Dicas Para Escrever Diálogos Mais Naturais

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Escrevendo histórias, vai chegar um dia (se já não chegou) em que você tem que escrever um diálogo. É um pouco contraintuitivo: a gente conversa com as pessoas o tempo todo. A gente tem experiência em dialogar. Então por que é tão difícil escrever bons diálogos?

 

Essa é uma pergunta complicada. Escrever diálogos é uma habilidade específica e bem complexa dentro da prosa, o tipo de coisa que demora pra pegar o jeito. É algo difícil de fazer bem, e que se nota muito rápido quando é feito mal.

 

Um bom diálogo é a união de várias coisas. Tem que soar natural; você não pode quebrar a imersão, seus leitores não podem parar e dizer “nossa, mas ninguém fala desse jeito”. Tem que transmitir personalidade; cada pessoa tem seu jeito de falar, e é esperado que os seus personagens façam isso também. Como todo o resto da sua história, o tem que fazer o leitor esquecer que está lendo; tem que fazer ele entrar na história, imaginá-la, vivê-la.

 

Existe o ponto do que é um bom diálogo do ponto de vista de roteiro, mas o foco aqui será mais em termos de forma: como fazer o seu diálogo soar bem, não quebrar a imersão, etc. Se você quiser algo falando sobre como dar bom conteúdo aos seus diálogos, fale com a gente!

 

Vamos, então, a algumas dicas gerais que podem te ajudar a melhorar os seus diálogos:

 

 

Esqueça a Gramática


É, sim: esqueça a gramática. Não de uma maneira absurda, mas você pode, sim, dar uma torcida nas regras. O motivo é simples: as pessoas, em diálogos da vida real, falam errado. No dia-a-dia ninguém está preocupado em ter perfeita concordância verbal. Se você é do sul do Brasil, por exemplo, já deve ter se acostumado com frases como “tu quer isso aqui”. Pouquíssima gente falará “tu queres”. A regra é o inverso: quando alguém fala certo que chama a atenção, que fica esquisito.

 

Não quer dizer que você deve escrever errado; quer dizer que, diferente de todo o resto, você pode. Sinta-se livre para fazer o que soar mais natural, mesmo que seja feio ou gramaticalmente errado.

 

Isso também pode se aplicar a várias outras “regras” da boa escrita: palavras desnecessárias, frases longas ou curtas, termos ruins, repetição… As pessoas falam de formas peculiares e esquisitas. Todos têm vícios de linguagem, que podem incomodar no meio da sua narração, mas quando incorporados à fala deixam a coisa mais real.

 

Então nem é só relativo à gramática; você pode dar uma relaxada em todas as regras. Às vezes você acaba fazendo o inverso do que faz fora do diálogo: escrever sem revisar tanto, usar palavras repetidas de monte, escrever de forma confusa ou ambígua… Sempre tenha em mente como as pessoas falam. Se soar como algo que alguém diria, é válido.

 

Leia em Voz Alta


Esta é uma dica boa: leia seus diálogos em voz alta. Leia com calma, com atenção, se quiser tente até interpretar as falas. Isso pode parecer bobo, sem propósito, mas o nosso ouvido é mais aguçado que a mente lógica para identificar frases estranhas. Muitas vezes uma frase que parece ótima no papel soa esquisita ao ouvido. Ouvimos diálogos o tempo todo, e temos uma noção boa do que soa mais natural.

 

Entre na Cabeça do Personagem


Uma das armadilhas mais fáceis de cair enquanto escreve diálogos, mesmo quando você fica bom em fazer eles soarem naturais e fluidos, é quando, no final, todos os personagens falam da mesma forma. Pode até ser um pouco pior: todo mundo fala da mesma forma que você.

 

A dica aqui é entrar na cabeça do personagem. Pense nas palavras que ele usa, associe-as com quem esse personagem é, qual a criação dele, o jeito que ele pensa. Tenha em mente que nível de educação, a criação e a e leitura que alguém teve influencia diretamente no vocabulário. Um professor pode ter uma forma de falar mais rebuscada, pode saber termos técnicos, pode até fazer questão de falar na norma culta da língua. Alguém de um bairro muito específico pode usar gírias diferenciadas, e se você está criando seu próprio mundo pode até criar suas próprias! Não precisa ser tão extremo quanto Laranja Mecânica, mas pode incorporar uma ou outra expressão idiomática quando for criar seu mundo. Afinal, as expressões que usamos são fruto da nossa cultura: com uma cultura diferente, as expressões seriam outras.

 

Aqui um parêntesis: lendo esses parágrafos anteriores você pode ter imediatamente pensado em sotaques. Pode sim ser uma boa ideia incorporá-los na maneira que os seus personagens falam, até “escrevendo errado” as palavras (um exemplo muito bom é Eles Não Usam Black Tie), mas a sugestão é só fazer isso com sotaques que você domina bem, ou estudou bastante. Tentar emular alguma pessoa de outra região pela fala, baseando-se em impressões vagas e preconceitos, é um ótimo jeito de ser odiado pelos seus leitores. Mas se você escreve fantasia, fique à vontade para criar seu próprio dialeto. Só tenha certeza que ele é compreensível a qualquer um fora você.

 

Observe e Reproduza


Escrevendo prosa, é comum falar a respeito da voz do escritor: algo que caracteriza a sua escrita com sua, e só sua, de uma maneira um tanto subjetiva, que nasce naturalmente com a prática. Isso é normal: eventualmente, espere ter desenvolvido um estilo seu, único, que realmente te define. No começo é normal imitarmos um pouco das vozes dos escritores que lemos, mas é bom ir aos poucos identificando os pontos muito iguais e procurando novas formas, as suas formas, de escrever. Quais construções de frase você gosta? Quais adjetivos, verbos, advérbios?

 

Talvez por isso que diálogos sejam tão difíceis: depois desse tempo todo procurando a sua voz, é a hora de quebrar isso e escrever a voz de outra pessoa. É hora de escrever todas as particularidades e vícios e tentar, basicamente, começar todo o processo de criar uma voz de novo, personagem a personagem.

 

Falas finais


Diálogos são, como já mencionei, complicados de fazer. Se você tem dificuldade com isso, não espere ser bom de primeira. Como todo o resto de aprender a escrever, demanda esforço, estudo, autocrítica e, talvez mais do que todos esses outros, prática. Ouça e considere bem as críticas que fizerem ao seu trabalho, e nunca fique satisfeito com o nível da sua escrita.

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele