Como Escrever um Livro: Comece com o Outline

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Não quero que esse pareça um artigo sensacionalista. Coloquei como título “como escrever um livro” porque imagino que quando alguém se pergunta isso, espera receber uma resposta para “por onde posso começar a efetivamente pôr a mão na massa?”.

 

E é a resposta para essa pergunta que você encontrará aqui: comece com o planejamento.

 

Caso esteja interessado em um esboço do caminho que vai desde a ideia de um livro até a publicação, dê uma olhada no artigo “Como Publicar um Livro”. Ou, caso queira saber mais a fundo a respeito das diretrizes para criar uma história, veja a mãe deste artigo, “Como Escrever um Livro“.

 

Neles falamos que o primeiro passo é planejar o que vai ser escrito.

 

Entretanto, também mencionamos que a dose de planejamento varia muito de autor para autor. Eu prefiro esboçar a direção principal da história, destacar as cenas mais marcantes e os pontos de virada, saber onde começo e aonde quero chegar.

 

Por outro lado, há os do tipo aventureiro, que gostam de começar a escrever uma cena sem muita noção do que ela vai significar para a história, descobrindo juntamente com os personagens o seu desenrolar. Uma escrita livre e mais espontânea. O Thiago fala mais sobre isso aqui.

 

Por ora, concentremo-nos no planejamento.

 

A Preparação


Vamos assumir que tudo o que você sabe sobre sua história ainda está apenas na sua cabeça. Então, logicamente, a primeira coisa a ser feita é começar a passar as suas ideias para o papel.

 

Não se preocupe muito com a organização por enquanto. E por isso eu particularmente acho mais interessante um papel do que algo digital nessa etapa.

 

Comece pensando sobre os temas abordados, os personagens, o cenário…

 

Você pode fazer um mapa mental: escreva no centro o tema principal (e o título, se já tiver algo provisório) e, caso precise de uma organização mínima, agrupe as ideias em balões para cada uma das categorias discutidas a seguir.

O Tema

Mesmo os escritores mais aventureiros precisam ter isso em mente para escrever.

 

O que é que você quer que sua história aborde? Claro, um romance pode abordar vários assuntos: você pode falar a respeito da eterna luta do bem contra o mal enquanto trata de aspectos mágicos.

 

Mas se toda a sua história pudesse ser resumida em uma frase, qual seria? A luta maniqueísta ou o usufruto da magia?

 

Escolha um tema principal para ser enfatizado ao longo de toda a narrativa e tempere-a com os temas secundários.

 

Ademais, não confunda o tema com o gênero. Você pode falar de amor em uma comédia romântica (uma escolha trivial), mas é igualmente possível tratar do amor em um horror (Stephen King?).

 

Apesar de não haver restrições para a escolha de um tema, opte por algo relacionado às suas experiências. Somente dessa maneira você demonstrará autenticidade em seus textos.

 

Não estou dizendo para você abolir a fantasia, afinal, que escritor já viu um dragão?

 

O que estou dizendo é que você construa sua ficção e até mesmo os seus cenários mais fantásticos em cima de experiências reais, de emoções que você realmente já sentiu. Como descrever um coração partido que toque a fundo os seus leitores se o seu nunca foi despedaçado?

 

Bem, eu até acredito que um escritor experiente e empático possa simular emoções. Fernando Pessoa já diria que “o poeta é um fingidor”. Contudo, talvez seja interessante deixar essas simulações para os temas secundários e escolher como essência da história aquilo que você tiver de mais vívido.

 

As emoções evocadas pelo tema principal precisam saltar da página e mexer com as crenças do leitor; para isso, precisam ser descritas de maneira extraordinária.

 

O Cenário

Intuitivamente, as noções gerais do cenário que suportará a trama já devem estar claras.

 

Você falará sobre como é crescer sem uma família. Mas em que lugar? Em um mundo completamente inventado ou em uma ilha canibal no meio do Pacífico? Em Marte ou em uma galáxia muito distante?

 

Se você estiver escrevendo um romance longo, é provável que sua história se passe em vários lugares. Uma ficha para cada um deles com descrições breves pode ajudar. Escrever uma ambientação aprofundada do seu universo, seja abordando suas leis únicas ou o contexto histórico, também pode ser interessante.

 

Mas aqui entra muito a questão de você sentir até que ponto o planejamento é importante. Seja honesto consigo mesmo: não postergue o início da escrita com uma ambientação extremamente detalhada, mas pouco relevante.

 

Naturalmente, quanto mais parecido for o cenário de sua história com o cenário que o cerca diariamente, menos cabelo você precisa perder com isso…

 

As Personagens

Protagonistas, antagonistas, coadjuvantes… idealmente você deveria montar uma ficha para cada um deles. Escrever suas histórias pessoais, pensar em suas fraquezas e virtudes, seus vícios e seus desejos mais íntimos.

 

Todavia, aqui entra mais uma vez a questão de até que ponto você acha que precisa ter tudo planejado antes de se lançar às primeiras palavras.

 

Independente de qual seja esse ponto, se quiser personagens mais expressivas, precisa ter um conjunto mínimo de características levantadas. Se estiver precisando ajuda, pode recorrer a algum conjunto de arquétipos.

 

Mesmo que você não queira levantar uma ficha formal para cada uma delas, tenha esses aspectos de personalidade claros em sua mente quando estiver escrevendo.

 

Há um mundo aqui de informações que pode ser explorado. E, aos poucos, estamos abordando-o. Outros artigos sobre construção de personagens que já escrevemos:

 

Coisas que Você Deve Fazer: Personagens Incríveis

Como Escrever Personagens Diferentes de Você Mesmo

Dando Voz Aos Seus Personagens

 

 

Os Conflitos

Os obstáculos que as suas personagens vão enfrentar são aquilo que move a história adiante, o que revela as decisões tomadas e, consequentemente, é a maneira mais genuína de mostrar quem elas são.

 

É comum que quando pensamos em uma história, algumas cenas já nos ocorram à mente. Poder ser uma cena inicial, uma interação entre personagens, o clímax ou algum ponto intermediário que colocará tudo o que foi apresentado até então em cheque. Seja o que for, reflita bem sobre essas cenas agora: que problemas elas suportam? O que as personagens estão fazendo? Ou pensando?

 

Os conflitos ainda serão aprofundados posteriormente, mas de maneira geral existem conflitos externos e internos.

 

As personagens estão lutando contra um dragão? Parlamentando contra o Soberano Supremo do Universo? Tentando sair da prisão?

 

Ou o protagonista está superando a perda dos pais? Refletindo sobre quem ele realmente ama? Arrependido com aquilo que ele fez?

 

Ao colocar no papel essa primeiras cenas que você já tem aí na cabeça (e possíveis ideias que surgirem ao longo do processo), é chegada a hora de organizar tudo isso e começar a esboçar o esqueleto de sua trama.

 

O Outline


Outline significa, ao pé da letra, contorno. Pela maneira como a palavra é utilizada aqui, poderíamos traduzi-la também como esboço ou esquema. Mas vamos mantê-la como outline, pois esse é um termo já bastante utilizado mesmo em português.

 

A maior vantagem de se trabalhar com ele é poder escrever fora de ordem. Você pode começar seu livro com as partes mais empolgantes e, conforme for pegando embalo, escreve as demais.

 

E para isso você deve, então, delinear os acontecimentos da história.

 

Pegue o que você já fez e tente agrupar os eventos semelhantes e a listar as cenas pensadas em ordem cronológica (se você contar a história em uma ordem não cronológica, com flashbacks e coisa e tal, e já souber como agrupar as cenas na ordem em que elas vão aparecer, faça isso também).

 

Onde a história inicia? Em qual situação? Com quais personagens? Qual é o gancho que a moverá para frente?

 

Esclareça isso. Saiba quais eventos você sente necessidade de contar. E então pergunte-se: o que precisa acontecer para que esse evento chegue? Quais personagens precisam ser introduzidas? Como?

 

A intenção aqui não é ter um detalhamento exímio de tudo o que vai acontecer. Não. Apenas organize o que você já tem e as novas ideias que forem surgindo. O bom de colocar as cenas traçadas em ordem é que você fornece espaço apropriado aos vazios ainda desconhecidos de sua história; uma vez que você os enxerga, é mais fácil que ideias de como preenchê-los surjam.

 

Mas como eu posso fazer essa organização?

 

Deixo aqui algumas sugestões:

 

  • Um caderno ou alguns papéis soltos podem resolver. Faça de uma página uma cena, numere-a e transponha para lá o que você tem (folhas soltas são interessantes, pois elas permitem que você remaneje as cenas e acrescente novas futuramente).

 

  • Pegue uma ou várias folhas grandes e faça outro mapa mental. No centro, escreva o tema principal e, ao seu redor, coloque aquelas cenas marcantes já pensadas que fazem jus à escolha do tema. Circule as ideias e conecte-as com traços para sinalizar as que são correspondentes.

Em seguida, comece a pensar o que precisa acontecer previamente para que essas cenas aconteçam, interligando sempre os acontecimentos relacionados.

Pode ser também interessante traçar o caminho das personagens principais; para tanto, defina onde cada uma começa e, usando cores diferentes, desenhe o avanço feito por elas ao longo das cenas espalhadas na folha. Isso o fará se questionar o que algumas estarão fazendo enquanto estão nos bastidores da história. Assim, acrescente eventos pessoais importantes para as personagens, mesmo que não sejam narrados “no palco”.

 

  • Uma alternativa para também fazer o mapa mental, é separar uma superfície larga e usar post-its. A vantagem é que eles podem ser facilmente remanejados e você pode organizá-los até em uma parede. Conectá-los pode não ser tão simples, mas você pode usar do princípio da proximidade para distinguir o que é relacionado com o que.

Se por algum motivo você tem um quadro de cortiça, pode usar tachichas e linha de costura para fazer as conexões (e tirar do proveito de usar cores diferentes também).

 

Certo, certo. Isso tudo aí em cima pode ter soado muito antiquado.

 

Um quadro de cortiça? Tachinhas e linha de costura? Em que ano estamos?

 

Existem, é claro, alguns apps que podem lhe ajudar com isso.

 

Não irei entrar em muitos detalhes aqui. Ainda vamos dedicar artigos inteiros apenas para tratar das vantagens e desvantagens de vários editores de texto. Também traremos alguns apps interessentes que lhe ajudam a se organizar (tá tudo no outline do nosso blog).

 

Ainda assim, irei ao menos citar dois.

 

Evernote: sim, ele possui inúmeras aplicações (não é à toa que é tão popular); uma delas é separar um caderno para cada capítulo e uma nota para cada cena, então detalhe-as/remaneje-as como quiser. Você também pode usar e abusar das opções de tags para mapear os personagens, cenários, temas… Se você já usa o evernote para outros fins, pode preferir criar apenas um caderno para todo o conteúdo do seu livro e usar as próprias tags para fazer a separação dos capítulos.

 

Scrivener: editor de texto com uma organização deslumbrante; possui múltiplas funcionalidade para se fazer um outline, além de permitir um rearranjo fácil de qualquer capítulo/cena. Se você for do tipo que gosta de ter as fichas de personagens e cenários prontinhas, ele também já vem com modelos para você seguir caso opte pelo modo “ficção” do programa. Por ora, apenas enfatizo que faço desse o meu editor de texto: uso e recomendo.

 

O Ponto Ótimo


É comum que um fenômeno dependa de variáveis que se inter-relacionam. Por exemplo, o quão bem preparada está a sua história e o tempo que você leva entre ter o impulso inicial de escrevê-la e colocar, de fato, os primeiros parágrafos no papel.

 

O problema é que querer otimizar uma variável pode degradar a outra. Quanto mais tempo você investir em sua preparação inicial mais vai demorar para começar a escrever. Por outro lado, se você se lançar direto à escrita, pode tropeçar em ideias mal-formuladas.

 

Nessas situações existe o chamado “ponto ótimo”: o equilíbrio ideal entre as variáveis analisadas.

 

No entanto, desconheço uma regra que defina qual é o ponto ótimo do planejamento de um livro. O ideal é que você mesmo sinta-o. Mas tenha em mente três coisas:

 

  • A procrastinação pode se instalar sob um planejamento minucioso. Na verdade, se você planejar demais pode até ficar paralisado com o tanto que ainda precisa ser feito…

 

  • Os detalhes virão conforme as cenas vão sendo escritas. Não é necessário saber de antemão TODAS as cenas que seu romance terá; eventualmente, você vai sentir que um personagem secundário acabou ganhando mais importância do que tinha planejado, e vai querer explorá-lo um pouco mais…

 

  • Como já foi dito, existem pessoas que simplesmente sentam e escrevem o que lhes vêm a mente. Começam uma história sem ter a mínima ideia do final; movidas apenas pelo seu desejo profundo de comunicar suas impressões a cerca do tema escolhido…

 

Com pouco, muito ou nenhum planejamento, descubra o seu ponto ótimo. Lembre-se que o outline é apenas para facilitar o desenvolvimento do seu livro, então se ele estiver lhe atrapalhando é porque você está longe do que seria o ótimo.

 

Mesmo que eu prefira fazer um outline, não o faço tão detalhado. Em folhas soltas faço um rascunho dos personagens, coloco alguns pontos da ambientação relevantes para a história, esquadrinho as cenas principais e coloco-as em ordem usando o Scrivener mesmo. Para mim, isso é o suficiente.

 

É nessa hora, quando você dá um passo para trás e enxerga o panorama da história, que aquelas técnicas e dicas de roteiro que você conhece podem ser melhor aplicadas. Mas isso já assunto pra outro artigo…

 

E aí, ficcionado, sente-se preparado para começar a escrever?

Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal