Coisas Que Você Deve Fazer Quando Escreve uma História

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Eu sei por que você clicou neste artigo.

 

Você queria uma lista rápida, dicas relâmpago, diretrizes gerais do que você poderia estar fazendo, ou do que você não deveria estar fazendo.

 

O que não se deve fazer é um tema mais fácil, rápido; é fácil apontar o dedo e dizer o que é ruim. O que se deve fazer é mais difícil: envolve saber exatamente o que faz de uma história boa, e ter tal domínio no assunto que você pode ensinar isso a alguém num artigo na internet.

 

Ou você, como eu, ficou irritado com o título desse artigo. Talvez por uma questão de ego, do tipo “eu já sei o que se deve fazer”, ou “tenho certeza que ele vai falar alguma besteira”. Ou ainda, talvez mais nobre, um “não existe algo que se deve fazer para um livro ser bom.”

 

As Regras


Se você acabou parando neste site há uma chance razoável de você, como eu, já ter lido um sem fim de artigos na internet falando sobre regras da escrita, os “5 truques que você precisa fazer para deixar seu livro espetacular”, “10 coisas que você não deve fazer enquanto escreve uma história”.

 

A maioria desses artigos fala coisas úteis, verdade. Existe um motivo para as regras serem regras: em essência, elas funcionam. Muitos iniciantes podem ter uma melhora gigante em suas histórias por ouvirem um “faça personagens que os leitores gostem”, um “mostre ao invés de contar”.

 

O problema dessas dicas é que elas são um paliativo. Sempre que leio esses artigos, eu vejo uma dica e me pergunto: por quê?

Uma questão de propósito


“Faça personagens que pareçam pessoas reais.” Grande dica; a maioria dos livros bons que li na vida seguem isso rigorosamente. Mas… Por que fazer personagens que se pareçam pessoas reais é bom? Por que isso faz uma história funcionar?

 

Indo mais fundo, bem mais fundo, você pode se perguntar “por que uma história boa é boa?”

 

Ok, muito fundo. Vamos voltar um pouco. Por que é bom ter personagens reais?

 

Eu sei que isso tem muitas respostas, mas vamos ver uma delas: porque se os personagens são reais, o leitor esquece que está lendo ficção. Ele mergulha na história, e logo pensa nos personagens como amigos, como gente de verdade, que ele sente vontade de conhecer, que ele se importa. É uma questão de imersão.

 

E aí o meu problema com esse tipo de dica. Pensando nisso percebe-se que os personagens reais não são o propósito, mas um meio de fazer a história ser boa. Uma solução, uma fórmula, que sem dúvida funciona, mas ainda assim é só uma entre muitas das possíveis soluções para o problema. Bons personagens fazem o leitor se importar com a história, o que é ótimo, mas veja bem: o seu objetivo não é fazer bons personagens, é fazer com que o leitor se importe. É – ou pelo menos eu espero que seja – escrever uma boa história. E fazer bons personagens é um dos melhores jeitos de chegar nesse objetivo, mas não é o único.

 

“Tenha um bom plot twist na sua história.” Realmente ótimo, um plot twist bem feito é incrível. Mas qual o propósito de um? Surpreender o leitor, talvez? Gerar incerteza na história, imprevisibilidade? Qual o motivo de seguir essa regra?

Coisas que você deve fazer


Eu não acredito que existam regras para contar boas histórias. Não acho que uma história deve ter um elemento para ser boa; para cada elemento que consigo pensar, vejo uma história que não tem aquele elemento, mas ainda é boa. Isso não significa que as regras não tenham um propósito, um motivo de existir. Não significa que o escritor não deve conhecê-las, e até experimentá-las. Mas sempre tentando entender qual o propósito delas, o que a regra está tentando alcançar.

 

É essa a discussão que eu pretendo seguir com esta coluna, a coisas que você deve fazer. As colunas seguintes serão uma regra que eu vou explicar e mostrar dois exemplos: uma história que usa aquela regra e funciona, e uma que não usa aquela regra e ainda funciona. Sinceramente acredito que compreender essas coisas é vantajoso não só a qualquer escritor, mas a qualquer um querendo entender e aproveitar melhor o ato de ouvir boas histórias.

 

E aí, você acha que eu entrei no paradoxo de dizer que é regra que você não deve seguir regras? Deixe os seus pensamentos aí nos comentários, aproveita pra sugerir alguma regra ou obra pra eu pensar a respeito, e, com sorte, não escrever nenhuma besteira.

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele