Como Construir o Seu Próprio Mundo

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Certo, então você quer construir um mundo próprio para o seu livro. Antes de mais nada, já falamos um pouco sobre cenário nesses dois artigos:

 

Por Onde Começar a Construção do Cenário

Como Colocar o Cenário nas Páginas de Seu Livro

 

Enquanto aqueles trataram de pontos importantes para apresentar um cenário qualquer, real ou inventado, este apresentará um guia mais direcionado à invenção.

 

Lembra-se dos elementos do cenário? Terreno, habitantes, relações sociais, conflitos e passado?

 

São esses os pontos abordados com mais calma aqui. A intenção é fazê-lo refletir sobre os detalhes de seu mundo, desde os mais relevantes até alguns de menor importância. E, principalmente, checar se eles são congruentes.

 

Assim como falamos no artigo sobre outline, pode chegar um ponto em que todo esse planejamento pareça demais. Quando isso acontecer, é provável que você já tenha passado de seu ponto de ótimo de preparação e está na hora de começar a escrever. 😉

 

Apesar disso, conforme o seu mundo for ganhando vida com as palavras escritas, revisite essas ideias. Se você está aqui, suponho que o cenário tenha uma importância grande em sua história e validar a sua congruência é fundamental.

 

Quando você já tiver algo pronto (ou até mesmo todo o seu primeiro rascunho), poderá ficar até mais fácil repensar em alguns detalhes e acrescentar outros.

 

Mas tenha em mente que essas reflexões são muito mais para montar o cenário em sua mente do que para dizer o que você precisa colocar no papel.

 

Nem tudo o que for pensado deve vir nas páginas do seu livro!

 

No entanto, ter esses detalhes em mente guiará você melhor através da história.

 

1. Terreno


Comece pensando no tamanho do cenário criado. Seria ele um país, como Panem? Um continente, como a Terra Média? Um planeta, como a Terra em Avatar, a lenda de Aaang? Uma galáxia, como em Star Wars? Ou todo o universo, como em Star Trek?

 

Em seguida, pense nas paisagens disponíveis, ao menos naquelas que você vai querer abordar na história. Há florestas, montanhas, planícies congeladas? Onde uma se situa em relação à outra?

 

Então pense nos núcleos de civilização. Há cidades, vilas, tribos? Como elas são?

 

Aqui talvez já seja interessante você pensar nos habitantes, citados abaixo. Apesar da ordem em que foram colocados, não acho que esses elementos sejam pensados de uma maneira linear, um após ao outro. É mais provável que se desenrolem em paralelo.

 

Inclusive, aqui há uma característica do ambiente que mescla habitantes, relações e até conflitos: a tecnologia presente (ou o sistema de magia). Isso é importante para você imaginar como o terreno original foi afetado pela intervenção dos habitantes.

 

Dica-Chave #1: Pense na Infraestrutura!

Isso é algo facilmente negligenciado e que impacta a profundidade do mundo.

 

Como as pessoas vão de um lugar para o outro? Seja entre vilas, planetas ou galáxias, pense no meio de transporte. Ou até mesmo dentro uma cidade, será que não há um transporte entre bairros? Um bonde flutuante? Uma carroça movida por cavalos fantasmas?

 

Como os habitantes se comunicam à distância? Cartas e corvos? Telefones móveis? Hologramas? Telepatia? É algo de fácil acesso ou restrito à determinada classe social?

 

Pense também no que as pessoas comem e como têm acesso à comida. São plantações internas? Importam de outras cidades? O governo que sintetiza os alimentos?

 

E até em como são as roupas, acessórios, móveis e ferramentas. Como os recursos naturais são explorados? De onde vêm? Como vêm?

 

 

2. Habitantes


É provável que você pense primeiro nos seres inteligentes e civilizados. Mas guarde as relações que eles sustentam para o próximo tópico. 😛

 

Aqui, além de estimar um nível médio de inteligência, o lance é refletir sobre seus atributos físicos e qualidades especiais. O que distingue uma espécie da outra? Elfos tem orelhas pontudas e aptidões para magia, anões são baixinhos e enxergam no escuro, vampiros são pálidos e gostam de sangue…

 

Além dos seres inteligentes, pense nos animais. Há uma espécie própria do seu mundo? Quais características que a tornam única? Há animais explorados pelos seres civilizados?

 

E quanto aos monstros? Você vai importar alguns seres mitológicos? Fazer alguma diferenciação? Inventar alguns? Há aqueles que agem por instinto e outros que são mais guiados pela inteligência? Talvez até capazes de falar? O que é preciso para ser um “monstro” em seu mundo?

 

3. Relações Sociais


Em essência, sempre que houver um grupo de habitantes, há uma relação social a ser explorada. É provável que sua história seja construída em cima de relações sociais. E, por mais que muitas venham a ter pouco peso no seu roteiro, identifique as importantes e trabalhe nelas com carinho.

 

Pense na cultura sustentada pelo grupo. O que eles fazem? Qual sua rotina? No que acreditam? Quais histórias eles contam sobre o mundo, as outras pessoas e si mesmos? Eles propagam algum mito? Eles fazem festas, cerimônias? Com que propósito? Quais são suas demais tradições?

 

Religião

Pense em suas crenças básicas. Ela foi fundada baseada em quê? Há um salvador? Um profeta? Quais são seus deuses? Seus dogmas? Como ela prevê a salvação? Acredita em vida após a morte? Que resposta ela oferece para “por que estamos aqui”?

 

Governo

Quem está no poder? Quantos? Como esse poder é legitimado? Como ele é propagado? Como os governantes governam? Eles se importam com o povo? Se sim, como mostram que se importam? Possuem um dia especial para ouvir todas as queixas? Se não, eles exploram o povo ou apenas o abandonaram?

 

Quem apoia o governo? Mais do que pessoas individuais, essa é uma pergunta referente a possíveis classes, grupos, cargos ou títulos. Existem conselheiros? Soldados Protetores? Sacerdotes que divinizam os governantes? Há um grupo de oposição?

 

Grupos Menores

Há grupos que compartilham crenças diferentes da cultura comum. Elas podem complementar ou estar à parte das crenças dominantes, mas também podem entrar em conflito. Talvez seus membros tenham uma vida dupla, repudiam o padrão e/ou vivem indiferentes ao resto.

 

Que outros grupos existem? Uma ordem juramentada? Uma irmandade secreta? Uma confraria mística? Uma comunidade de artesões?

 

Quais são seus valores? O que os une? O que os diferencia da cultura dominante? Como alguém pode fazer parte desse grupo? É possível sair dele? Todos sabem de sua existência? Como a cultura dominante reage a esse grupo? Estima, sente repulsa ou é indiferente?

 

Comércio

Como a economia funciona? O que a sustenta? O que os habitantes trocam? Há moedas vigentes? Eles são capazes de acumular capital? Se sim, como fazem isso? A economia é regulamentada por outro grupo? O governo? A religião? Como o controle é feito?

 

Relações Intra-Sociais

São as relação entre membros de um mesmo grupo. Pense principalmente em como os habitantes que compartilham uma mesma cultura dominante enxergam as diferentes classes e os grupos menores abarcados por ela. Por exemplo, qual consideração um guarda tem a um camponês.

 

Como é a hierarquia social? Quem está na base e quem está no topo? Ela definida pela religião, pela política, pela economia ou um pouco de tudo? Há como mudar de um nível para o outro? Se sim, o que é preciso para ascender socialmente? Ou cair?

 

Relações Inter-Sociais

São as relações entre membros de diferentes grupos. Aqui pensando na visão que habitantes de diferentes culturas dominantes têm entre si. Por exemplo, como os elfos enxergam os humanos.

 

Quais são as diferenças culturais? E as semelhanças? Os grupos possuem contato? São amigos, inimigos ou indiferentes? Sustentam uma relação comercial talvez?

 

Dica-Chave #2: Ofereça Diferentes Matizes em Seus Grupos Sociais

Apenas porque um grupo compartilha determinadas características, não significa que todos os membros devam ser iguais. Cada um tem sua própria maneira de pensar, então acrescente o fator pessoal às pessoas!

 

Alguns podem discordar de uma crença ou outra; talvez tenham sua própria interpretação a ela. O camponês pode ser um servo fiel do seu Deus, mas se algum dogma se interpor entre a fé e sua família, ele ficará com a família.

 

Essas variantes individuais oferecem uma profundidade absurda ao seu mundo. Por mais interessante que seja todo o esteriótipo que você construiu até aqui, saiba que ele é apenas isso: um esteriótipo.

 

Dica-Chave #3: Pense em como a tecnologia (ou a magia) afeta a sociedade

É pouco provável que alguém que tenha posse de algo poderoso vá viver à margem da sociedade. E se isso não ocorrer, então como é que esse algo poderoso está afetando as relações sociais?

 

Então são os magos os governantes? Se não, por quê? A magia deles não é tão poderosa? O que eles são capazes de fazer então? Alguém os teme?

 

Ou talvez seja aquela nova tecnologia que faça os governantes se dobrarem. Ou talvez ela não tenha um grande poder de destruição, mas é capaz de revolucionar a maneira como as pessoas se comunicam. E qual o impacto que isso teria? O que aconteceria se somente os governantes tivessem acesso a ela?

 

Isso pode parecer óbvio, principalmente se você já está construindo o seu mundo baseado nesse fator tecnológico/mágico. Porém o impacto social pode ser facilmente negligenciado se a descoberta desse fator vier ao longo da história. Portanto, sempre pense nisso!

 

4. Conflitos


O cenário gera algum conflito? Seja pelos habitantes e suas relações sociais, seja por algum distúrbio do terreno. Talvez seja uma guerra devastadora ou um problema climático severo. Talvez sejam consequências da tecnologia (ou da magia). Talvez você queria trazer isso para a frente de sua história ou somente deixar como plano de fundo.

 

É certo que o conflito não precisa ser tão impactante quanto um meteoro prestes a colidir com o planeta ou uma epidemia que já matou metade da população.

 

Mas perceba que é difícil um cenário ser totalmente estável, onde reina somente a paz. Então mesmo se sua história não for girar em torno disso, é interessante pensar em quais conflitos poderiam estar acontecendo em segundo plano. Assim você oferece uma profundidade interessante ao seu mundo.

 

Só não se esqueça de explicar sua origem.

 

5. Passado


Essa aqui é a História, com H maiúsculo. Como eram o terreno, os habitantes e as relações sociais antigamente? Como eles se transformam no que é hoje? Quais conflitos ocorreram?

 

Defina por que o mundo é do jeito que é. Muitas fantasias inclusive possuem sua própria história sobre a origem do universo, geralmente apoiada em uma religião. E se você for por esse caminho, pode até pensar se em seu mundo há diferentes explicações para esse “passado remoto”.

 

Porém, mesmo se você não for tão ao passado assim, é importante fornecer explicações para os eventos recentes. Principalmente se eles forem a causa de um conflito atual.

 

Dica-Chave #4: Pense nas reviravoltas

Dificilmente a História é linear. Aquela linhagem de governantes está no poder há mil anos? Ninguém tentou tirá-los de lá? Como foi o choque cultural com as outras sociedades? Houve guerra? Os territórios sempre foram demarcado dessa maneira? A religião dominante sempre foi a soberana? Não houve nenhuma outra que tentou ao menos surgir?

 

Pense na História do nosso mundo, você sabe que ocorreram inúmeras conspirações, jogos de poder, colonizações, levantes, revoltas, perseguições religiosas… E são esses conflitos que mudam o rumo do mundo hora ou outra.

 

Notas Finais


É preciso de tempo para pensar em tantos detalhes. Mas não se sinta sufocado com tudo isso, use o mundo real como base para os tópicos levantados aqui. Faça algumas pesquisas e fundamente suas criações em algo que já existe.

 

Se quiser criar uma cultura nova, leia um pouco sobre uma sociedade antiga, ou várias e misture seus traços, então tempere com suas invenções. Nutra e libere a criatividade!

 

Um bom exercício é pegar um cenário real e identificar nele cada elemento mencionado. Ou pegue uma fantasia/ficção científica que você leu recentemente e faça isso, tente pensar no que o autor pensou, perceba como o mundo foi apresentado.

 

E lembre-se: não use todo esse planejamento detalhado para postergar o início da sua escrita. Quando sentir que possui algo substancial, comece a escrever. Você sempre poderá voltar para rever seus detalhes mais tarde.

 

Preparado para criar o seu mundo?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal