Como Começar a Escrever Sem Inspiração?

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Se você está aqui é bem provável que goste de escrever.

 

Porém já parou para pensar quando foi exatamente que você se deu conta disso?

 

Lembra qual foi o estímulo inicial?

 

Houve alguém que o incentivou? Antes? Depois?

 

Talvez um dia uma luz tenha acendido em você sob a forma de uma ou duas sentenças. Então você parou o que quer que estivesse fazendo e colocou-as no primeiro papel que viu pela frente (ou um equivalente digital, caso já fosse mais moderninho).

 

Ali, mesmo que por um momento, você achou que aquelas eram as melhores frases que alguém poderia ter escrito.

 

“Que combinação perfeita de palavras! Uou! Escrever é demais!”

 

Em seguida, talvez você tenha mostrado elas para alguém. Ou talvez, caso a excitação inicial tenha passado rápido demais, preferiu guardá-las somente para você.

 

Talvez tenha recebido um elogio, um incentivo… talvez não.

 

De qualquer forma, pode ser que hoje você seja um daqueles escritores casuais que escrevem sempre que uma boa ideia lhes atinge a cabeça.

 

Inspiração.

As palavras fluem por você como se todas as sentenças já estivessem no papel muito antes de você pegá-lo, esperando apenas para serem reveladas.

Uma comunhão divina.

Fica difícil saber quando exatamente o seu eu termina e quando as palavras começam.

Sua alma transborda. A folha é inundada.

A inspiração cessa.

 

E dessa maneira pode ser que você já tenha colecionado algumas crônicas, poemas e contos. Provavelmente também tenha guardado alguns trechos inacabados: prólogos auspiciosos de livros jamais escritos, cenas marcantes de personagens que nunca foram desenvolvidos, descrições deslumbrantes de cenários sem ação…

 

Gostaria de ir além disso? Escrever mais? Completar as lacunas que sua inspiração deixou?

 

O primeiro passo aqui é consistência.

 

Mantenha-se Consistente


Escrever com consistência é escrever com uma frequência acertada, sem aguardar pela graça da inspiração.

 

Consistência é a primeira barreira que separa profissionais de amadores. E, com profissional, estou me referindo a alguém que leva a escrita a sério e esteja comprometido com seu amadurecimento como escritor.

 

Consistência é ganhar mais prática e, portanto, refinar suas técnicas e melhorar a qualidade dos seus textos. Pode ser que já tenha ouvido falar das dez mil horas necessárias para se tornar expert em algo. Pois bem, comece a contá-las.

 

… mas subir esse contador pode ser difícil. Como manter-se consistente?

 

De fato, as formas de treinar a consistência são capciosas.

 

Você pode separar um tempo em meio aos seus afazeres, umas três vezes por semana talvez, para dedicar-se a escrita. Então você começa bem e pode até ganhar confiança. Mas chegará aquele dia em que você estará mais cansado ou com mais tarefas a fazer e vai pensar “tudo bem, hoje não vai dar, mas amanhã eu faço”.

 

E assim a consistência começa a lhe escapar entre os dedos.

 

Essa história não é lá tão original. Substitua a escrita pelo exercício físico, pelos estudos, pela alimentação correta ou por qualquer outra atividade que você gostaria de fazer com frequência. Alguma semelhança?

 

Um dos pontos de atenção nessa história é justamente a frequência do comprometimento. Ela é a base da consistência que estamos tentando desenvolver.

 

Há, então, alguma frequência ideal?

 

Por mais contra-intuitivo que possa parecer, é muito mais fácil comprometer-se a escrever todos os dias, do que apenas as três vezes semanais citadas.

 

Por quê?

 

O Esforço Empregado e a Força de Vontade


Um dos primeiros temas abordados por Daniel Kanehman em seu livro “Rápido e Devagar: Duas formas de pensar” é a atenção e o esforço.

 

Pense em nossa atenção como se fosse a memória RAM de um computador. Assim como há um limite no que conseguimos manter sob nossa atenção, há um limite no que uma memória RAM é capaz de processar.

 

Além disso, cada atividade exige uma quantidade de esforço cognitivo para ser realizada. Quanto maior esse esforço, maior a demanda de atenção, ou seja, mais espaço ocupa na memória RAM.

Esforço e Atenção Máxima

 

Até somos capazes de realizar duas tarefas simultâneas que exigem um esforço cognitivo mínimo, tal qual andar e conversar. Por outro lado, quando o esforço cognitivo sobre uma atividade torna-se grande demais, interrompemos outras tarefas menores e tendemos a nos desligar daquilo que está a nossa volta.

Diferentes atividades dividem nossa atenção.

 

Certo, mas o que isso tem a ver com a consistência?

 

É aqui que entra a parte capciosa de desenvolvê-la.

 

O ponto delicado nessa trama é que se a atividade exige por si só um esforço grande, tendemos a querer voltar para um estado onde há menor gasto de energia… e resistir a esse impulso exige esforço também.

 

Logo, nossa atenção já limitada precisa se ocupar com pelo menos dois afazeres: a atividade em si e o autocontrole para que não a deixemos de lado.

 

Além disso, somente exercer autocontrole já é mentalmente desgastante, pois demanda força de vontade. E como você já deve suspeitar, temos uma quantidade limitada de força de vontade para usar diariamente: pense nela como uma bateria que descarrega sempre que autocontrole seja exigido.

Autocontrole requer força de vontade

 

Isso significa que naqueles dias em que você chega em casa mentalmente exausto, sem vontade de fazer nada que demande muito esforço cognitivo, sua bateria de força de vontade já foi descarregada (Kanehman chama isso de Esgotamento do Ego).

 

Bacana, mas e aí?

 

Se você não está acostumado a escrever todo dia, principalmente longe das graças da inspiração, o autocontrole necessário para manter-se colocando palavras no papel provavelmente será bem alto.

 

Felizmente, Kanehman nos assegura que a prática e repetição de uma atividade reduz esse autocontrole necessário para mantê-la fluindo. Colocando isso de uma maneira direta: começar a escrever todos os dias pode ser difícil, mas vai ficando cada vez mais fácil…

 

Irado, valeu por dizer aquilo eu já sabia. Alguma dica melhor?

 

Pode ficar tranquilo, Ficcionado. Não chegamos até aqui pra chover no molhado.

 

Hábitos e o Autocontrole Mínimo


Se estamos falando em escrever todo dia, então estamos falando em criar um hábito.

 

Não sei como você encara essa palavra, mas por muito tempo eu torcia o nariz ao ouvir ela. Sem dúvida, todos temos hábitos enraizados em nosso interior. E isso era algo que eu considerava prejudicial à fonte da inspiração, um assassinato à liberdade necessária para haver criação.

 

Mas aí aprendi que não precisava desse drama todo. As coisas não são bem assim.

 

Hábitos são poderosos (Charles Duhigg e seu livro “O Poder do Hábito” que o digam). E isso significa que eles podem ser tão benéficos quanto potencialmente prejudiciais.

 

Sim, ao contrário do que já pensei um dia, hábitos podem inclusive oferecer mais liberdade criativa, justamente por demandarem uma quantidade muito baixa de autocontrole para se manterem e, assim, liberarem espaço cognitivo.

 

Pois bem, para começar você precisa de força de vontade (certo, isso soou bem mais como uma frase motivacional barata do que com o sentido que eu quis empregar; tente relê-la pensando em Kanehman…).

 

Duhigg enxerga a própria força de vontade como um hábito a ser adquirido. Na verdade, ele a considera “o hábito angular mais importante de todos para o sucesso individual”. Hábitos angulares são aqueles que quando desenvolvidos possuem o poder de modificar positivamente vários outros aspectos da vida. E a força de vontade com certeza é um desses.

 

Por isso, além de treinar a escrita em si, não seria nada mal dar uma atenção especial para ela. Com treinamento, a carga máxima da sua bateria de força de vontade aumenta e você se torna mais resistente ao Esgotamento do Ego.

Começar a escrever sem inspiração: como a prática afeta o esforço, autocontrole e força de vontade

 

Certo, mas será que ainda assim não há uma maneira de poupar essa bateria?

 

De fato, o uso dela pode ser otimizado…

 

A força de vontade requerida para fazermos algo proativamente é muito menor do que ao sermos mandados.

 

Se você está aqui, suponho que seja por vontade própria e que goste de escrever… então são pontos que facilitam o processo.

 

Além disso, o seu desejo por escrever muito provavelmente está ligado a algum objetivo pessoal. Se este objetivo for algo grande, como um escrever um livro, quebre-o em objetivos menores, como escrever um capítulo, e, então, em objetivos ainda menores, como escrever uma cena, uma passagem…

 

Nos sentimos mais propensos a fazer a atividade quando sabemos que teremos um retorno imediato. Então deixe-o evidente! E comemore essas pequenas conquistas!

 

Lembre-se também: aquilo que não medimos, não podemos melhorar (ou pelo menos dificulta o progresso consistente). Então faça desses objetivos menores, objetivos bem-definidos, como escrever 500 palavras todo dia (foi assim que eu comecei, a propósito).

 

Resumo das Ideias


Escrevo apenas quando a inspiração me vem. Felizmente, ela vem toda manhã às nove horas em ponto” — Somerset Maugham

 

Estou supondo que você, assim como eu, sente vontade de terminar aqueles textos que a inspiração deixou pela metade. Aguardar que ela venha ou forçar-se esporadicamente a encontrar algo que preencha aquelas lacunas não é muito eficiente.

 

O melhor é treinar a consistência.

 

Ela não só tornará mais fácil escrever sem inspiração, como também fará com que os dias iluminados sejam mais recorrentes (e assim eu tenho experenciado desde que comecei a desenvolvê-la).

 

Escrever com consistência é escrever diariamente.

 

É muito mais fácil desenvolver um hábito diário do que um esporádico. O treino é mais frequente. A repetição é acentuada. As exceções passam realmente a serem uma exceção ao invés de apenas “mais um dia sem treino”.

 

E assim começamos a nos desenvolver como escritores de uma maneira mais séria.

 

Passamos a enxergar a prática da escrita com uma visão profissional.

 

Comecei me comprometendo a escrever apenas 500 palavras diárias. Soa simples. E realmente é.

 

Otimize o uso da força de vontade e a una com a prática para criação do hábito.

 

Então chegará o momento em que, mesmo no mais ordinário dos dias, essas 500 palavras fluirão por você quase sem resistência nenhuma. Então você perceberá que adquiriu o hábito. E dominou a consistência.

 

Naturalmente, as 500 palavras passarão a ser 700, 1000, 1500…

 

Mas como separar um tempo diário para escrever? Ou, como manter-se focado durante esse tempo? Principalmente no começo, já que exige tanta força de vontade?

 

Bem, tratarei disso no próximo artigo.

 

Até lá, tente você, ficcionado. Qual sua meta diária?

 


Seguir Kaio Gabriel:

Natural de Floripa, curioso pelos mistérios da natureza e da vida por ela guardada, amante de histórias com graduação em engenharia mecânica, rabiscador de versos calculista. Desenha com mais vontade do que habilidade, faz trilhas esporadicamente, curte um bom rock clássico e toca violão para as paredes. Adepto ao minimalismo ainda com tralhas a serem jogadas fora na próxima mudança. Jogador de RPG de mesa quando possível, mas se contenta sendo o narrador. Aos fins de semana, também gosta de levantar debates filosóficos sofistas. Blog Pessoal