Como Dar e Receber Críticas

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Nesta semana o Kaio falou sobre grupos de escrita, por que ter um e as vantagens associadas. Também recomendo esta prática muito: é terrivelmente solitário escrever sozinho, além de desmotivador. Escrever é uma coisa que você faz sozinho. Em certas ocasiões eu lembro de estar louco pra conversar com alguém sobre alguma coisa, mas, basicamente, não ter ninguém.

 

De uma forma ou de outra, uma das partes principais do grupo de escrita é fazer críticas. Isso pode parecer trivial de início, mas pode ser difícil dar uma boa crítica, e, igualmente importante, receber uma.

 

Isso é algo que o escritor tem que desenvolver, mesmo fora de um grupo de escrita. Aqui vão algumas dicas:

 

Como dar Críticas


 

Você leu o texto de alguém, seja de um amigo ou daquele semi-desconhecido que um dia te abordou com um “escrevi um negócio, você pode dar uma opinião?”, e precisa dar um feedback? Quais são as coisas importantes a serem ditas? E, igualmente importante, como levar a conversa?

 

Seja Específico, Concreto

 

Esse título lembra um pouco o que escrevemos sobre o Elements of Style, não? A ideia é essencialmente a mesma. Dê feedback concreto. Não diga “achei vago”, ache exemplos. Cite passagens do texto. Dizer algo como “está bom” é uma crítica bastante inútil pro escritor.

 

Seja Educado e Humilde

 

Isso pode parecer óbvio, mas vale ser dito. Lembre-se que o escritor muitas vezes é bastante apegado com o seu trabalho, então dê as suas críticas com humildade, deixe claro que aquela é a sua opinião e você pode estar errado, e tenha respeito pelo texto e o autor. Isso não quer dizer que você precisa gostar, claro; e isso nos leva à próxima dica…

 

Seja Honesto

 

Ser respeitoso não quer dizer que você tem que gostar; muito pelo contrário, uma boa crítica negativa muitas vezes é o que o escritor precisa para crescer. Você deve ser duro quando julgar necessário, mas nunca grosso. Diga “eu achei isto aqui ruim, é de longe a pior passagem do seu texto”, mas nunca “isto aqui é horrível, deu vontade de me matar enquanto eu lia”.

 

Anote

 

Faça notas enquanto lê. Se você tem o texto impresso, pode ser nele mesmo. Sublinhe as passagens, faça comentários nas entrelinhas com o que você pensou, como você se sentiu. Se você lê em PDF é fácil fazer isso. Até mesmo no Kindle você consegue extrair os comentários feitos no ebook (se alguém quiser saber como, pergunte nos comentários!). Depois de ler olhe as suas notas anteriores, e pense no texto como um todo. Organize suas ideias, para dar uma crítica concisa.

 

Tenha Foco

 

Às vezes recebemos um texto com tantos problemas que é difícil saber por onde começar. Nestes casos, pode ser inútil enumerar todos os problemas. A dica é focar no que você achou mais importante e falar sobre aquele aspecto. Dar opiniões sobre muitas coisas diferentes pode atrapalhar mais do que ajudar. Num texto com muitos problemas, às vezes uma certa passagem pode ser ruim, mas não muito, e deve ser deixada de lado. Num texto impecável, essa mesma passagem deve ser mencionada.

 

Isso não é muito válido para coisas muito boas, entretanto. É legal comentar os aspectos positivos como um todo, para que o autor saiba que eles foram apreciados, e impedir um possível corte deles em futuras edições.

 

O que você deve dizer

 

-“Gostei/não gostei, por causa disso”. Identifique quais elementos te fazem ter essa opinião.

-“Me importei/não me importei, as surpresas funcionaram/não funcionaram”. Ache os pontos que te geraram empatia e surpresa, e os que não geraram, e deixe isso claro. Neste caso é mais difícil, mas você pode tentar supor por quê.

– Para onde você acha que a história está indo, suas expectativas, os pontos que mais te interessaram, etc. É importante mencionar quais detalhes realmente saltaram na vista, e as promessas que o texto te fez.

– Comentários de estrutura, voz, estilo… São coisas razoavelmente secundárias, já que, como você está dando uma crítica, é provavelmente uma versão não finalizada do trabalho, sujeita à revisão. Mas vale mencionar o que você achou da escrita.

 

O que você não deve dizer

 

-“Eu faria assim/você deveria fazer isso”. Essa é especialmente válida se você for um escritor. Lendo um texto de outras pessoas, muitas vezes pegamos as passagens que nos desagradam e imediatamente a solução aparece, o seu jeito de transformar aquilo em algo melhor. Mas, quando você está dando uma crítica, você não está corrigindo o seu livro.
Aponte as coisas que te desagradaram, procurando focar mais na sua reação e não nos motivos que você acha que geraram ela.
Claro, se o autor pedir dicas, você pode dar a sua solução ideal. Mas faça isso só neste caso, ou quando surgir uma discussão de como resolver um problema.

 

– Comentários sobre gramática. Você está dando uma crítica, não revisando o trabalho. Assume-se que os erros gramaticais serão corrigidas nas próximas versões do livro. É legal marcar as coisas que você achar, mas elas não precisam ser discutidas. Às vezes, porém, vale o puxão de orelha naquele erro recorrente.

 

Como ser Criticado


 

A base é simples: você fica quieto e ouve o que é dito. Mas, com algo tão pessoal quanto escrita, isso pode ser difícil… Mas saber reagir bem a uma crítica é um importante passo se você quer se tornar profissional, e além disso vai incentivar as pessoas a continuarem te dando as opiniões dela. Se o autor ficar com raiva quando receber uma crítica negativa, qual amigo dele vai querer continuar ajudando?

 

Sendo mais concreto e específico, aqui algumas diretrizes:

 

Não se justifique

 

Nunca é errado reagir de certa forma a um texto. Não tente convencer o leitor que aquela passagem que ele não gostou é na realidade genial, ou que aquele personagem chato tem um propósito. Se a reação dele foi aquela, você tem que entender que muito provavelmente é culpa do seu texto, de uma forma ou outra. “Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”, disse Mário Quintana. Quando recebe uma crítica, nunca diga que é o seu leitor que foi burro.

 

A regra é clara: fique quieto. Escute.

 

Não leve para o lado pessoal

 

Você, como pessoa, e a sua escrita, são coisas diferentes. Pode não parecer, mas são. Separe as coisas. Não leve críticas pesadas como críticas à sua pessoa. Não fique ofendido, rancoroso, ou esperando para poder criticar e falar mal do texto do seu amigo. Seja profissional. Críticas pesadas são uma oportunidade de melhorar, não um tapa na sua cara. Exercite o seu desapego com a próxima dica…

 

Agradeça

 

Fazer uma crítica, por mais negativa que seja, é um favor. Agradeça o esforço do seu crítico para te ajudar.

 

Não peça críticas em coisas excessivamente cruas

 

Ou seja, não peça críticas em textos quando você já sabe os problemas deles.Peça críticas ou em coisas que você ache boas, ou em coisas que você ache ruins mas sem saber por quê. É muito desmotivador ficar escutando críticas sobre o que você já sabe.

 

Pergunte

 

Ok, eu disse para ficar quieto e escutar, mas você pode fazer perguntas. É permitido pedir para alguém explicar melhor o seu ponto, pedir sugestões, ou questionar as pessoas sobre coisas que elas não comentaram.

 

Não argumente, e pergunte com curiosidade, não num tom passivo-agressivo do tipo “ah é, você achou isso ruim? Como você faria melhor, espertalhão?”. Faça perguntas como “Puxa, essa parte deveria ter sido mais triste. Como você acha que eu posso melhorar isso?”

 

As Regras de Ouro


Ao fim das contas, creio que as regras da boa conduta para crítica, principalmente entre amigos, são as mesmas para qualquer relacionamento saudável. Honestidade, respeito e humildade.

 

Lembre-se que o propósito da crítica é ajudar ao próximo, nada mais, nada menos.

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele