Como Lidar com a Exposição em Narrativas

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Problemas de exposição são um dos mais fáceis de se identificar e um dos mais difíceis de consertar.

 

Os heróis acabam de encontrar uma besta mágica com poderes especiais, mas antes de mostrar a reação deles, o narrador entra com uma longa explicação. Ele não só descreve a aparência da besta, mas também o que ela é capaz de fazer, de onde vem os seus poderes, por que ela vive ali, como se reproduz…

 

Tá certo, um caso desses seria evidente até demais. Você não pararia o fluxo narrativo pra vir com uma explicação dessas, pelo menos não em um momento de tensão.

 

Em outro cenário, você me diria que se tivesse que explicar as relações entre dois reinos, iria inseri-las em um diálogo. Por que não um dos reis conversando com seu conselheiro?

 

Ótimo, a história não seria pausada. Mas a quantidade de informações pode deixar o ritmo mais lento do que seria preciso. Talvez alguns detalhes não sejam importantes ou nem tudo precise ser dito naquele momento.

 

Mas aí você diz que daria o mínimo possível de informação. Afinal, por que gastar a atenção do leitor com detalhes? É melhor ir logo ao que interessa!

 

Só que um desses detalhes que você achou desnecessário ou óbvio demais era, na verdade, fundamental pra entender aquela reviravolta lá na frente…

 

Enfim, essa é uma questão delicada. Saber onde jogar as peças sem entediar o leitor.

 

Mas tem umas dicas que eu sigo quando estou escrevendo e que também podem ser úteis para você. As primeiras são bem gerais e já abordamos elas dentro de outros assuntos… o que as torna um tanto importantes, não? 😛

 

Temos também esses outros artigos relacionados:

 

Como Decidir O Que Entra e O Que Não Entra Em Sua História
Quando e Como Passar Informações ao Leitor

 

E vamos ao que interessa:

 

1. Primeiro, só escreva!


Se você não tiver nada escrito ainda, não se preocupe tanto com a exposição. Pode parecer estranho falar isso, mas acho que quanto mais “poréns” ficar colocando entre a ideia que você tem na cabeça e a execução dela, menores são as chances de você colocar tudo pra fora…

 

Escreva do jeito que achar que tem ser. Até porque, no fundo, não há nenhuma regra inviolável de roteiro. Depois que as coisas ganharem forma é que você deve se preocupar com o que não está funcionando.

 

Além disso, o processo fica mais divertido depois que o primeiro rascunho for terminado, isso se você não estiver muito apegado a ele. O grosso vai estar ali, então é só uma questão de acertar as pontas e enfatizar os toques pessoais.

 

Caso você seja do tipo que gosta de escrever tudo nos mínimos detalhes, excelente! Como o Thiago comentou em um dos artigos passados, na edição é mais fácil cortar do que acrescentar. Então não se contenha; quando aquela besta mágica aparecer, pause a cena e diga tudo o que tiver que dizer sobre ela.

 

Mas caso você não goste de ficar explicando as coisas, tudo bem. Escreva um primeiro rascunho enxuto e depois veja o que precisa acrescentar. O importante é não obstruir o processo.

 

2. Colete Opiniões


Sim, sim. Um novo ano, um novo artigo e eu aqui falando isso mais uma vez.

 

Mostre o que você escreveu para uns amigos. Vá atrás de opiniões. Se conhecer outras pessoas que também curtem escrever, monte um grupo de escrita!

 

Agora no que toca à exposição, você precisa que os seus leitores beta indiquem os trechos com informações de mais ou de menos. Nem sempre eles sabem como te ajudar, então quando for coletar as opiniões, converse com eles tentando responder essas perguntas:

 

Foi difícil identificar o que era importante e o que não era?

Se sim, você está dando muita informação. Talvez seja melhor cortar alguns detalhes ou, se contribuírem para imersão, dar menos ênfase a eles e mais no que é importante. Não misture.

 

Deu para sentir uma interrupção abrupta no ritmo da história? Em que parte? Foi por causa de um infodump?

Se o problema é o excesso de informações, veja se não há um lugar melhor para encaixá-las, isso se forem mesmo importantes. Você pode até diluí-las em mais de uma cena.

 

Infodump: Um bloco de informação excessiva colocado no meio da narrativa. Pode vir tanto por parte do narrador quanto vir enfeitado de monólogo ou diálogo. Mesmo que sejam assuntos importantes, mesmo que sejam relevantes naquele momento. Embora os infodumps sejam vistos de uma maneira negativa, é difícil escapar deles; principalmente quando a construção do mundo for crucial na história, o que acontece com frequência em fantasias e ficções científicas. E se você analisar esse parágrafo com cuidado, vai perceber que eu estou tentando esticar o tamanho dele com mais informações do que o que você precisa para continuar a leitura do artigo. Ah, e um infodump não precisa ser prolixo, basta ser grande mesmo.

 

Alguém ficou perdido na trama? Não conseguiu entender alguma coisa?

Isso pode ter quatro motivos:

 

1. Ou as informações importantes vieram cedo demais e não foram relembradas; daí basta reforçá-las ou trazê-las para mais perto do momento em que serão relevantes.

 

2. Ou estão desorganizadas; separe o que é importante do que não é, e/ou forneça um contexto mais apropriado.

 

3. Ou estão faltando; você pode explicar para o seu amigo o que ele deveria saber e anotar a explicação para acrescentá-la no roteiro.

 

4. Ou é um problema de forma; talvez você não tenha conseguido se expressar muito bem. Reescreva o trecho e mostre de novo para os seus leitores.

 

3. Faça uma Revisão Focada na Exposição


É isso aí. Releia tudo o que escreveu, marque todas as passagens expositivas e depois se pergunte qual o propósito de cada uma. Elas são realmente necessárias para o entendimento? Há um lugar melhor para encaixá-las na história? Há um jeito melhor de transmiti-las?

 

Inclusive, é nessa hora que você pode refletir sobre os pontos que levanto no próximo tópico…

 

4. Identifique Possíveis Problemas


Alguns problemas de exposição são bem comuns. Tão comuns que merecem uma atenção especial. E é fácil evitá-los quando se sabe quais são.

 

Mas se você identificar um no seu rascunho, não significa que precisa mudá-lo. Se ele estiver funcionando, beleza. Lembre-se que não há uma regra inviolável; quem sabe no contexto que você usou, ele não seja um problema.

 

Agora caso você precise de uma melhoria e não souber o que mudar, pode começar procurando por um desses…

 

A Explicação Impessoal

Dependendo do tipo de discurso que você estiver usando, é estranho interromper a narrativa com a voz de um ser onisciente explicando as coisas.

 

Sabe o que eu quero dizer?

 

A lendária Torre de Arkmov foi construída 400 anos antes dos cataclismos quando… , ou

Armas de retroinjeção plasmática possuem um dispositivo acoplado ao cano que…

 

O problema dessas frases não é exatamente o estilo, mas o conjunto do estilo com o contexto. É uma mistura de impessoalidade com pausa na narrativa.

 

Eu não digo que o problema seja só de estilo porque já li livros em terceira pessoa limitada (discurso livre indireto) que conseguem introduzir passagens assim sem afetar muito a imersão. Colocam elas em um momento onde a personagem que serve como ponto de vista não está fazendo nada importante.

 

Porém, há maneiras melhores de fazer isso. Tanto pro caso da terceira pessoa limitada quanto pra primeira pessoa, você pode colocar essas frases em uma passagem de baixa tensão e enfatizar a voz da personagem.

 

Eu já tinha visto uma daquelas antes. Meu avô guardava uma embaixo da cama, artefato de guerra. Ele gostava de exibi-la em dias chuvosos e me contou, inúmeras vezes, que o que a tornava tão poderosa era uma bateria acoplada ao cano. Sempre achei que o velho parecia mais vivo quando segurava a arma; seu olhar brilhava, sua voz ficava forte. É engraçado como o poder acaba afetando as pessoas, mesmo aquelas que, como meu avô, o tenham abdicado.

 

Isso é ainda mais importante se você estiver colocando essas informações no meio de diálogos. Já vi bastante gente, inclusive eu mesmo, colocar uma personagem para explicar alguma coisa, mas deixar as frases impessoais. Sabe aquele professor que fala como se estivesse recitando um texto?

 

Pois então, a menos que você tenha um motivo para ter uma personagem assim, fuja disso. Deixa ela mostrar a sua voz.

 

As Cenas “Só” Expositivas

Dê sempre mais de um propósito a uma cena.

 

Tudo bem se você precisar que uma cena inteira gire em torno de uma explicação, como o funcionamento da magia ou algo parecido. Mas use esse espaço para mostrar outras coisas também.

 

Fortaleça a voz ou a visão de mundo de quem discursa, mostre um traço de personalidade, o nível de intimidade dos envolvidos ou até uma ambição do protagonista relacionada ao tema. Deixe a criatividade solta.

 

O “Como Você Sabe…”

Certo, você quer fugir dos discursos impessoais e colocar todas as informações dentro do curso da narrativa. Diálogos são uma boa opção. Só que usá-los não é garantia de que as informações vão ser passadas sem afetar a imersão.

 

Em uma conversa entre duas personagens, você pode se sentir tentado a acrescentar coisas que as duas sabem e que não têm nenhuma razão para repetirem. Mas você quer que o leitor saiba…

 

A situação mais escrachada seria algo assim:

 

Como você sabe, João, você foi processado ontem por aquela paciente.

 

E há casos mais disfarçados, como:

 

Desde que sua mãe, Antônia, se despediu de mim…

 

Bem, não tenho muita a dizer a respeito. É algo muito artificial e que grita aos olhos; evite.

 

Se estiver com dificuldade, pense em acrescentar uma personagem que precise da informação.

 

Inclusive, para aqueles que precisam passar uma quantidade massiva de informação sobre o mundo, já que você quer que ele seja bem diferente e siga suas próprias leis, pode ser uma boa usar a técnica secular dos contadores de história: a dinâmica Mestre x Aprendiz. 😮

 

É bem simples: tenha uma personagem que não sabe nada, assim como o leitor, e outra que vai transmitir tudo o que ela precisa saber. Harry Potter vai para Hogwarts e aprende sobre o mundo bruxo, Arthur conhece Ford e descobre os mistérios da galáxia, Kvothe vai para Academia e aprende Simpatia, Vin conhece Kelsier e aprende Alomancia… enfim, a lista é grande.

 

As Informações Triviais

Se no seu mundo as coisas caem quando são jogadas para cima, você não precisa explicar a gravidade…

 

Exponha somente os elementos do mundo que justifiquem a história se passar ali; omita tudo o que o torna um “lugar qualquer”.

 

E se precisar expor o mundo, faça com que ele próprio sirva de exposição. Se as coisas não caem quando são jogadas para cima, ou se caírem devagar, não disserte sobre isso. Mostre um objeto caindo.

 

 

Palavras Finais


Escreva, colete opiniões, revise, edite, reflita, melhore… o papo aqui não é muito diferente de qualquer outra área do processo de escrita.

 

Só não se apegue demais aos seus rascunhos porque isso acaba restringindo a criatividade. Dificilmente a primeira ideia é a melhor. Se você estiver aberto às mudanças, vai se surpreender com o quanto o seu primeiro rascunho pode melhorar com as edições…

 

E isso talvez seja mais forte para as questões expositivas. Elas estão ali para que os outros não só entendam a sua história, mas também sejam capazes de mergulhar nela assim como você fez enquanto escrevia. Só que para envolvê-los, você precisa entregar a exposição na medida certa, e isso só acontece quando você ouve o que eles têm dizer. 😉

 

 

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Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal