Exposição: Quando e Como Passar Informações ao Leitor

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Você criou um mundo inteiro. Cidades enormes, reinos, países, impérios. Pensou na arquitetura, no transporte, na magia, na tecnologia, tudo até os mínimos detalhes. Suas notas, esquemas, cálculos e desenhos ocupam mais espaço que o outline da história, e por uma margem colossal. Você ama tudo aquilo; é claro que quer colocar tudo dentro da história. Quer expor.

 

Hoje continuamos o papo da semana passada sobre exposição! No artigo anterior discutimos como decidir o que entra e o que não entra na sua história; hoje, com isso já certo, o tema é decidir como passar aquela informação.

 

De novo, exposição é um assunto complexo. Em gêneros onde há muita informação nova, principalmente fantasia e ficção científica, o modo como você expõe seus conceitos ao leitor é uma das formas principais de se destacar, seja positiva ou negativamente.

 

Então vamos encarar o problema de frente: você tem uma informação que quer passar pro leitor. Eis o que eu acho que você deveria ter em mente:

 

Contexto Importa (e muito!)


Acho que antes de falar exatamente como passar informações de uma forma interessante, é necessário avaliar muito bem onde essa informação deve ser passada.

 

Nos primórdios do gênero de fantasia, era comum encontrar livros que começavam com uma descrição impessoal do mundo e de seus eventos, como num livro de história. As primeiras páginas eram um resumão pra situar o leitor, mais ou menos como foi feito no filme da Sociedade do Anel.

 

Na época isso era aceitável; ninguém conhecia fantasia, os leitores não estavam acostumados com imaginar mundos diferentes, então aquela ajuda no começo caía bem. Mas hoje em dia isso deixou de ser bem visto pelos leitores. Não porque a narração à lá aula de história seja inerentemente chata, mas porque há maneiras melhores de fazê-lo.

 

Tudo isso pra dizer que pode parecer uma excelente ideia dar uma aula sobre seu mundo logo no começo, mas é algo a se pensar com cuidado. A pergunta a fazer é: quando essa informação vai ser mais útil? Quando que vai existir um contexto para que o leitor se lembre dela?

 

Algumas coisas o escritor precisa ensinar ao leitor para que ele entenda a trama. Em O Jogo do Exterminador, é necessário entender que houve uma guerra contra alienígenas, e todo um complexo contexto político e social que surgiu com isso. Mas o livro (diferente do filme) não fala isso de cara. O contexto político, inclusive, só é explorado lá pro meio do livro, quando ele se torna relevante. Antes desse ponto ele era só pincelado, e bem de leve.

 

O que eu quero dizer com isso? Que, abrindo a história falando do contexto político, há uma possibilidade forte do leitor simplesmente não se lembrar disso na hora que for relevante. E a compreensão dele da história cai. Por mais que seja necessário dar algumas informações antes da hora para que o leitor não se sinta traído, ainda é muito importante pensar exatamente nos momentos adequados para isso. Você não precisa informar tudo de cara. Afinal, o leitor precisa lembrar das coisas.

 

Legal, então é interessante dar as informações antes da hora, mas nem tanto. Mas como faço o leitor se lembrar do que é importante? A próxima dica é exatamente sobre isso:

 

Associe Informações com Acontecimentos


“Tomates podem explodir.”

 

Digamos que isso é importante pra sua história: no clímax final, o vilão é surpreendido por um tomate explosivo, perde o equilíbrio e cai na boca dos tubarões. É interessante dizer antes que tomates explodem. Mas se você falar muito antes, como que o leitor vai se lembrar disso? Não se espera que o leitor lembre de todos os detalhes da história.

 

Aí entra a dica: associe informações com acontecimentos concretos.

 

Lembrar-se de uma informação abstrata, como “tomates podem explodir” é muito mais difícil que se lembrar que um tomate explodiu na mão de alguém. Informações são aprendidas com experiências, quando vemos as consequências delas. Se o escritor informar um monte de coisas mas não fornecer nenhum acontecimento para o leitor associá-las, o livro vira uma prova de história, e não, bom, uma história.

 

Então tente mostrar as consequências das informações. Associe elas com eventos, com consequências, com cenas concretas.

 

Eu andei só circundando o problema: falando de quando fazer, de associar com algo… Mas vamos ao cerne, como eu passo as informações? Bom, há vários jeitos de fazer isso. Como sempre falamos aqui, não há um jeito certo absoluto. Sempre depende das circunstâncias. Vamos, então, ver alguns jeitos de expor informações e analisar suas diferenças:

 

Jeitos Diferentes de Expor Informações


Outro exemplo de informação relevante pra história: o seu personagem é alérgico a uvas. Vamos ver alguns jeitos de passar essa informação.

 

João era alérgico a uvas.
João viu um suco de uva em cima da mesa, e sentiu o estômago revirar. Se tomasse um gole, sua alergia faria ele passar o resto do dia mal.
O exame admissional da empresa corria bem.
“Você é alérgico a alguma coisa, João?”
“Sou, a uvas.”
“Eu finalmente consegui aquele emprego” disse João. “Acho que mereço uma dessas caipirinhas.”
“Calma aí João” disse a namorada dele. ”É caipirinha de vinho. Tem uva.”
“Ah” ele disse, cabisbaixo. “Maldita alergia.”

 

Todas essas passagens cumprem um mesmo propósito: mostrar a alergia do João. Agora vamos pensar um pouco nas diferenças entre as maneiras.

 

O caso A é simples. Direto, sem nada. Informação crua. Será um pensamento aleatório que surgiu na história? Qual a desculpa para ele estar lá? Não é uma descrição ou acontecimento…

 

O caso B já é um pouco mais elaborado: o surgimento das uvas fez João pensar nelas, justificando o aparecimento daquela informação. Mas ainda assim, de onde surgiu aquele suco de uva? Sucos de uva não surgem do nada! Qual era o propósito dele na história, só contar sobre a alergia? Pode ser forçado demais.

 

O caso C toma um caminho diferente: alguém pergunta a João, ele só reage. E o exame admissional pode se encaixar bem no plot da sua história. Mas ainda assim aquela informação pode ficar um pouco perdida… E, além disso, pra que mostrar o exame admissional dele? Tem algum outro propósito fora falar da alergia?

 

Uma das questões aqui é imersão. Exposição direta demais tira o leitor do livro. Uma frase como “João era alérgico a uvas” quebra a magia da história, faz o leitor perceber que ele está lendo uma história criada por alguém, não vivenciando-a. Fica irreal, forçado. Boas histórias parecem reais. O leitor acredita nelas, dentro das lógicas criadas. E exposição ruim é uma coisa que pode deixar tudo mais artificial.

 

Mas exposições mais complexas tomam mais espaço. Como eu falei num dos meus primeiros artigos, às vezes você não precisa gastar muitas palavras com uma descrição complexa de alguma coisa. Certas coisas não merecem tanto espaço na história; não compensa. Se for algo menor, e se não ficar artificial falar de cara, pode funcionar. Preocupe-se com a imersão. E aí entra a última dica de hoje…

 

Faça o Leitor Não Perceber que é Exposição


 

No exemplo D, a informação da alergia estaria escondida no meio de vários acontecimentos. Vira um detalhe, e não uma coisa forte e direta.

 

Uma ideia é encaixar a exposição no meio de outras coisas. Deixá-la fora dos holofotes. Assim a imersão fica, e a informação é passada. Acontece como aconteceria na vida real.

 

Mas, como tudo, depende do que você quer fazer. Não é como se, dos quatro jeitos do exemplo, só o último fosse válido. Todos têm seu valor, dependendo das circunstâncias. Então pense bem como você quer passar as informações. Pense na hora adequada, na reação do leitor, no tipo de história que você está escrevendo, e no seu público.

 

E aí, Ficcionado, deu pra entender o que eu estava querendo expor?

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele