimas páginas voam.

 

As suas pistas, verdadeiras ou falsas, vão criando uma imagem na mente do leitor, e uma expectativa de solução. Cada novo pedaço pode deixar o desfecho mais claro, criando uma expectativa no leitor. Muitos bons mistérios quebram essa expectativa completamente, invertendo a solução imaginada num plot twist.

 

Faça Bons Plot Twists


Saí ontem pra dar uma caminhada e o vizinho estava caminhando também, cabisbaixo. Ele contou que o gato dele foi morto há semanas
Não é um gato que anda invadindo a minha casa.

 

A “torcida na trama” é o momento onde a história dá uma reviravolta, brincando com as expectativas do leitor e surpreendendo-o com algo que ele não esperava. Quem sabe o melhor amigo do protagonista fosse, na realidade, um espião? Ou o cabelo loiro, que antes fora considerado uma pista falsa, na realidade estivesse indicando que o assassino era a namorada do detetive?

 

Plot twists são interessantes porque surpreendem o leitor. Um mistério é em muitos aspectos um quebra-cabeça, e o leitor quer ser estimulado intelectualmente, quer analisar e pensar nas coisas. Uma reviravolta bem feita é um ótimo jeito de estimular seu leitor a analisá-la, ver as dicas que ele não entendeu ou deu a devida importância.

 

Um dos objetivos que considero mais importantes na hora do plot twist é pensar em algo que seja, ao mesmo tempo, surpreendente mas inevitável.

 

Surpreendente porque o leitor não pensou naquilo; inevitável porque, depois que aconteceu, ele bate na própria testa e diz “mas que óbvio, como não vi isso?”

 

É, de novo, um equilíbrio complexo. Quem sabe você deixe duas soluções abertas na mente do leitor, mas reforce uma muito mais que a outra, usando pistas falsas e deduções só um pouquinho erradas. Quando as pistas se revelarem falsas, o leitor vai se lembrar daquela outra solução que ele descartou há muito.

 

Um plot twist não é necessário para sua história funcionar. Ultimamente, algo do tipo tem virado tão comum no gênero que o maior plot twist pode ser não ter um! Mas, querendo ou não, um momento de “explodir cabeças” é algo que faz toda a diferença num mistério. Quem não saiu do cinema completamente extasiado depois de assistir O Sexto Sentido?

 

De uma forma ou outra, o plot twist é um dos sinais que a resolução do mistério se aproxima. E um bom mistério se consolida com sua solução.

 

Cuidado ao Tirar a Máscara



Minha porta bateu agora há pouco. Não é o gato do vizinho; ele está morto. Tem que ser alguma outra coisa, e hoje vou descobrir. Peguei uma lanterna e uma barra de ferro. De uma forma ou de outra, depois de hoje não vou mais me preocupar com as batidas na porta.

 

Alguns gêneros não são tão dependentes de um bom final. A jornada vale mais que a resolução e tudo mais. Por mais polêmico que possa ser, querendo ou não livros com finais mornos dão certo.

 

Mas num mistério a coisa é, muitas vezes, diferente. Quando o principal motivador da história é descobrir o que está acontecendo, se for algo bobo, parece que todo o esforço gasto tentando desvendar a trama foi um desperdício. E escrever é fazer várias emoções passarem pela mente do leitor, mas uma delas com certeza não é “perdi meu tempo”.

 

Pense bem. Imagine se a história que andei contando neste artigo terminasse com o protagonista descobrindo que era só a porta dele batendo com o vento? Que não havia nada na casa? E, ainda pior, contado sem itálico, e sem ser narrado que nem o resto? Imagine que droga isso seria?

 

Então tome cuidado com as respostas dos seus mistérios. Dê a devida atenção a elas. É muito mais fácil pensar numa pergunta interessante do que dar uma resposta satisfatória. Mas se esforce para isso. Não vá pelo caminho fácil, desafie-se. E escreva a melhor história que puder.

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele