Como Colocar o Cenário nas Páginas do Seu Livro

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A construção de cenários é algo fundamental para criar uma boa imersão no leitor. No artigo passado abordamos o que é interessante ter em mente antes de colocar o cenário em suas páginas. Se você ainda não leu, recomendo que volte lá e dê uma olhada! 😉

 

Aquele artigo funcionou muito mais para construir o cenário em sua mente de escritor do que para efetivamente dar diretrizes de como montá-lo. A diferença é simples: você não vai querer que seus capítulos se transformem em um texto acadêmico sobre os elementos do mundo.

 

Isso funciona da mesma maneira que a construção de personagens. Você pensa nas características de seu protagonista e sabe que ele é teimoso, corajoso, arrogante e leal. Só que não é tão interessante começar seu primeiro capítulo dizendo: “Fulano é corajoso e leal, mas sua teimosia aliada a arrogância o tornava difícil de ser suportado.” É uma questão de mostrar ao invés de contar.

 

Com cenários, no entanto, isso é mais difícil. Certo, o leitor é um pouco mais tolerável para exposições de cenário, mas isso não é motivo para abusos. É fácil cansá-lo com informações em excesso, principalmente se elas vierem atiradas “às margens da história”.

 

Sabe quando você fica empolgado com algum detalhe que acabou de pensar e coloca aquilo em forma de uma exposição direta, embora tenha pouca ou nenhuma relação com os acontecimentos imediatos? Sim, sim, mesmo que vá ter uma importância crucial lá na frente… Bem, é isso o que quero dizer com estar “às margens” (mais adiante).

 

Em fantasias ou ficções científicas é provável que a tolerância para exposição seja maior, justamente por serem gêneros que requerem uma construção de mundo mais cuidadosa. Mas pelo mesmo motivo, é muito mais importante saber entregar toda essa informação interessante que você imaginou de modo que contagie e surpreenda o leitor.

 

Assim como o último artigo, o propósito desse não é entrar em detalhes de forma. Mas é claro que saber entregar as descrições apropriadas faz uma diferença gigantesca. Para isso, dê uma olhada no nosso artigo sobre descrições.

 

Lembrando também que a importância que um cenário tem para a história é variável. Existem histórias excelentes com e sem um cenário bem desenvolvido. Dito isso, esse é um artigo mais voltado para quem quer que o cenário tenha um lugar de destaque.

 

Beleza, chega de enrolação e vamos pras dicas práticas…

 

1. Faça o Cenário Contribuir para a Trama


Isso significa exatamente o oposto de estar “às margens da história”. É trazer o cenário não só para o palco principal, mas para influenciar diretamente as ações das personagens. Eu enxergo quatro maneiras de se fazer isso, embora não ache que elas sejam independentes…

 

Variantes Sociais (e o caso do Leigo)

Pode ser que o meio no qual as personagens cresceram tenha exercido uma forte influência sobre suas formas de ver e reagir ao mundo. Talvez por ter nascido em uma cultura diferente de onde se passe a história aquela personagem apresente reações distintas ou mais limitadas.

 

Ao apontar essas diferenças, você fornece ao mesmo tempo as características de ambos os cenários. Essa é uma boa oportunidade para entrelaçá-lo com as personagem e com a trama.

 

Um caso específico desse recurso é o de colocar um leigo, geralmente o protagonista, em um ambiente no qual ele não está familiarizado. Dessa forma ele pode aprender junto com o leitor as particularidades do cenário. Assim que Harry conhece o mundo bruxo e os irmãos Pevensie, Nárnia.

 

Conflito Primário

Lembra que conflitos podem ser um dos elementos que compõe o cenário? Um elevado índice de radiação, um governo opressor, uma guerra devastadora… Seja qual for, espera-se que um conflito que seja originado pelo cenário venha a respingar nos protagonistas uma hora ou outra. E isso já é uma excelente oportunidade de estreitar as relações de cenário, personagem e roteiro.

 

Por exemplo, vamos pegar um mundo pós-apocalíptico lotado de zumbis. É bem provável que os zumbis venham a ter um papel relevante, seja como os representantes principal do antagonismo ou como um obstáculo menor. Mas se eles vão aparecer, essa é a chance de expor os detalhes que você gostaria de abordar: o que deu origem a eles? Como o mundo chegou a esse ponto? Houve alguma reação governamental? Governos ainda existem?

 

(Para saber melhor quandocomo apresentar essas informações, dê uma olhada nos artigos de exposição).

 

Conflito Secundário

Não que sejam menos importantes; estou chamando de “secundário” só para enfatizar a diferença. Aqui entram aqueles conflitos causados pelo cenário, mas que são pontuais, características mais de uma cena do que de todo um mundo.

 

Por exemplo, uma nevasca no meio do inverno, um deslizamento, um encontro com areia movediça… ao melhor estilo Indiana Jones.

 

Eles podem não ter a profundidade dos conflitos primários, mas podem ser utilizados para transmitir informações relevantes. Se em um mundo pós-apocalíptico a chuva for ácida, o leitor provavelmente vai começar a desconfiar de abusos ambientais no passado…

 

Objetivo

Por fim, talvez a peça mais relevante de seu cenário seja o grande objetivo dos protagonistas. Se eles estão procurando por Atlântida, é a busca por um cenário que move a trama. Nesse caso, você pode soltar informações através de mitos, pesquisas e, quando finalmente lá chegarem, através da própria experiência.

 

Se esse é um objetivo que, de fato, seja alcançado apenas ao fim da história, as informações que você passar a respeito do “cenário final” estarão dosando os anseios e expectativas do leitor. Esteja atento para isso, para que sua entrega final compense a construção feita ao longo da história.

 

2. Dê Atenção aos Detalhes


Se a sua história exigir uma relação mais próxima entre cenário e roteiro, só amarrá-los não vai ser o suficiente. Exaltar o cenário, mas não saber entregar as informações, pode acabar virando um gol contra.

 

Elabore

Reflita sobre os elementos do cenário que são relevantes pra sua história — terreno, habitantes, relações sociais, passado e conflitos. Se você estiver com dificuldade para saber quais são importantes, comece com um esboço para cada um.

 

Algum desses elementos tem algo peculiar? É um futuro distópico onde todas as interações sociais são feitas através de uma máquina? É um planeta distante onde os habitantes são bem diferentes dos humanos?

 

Então veja se você quer ou conseguirá explorar o que está imaginando. Use as dicas lá do primeiro tópico para incorporar isso no roteiro.

 

Se estiver criando um mundo novo, dê mais atenção a essa etapa. Desenvolver todos esses elementos pode dar trabalho, mas vai dar uma profundidade interessante para o seu mundo (mais sobre isso aqui).

 

Quando definir os mais relevantes, ou optar por todos eles, explore-os a fundo. Essa é uma etapa para aquele que assumiram que o cenário não só terá um peso grande na história, como ajudará a definir sobre o que o livro se trata. Então invista nos detalhes, pense em como deixar o seu mundo mais personalizado. Se precisar de uma ajudinha com a criatividade, dê uma olha nesse artigo. 😉

 

Forneça

Segundo, saiba o tempo certo de mostrar esses detalhes para o leitor.

 

Seguindo com o exemplo do mundo pós-apocalíptico, suponha que existam dez tipos de zumbis diferentes e você quer explicar cada um deles. Você poderia fazer isso:

 

  • Enquanto o protagonista tá de boa na zona de segurança refletindo sobre o caos mundial.
  • Assim que o protagonista se depara com o primeiro zumbi.

 

Por mais que não dê para bater o martelo e dizer que um caso será sempre melhor que o outro, o segundo tende a causar maior interesse no leitor. Isso acontece porque é uma informação em demanda pela situação.

 

Ainda assim, é mais interessante você detalhar somente o tipo de zumbi presente na cena e mencionar que existem “vários outros”. Além de criar expectativa, você não cansa o leitor com detalhes sobre coisas que ele não está presenciando.

 

Esse é um recurso narrativo conhecido como foreshadowing. Quando você menciona algo sem explicações suficientes, deixando o leitor no aguardo pelas respostas. Falamos mais sobre isso aqui.

 

Para mais dicas de como apresentar o cenário, dê uma conferida nos nossos artigos sobre exposição.

3. Use Simbolismos


Simbolismo é um eufemismo para “clichês bem colocados”. Você já reparou que casas abandonadas, caindo aos pedaços, geralmente escondem algo sinistro? Ou, mais curioso ainda, como sempre está chovendo em velórios?

 

Há uma razão para isso: como estamos acostumados com essas relações, é muito fácil usar um simbolismo desses para evocar no leitor aquilo que você espera que ele sinta.

 

Uma casa abandonada, com janelas quebradas, um lustre grande e empoeirado e com lençóis cobrindo os móveis já causa tensão por si só. Acrescente a noite escura, a porte rangendo e uns barulhos inexplicáveis e o seu cenário de suspense está montado.

 

Mas é importante saber usar o simbolismo. Se você basear toda a sua história neles, sem muito a acrescentar, ela dificilmente será marcante. O ideal é usar esses clichês, temperando-os com seus detalhes únicos e pessoais.

 

4. Adapte os Cenários às Cenas


Uma cena se passa em um ambiente específico dentro do grande cenário de sua história. E ao montá-lo em suas páginas, descreva não só o que faz ele ser como é, mas também suas particularidades ocasionais.

 

Em que época do ano a cena se passa? Isso afeta o ambiente de alguma forma?

Qual a hora do dia? É noite? A lua é cheia? As estrelas brilham ou estão escondidas?

Quanto tempo se passa durante a cena? Alguns minutos? Uma noite inteira?

Qual o clima? As nuvens estão carregadas? Há sol? Neblina?

Ou se for em um interior, está escuro? Há alguma fonte de luz?

Qual o humor que a cena carrega? É uma cena triste? Descontraída? Como você pode usar o ambiente pra acentuar isso?

 

Pensamentos Finais


Como o Thiago bem comentou em um dos primeiros artigos aqui no blog, não há como apontar uma diretriz absoluta e dizer: “faça assim, porque é assim que deve ser feito”. Se você quiser sentar e escrever e ver o que acontece, vá em frente!

 

No entanto, existem situações em que não estamos satisfeitos com o que temos. Sejam nossos rascunhos ou algo ainda no campo das ideias. Daí entra o planejamento e as técnicas de roteiro. Em suma, esses dois últimos artigos foram escritos para quando você se sentir sem chão e sem rumo. Quando sentir que o seu cenário deveria estar entregando muito mais.

 

Comece pensando nas bases de construção levantadas no artigo passado. Há algo lá que pode engrandecer o seu cenário? Há como melhorar a visão que você tem dele?

 

E então passe para as dicas deste artigo e reveja as cenas já escritas ou planejadas. Como você está transmitindo os elementos do cenário? Há detalhes que suportam a importância que você gostaria de dar a ele? Como você está passando as informações? Está em um ritmo bom?

 

Espero que essas dicas possam ajudá-lo, ficcionado. Preparado para criar?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa e, curioso pelos mistérios da natureza, acabou se formando em engenharia mecânica, sem nunca deixar de rabiscar suas histórias. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal

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