Como Ser Mais Produtivo Enquanto Escreve um Livro

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Uma carreira de escritor se constrói em vários livros. Você precisa ser produtivo, precisa estar sempre trabalhando em algo novo, eu diria no mínimo um livro por ano. Você precisa escrever bastante. O Kaio falou muito sobre manter consistência e escrever todos os dias. E esse é claramente o primeiro passo: para escrever bastante, você precisa escrever constantemente.

 

Mas escrever constantemente não significa que você escreve muito. Quais serão os passos necessários para passar de 500 a 5000 palavras por dia?

 

Estou falando exclusivamente da primeira escrita: a elaboração do primeiro rascunho, o livro pronto que você ainda tem que dar um ou dois passes de revisão para ficar legível… Mas o livro pronto de qualquer forma, a história toda lá.

 

Assim, se você já conseguiu manter uma rotina constante e está escrevendo todos os dias, eis as formas que eu diria para você produzir mais:

 

Escreva Naturalmente


Não se preocupe muito com estilo, escolha de palavra, estrutura das frases. Escreva usando palavras e estruturas que vêm facilmente à mão, como dizia E.B. White . Se você ver que está parando e reescrevendo uma frase mais de três vezes, pare, faça uma versão simples que passe a ideia, e continue.

 

Deixe comentários depois. Diga ao seu eu futuro, que vai editar aquilo, que você está achando a prosa fraca, ou que as frases deveriam passar certa emoção, ou que aquela palavra está errada.
Mas deixe os comentários e vá adiante. Termine aquela cena, termine aquele livro.

 

É melhor fazer um capítulo inteiro num dia do que uma cena perfeita. A revisão mostra que nenhum primeiro rascunho é perfeito, e depois de terminar acaba sendo necessário voltar e revisar tudo de qualquer forma. Se você vai ter que voltar e arrumar tudo depois de terminar, por que querer deixar a primeira versão perfeita?

 

Não revise


Reforçando, estou falando sobre escrever o primeiro rascunho. Revisar é uma das partes mais importantes da escrita, mas deve ser feita no tempo certo, preferencialmente depois que a obra inteira está completa.

 

Depois que se termina um livro, vários detalhes mudam. É inútil reescrever uma cena logo depois que você a escreveu, sendo que um detalhe lá no final do livro possa tornar a reescrita daquela cena necessária de qualquer forma. Deixe esse trabalho para depois, faça tudo de uma vez, já com o livro inteiro pronto.

 

Essa é um tanto difícil de seguir, mas eu recomendo muito. Escreva uma cena hoje, e não olhe para ela até daqui a quatro meses, quando o seu rascunho estiver terminado. Você pode até lê-la, fazer comentários, já ir levantando o que deve ser mudado… Mas não vá e edite a cena. Termine seu manuscrito antes. Desapegue.

 

Pule as partes chatas em dias desmotivados


Não estamos igualmente empolgados com a escrita todos os dias. Mantendo uma rotina, há situações onde você vai invariavelmente sentar na frente do teclado e não ter vontade de escrever absolutamente nada. Mas você tem que escrever, você se comprometeu a isso.

 

Nesses dias, eu acho especialmente útil pular para uma cena interessante. Você que escrever a cena da conversa no jantar, complexa e difícil? Pule para a perseguição de helicóptero depois, cheia de ação e suspense. Pense na próxima cena que te empolga, na parte chave do seu livro, e vá direto para ela. É bem mais fácil tornar um dia ruim produtivo desta forma.

 

Se você tem um outline, essa é bem mais fácil. Se não, você pode estar com problemas no seu livro… Afinal, se a cena é chata para escrever, como você dirá com certeza que ela não será chata para ler? Aquela chatice é necessária, tem um propósito? Pode ter, claro, mas se não tiver você pode sempre mudar algo e torná-la mais interessante.

 

Seja menos crítico com o primeiro rascunho


Uma das coisas que mais podem acabar com um dia que seria produtivo é a noção de que o que você está escrevendo está ruim. Você olha para as frases e pensa que está horrível, tem vontade de apagar tudo e desistir do dia. “Hoje não estou bem pra fazer isso”, você pensa, num pensamento perigosamente próximo de achar que você precisa de inspiração para escrever.

 

A solução é simples: continue escrevendo. Aceite que está ruim. O propósito do primeiro rascunho não é ser perfeito: é ser completo. Como o Kaio mencionou, você sempre pode voltar depois e arrumar a escrita daquele dia. Seguindo essa regra, eu pessoalmente chego em três cenários:

 

O primeiro é que, só por estar escrevendo, me forçando a continuar naquela prosa horrível, algo estala no cérebro. E o sentimento que me fez inicialmente achar que estava tudo horrível some, e a escrita flui. Por me forçar a continuar, já transformei inúmeros dias que começaram muito mal em dias que acabaram terrivelmente bem, talvez não com a melhor escrita de todas mas comigo empolgado, incapaz de parar.

 

O segundo é aquele onde, quando olho o texto depois, não acho tão ruim assim. Leio meus comentários xingando aquele trabalho e não concordo com eles. Podia ser um dia onde eu estava mais perfeccionista, ou chato. Às vezes não tem fundamento.

 

E o terceiro cenário é aquele onde estava ruim mesmo. Mas às vezes até as partes que eu julguei boas enquanto escrevia estavam ruins! Nesses casos é simples, é só reescrever, editar, revisar.

 

 

Esqueça o resto do mundo


Não pare para questionar o que você está fazendo. Não dê força ao pensamento que quem sabe tudo esteja horrível, e que é melhor desistir. Não pense que nenhuma editora vai querer o seu livro.
Enquanto escrevendo, mergulhe na história. A única realidade que existe é ela; o único futuro é aquele dentro dela. Esqueça da realidade por uns momentos. Deixe a sua vida lá fora.

 

Mesmo que seja ruim, você pode reescrever. Deixar uma história ruim boa pode ser difícil, mas não impossível. E, de qualquer forma, escrever é sempre prática. Eu não acredito que, escrevendo uma história ruim, você estaria perdendo tempo. O conhecimento adquirido no processo será inestimável para suas próximas histórias.

 

Antes de começar um livro quem sabe seja importante questionar o que você quer, qual o propósito daquilo e tudo o mais, mas reavaliar isso no meio da escrita é um ótimo jeito de ter mil projetos inacabados.

 

Não seja muito duro com os seus horários


Aqui falamos muito sobre não deixar a ideia de inspiração te segurar, mas também é inegável que isso existe. Em alguns dias a coisa vai fluir melhor, vai ser mais natural, e, ao final, vai ser muito incrível.

 

Você não pode depender desses dias, claro que não. Mas você pode aproveitá-los ao máximo.

 

Então, se sua rotina é escrever 1000 palavras por dia, se em um dia especial você chegou nesse valor e ainda continua com a gana de escrever, não pare. Veja até onde você consegue ir. Se você quer escrever no mínimo duas horas por dia e em algum dia você nem viu essas duas horas passarem, considere continuar. Não deixe uma rotina rígida te atrapalhar nesses momentos.

 

Relaxe


Não fique ansioso, não pense demais, não se torture. Por que você escreve, afinal? Para impressionar as pessoas? Para ganhar dinheiro? Ou porque é divertido? Porque te faz se sentir bem?
Então relaxe. Deixe fluir. Não se cobre demais.

 

Palavras finais


Essas são as coisas que adotei para produzir mais nos primeiros rascunhos. A revisão torna-se mais trabalhosa, sim, mas é melhor ter algo completo a revisar do que ficar preso na revisão eterna do primeiro capítulo.

 

Um dos outros motivos que eu gosto de deixar a revisão para depois é porque ela é trabalhosa. Escrever não é só diversão o tempo todo; é trabalho, trabalho duro.

 

Mas deixe que o seu primeiro rascunho seja livre. Tenha a chama da paixão nele. A alegria genuína. Você pode tirar os momentos não inspirados na edição, mas é muito mais difícil criá-los depois. Deixe que seu primeiro rascunho seja uma versão bruta e emocional, incompleta mas cheia de tudo que deve estar ali. Depois você para e esculpe os detalhes com precisão, num trabalho mais chato, mais cansativo e mecânico.

 

Experimente, veja se funciona melhor para você. E se tiver algo uma técnica que funciona especialmente bem pra você, dá um toque, vamos bater um papo.

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele