Coisas Que Você Deve Fazer: Todas as Passagens Devem Ter um Propósito

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Todas as cenas da sua história devem ser extremamente relevantes, seja para o plot, construindo personagens ou detalhando o cenário.

 

O Que Você Deve Fazer


Todas as cenas, parágrafos e até frases do seu livro devem servir para alguma coisa. Uma passagem pode ter o propósito de avançar o plot, de caracterizar melhor um personagem, ou dar mais detalhes ao mundo. Uma boa passagem, inclusive, faz essas três coisas ao mesmo tempo.

 

Esta regra é bastante lógica. Se uma passagem no livro não está fazendo nenhuma dessas coisas, por que ela está lá? Não seria mais fácil cortá-la? Escrever é uma questão de prioridades. Um bom livro não faz o leitor perder tempo lendo coisas que não são ou serão úteis.

 

Um Pouco de Perspectiva


Nesta semana, no coisas que você deve fazer, mais uma regra forte. (Se você não sabe do que esta coluna se trata, dá uma olhada aqui)

 

Esta é uma bem difícil de quebrar. Uma boa história é concisa, certo? Cada parágrafo é útil. Cada capítulo tem um propósito. Isso é algo a se buscar enquanto se escreve, não é?

 

Claro que é! É algo a se pensar muito! Mas, ao mesmo tempo, não é exatamente uma regra. Dependendo da situação, é desculpável e até interessante quebrar isso. Enfim, aos exemplos!

 

Usa e Funciona: Guerra do Velho – John Scalzi


No meu aniversário de 75 anos, eu fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa e me alistei no exército.

Eu nem precisei procurar exatamente essa citação, de tão marcante (se eu escrevi errado culpe a minha memória, não a citação).

 

Guerra do Velho é um livro de Ficção Científica que deve ser elogiado por diversas coisas, e uma delas é como nada está lá por acaso. Relendo-o parece que cada capítulo, cada pequena frase, até as divagações grandes, têm um propósito desenvolvendo os personagens, o cenário, ou o plot.

 

Fica difícil explicar sem muitos spoilers. Se você não leu o livro, leia, analisando-o. Se você já leu, ou não liga pra spoilers, dá uma olhada:

 

Uma coisa que é mencionada vez após vez no decorrer do livro é a esposa do protagonista. Ele fala dela na primeira página, numa divagação longa logo depois daquela frase de abertura espetacular, e continua mencionando-a o tempo todo.
Mas a esposa dele está morta no começo da história, qual o propósito?
Bom, tem dois. Um deles, o mais claro, é construir o personagem. Cada vez que ele fala da esposa morta podemos entender melhor o tipo de pessoa que ele é, e quanto seu casamento foi importante pra ele.
Isso por si só já justificaria as passagens, mas no final, quando ele encontra uma clone da sua esposa, todo aquele peso é compreendido pelo leitor. Você entende tudo que a esposa significava para ele, e fica mais fácil simpatizar, compreender e se emocionar com a situação bizarra dele, vendo uma mulher idêntica (apesar de ser, bom, verde) à esposa dele.

 

Isso também se aplica depois, com a primeira batalha contra os Consu. Vários detalhes dali, como a parte religiosa da espécie e o quão eles são avançados, são importantíssimos no final da história, e cumprem vários propósitos.

 

 

Não usa e Funciona: Desventuras em Série – Lemony Snicket


Semana passada, na minha viagem pelo oceano índigo, meu amigo mergulhador, Godofredo, me avisou sobre os perigos de mergulhar no ponto conhecido como “Coral das Descores”, por causa do temível tubarão tentacular.

 

O tubarão tentacular é notável pelo seu comportamento agressivo, tentáculos fortes, habilidades culinárias interessantes e seu peculiar cheiro de açafrão com tomates. Godofredo conta, inclusive, que um colega dele estava comendo um prato açafrão com tomate num bote, e, por conta disso, não sentiu o cheiro da fera se aproximando. Foi a última refeição dele, e, estranhamente, do tubarão também, já que a espécie é mortalmente alérgica a tomates.

 

Ok. O que os parágrafos anteriores tiveram a ver com, bom, o resto do artigo inteiro? Bom… Nada. Não vou mais mencionar absolutamente nada do que foi dito nesses parágrafos.
E aí, não soa absurdo fazer isso numa história? Pois é exatamente o que é feito em Desventuras em Série, vez após vez.
Lendo os livros não é incomum achar passagens inteiras de divagações muito bizarras, falando de coisas esquisitas e personagens que não são vistos pelos irmãos Baudelaire (os protagonistas). Às vezes páginas inteiras são dedicadas a esse tipo de passagem.

 

 

E, mesmo assim, os livros são muito divertidos, e uma ótima leitura. Como?

 

O Que Exatamente É “Propósito”


Explicando a regra, eu troquei a palavra “propósito”, do título, por uma explicação mais direta, falando de personagens, cenário e plot. Fiz isso porque é assim que ouvi muitas vezes, internet afora, nos artigos falando das regras de escrever uma boa história.

 

Acontece que propósito é muito mais amplo que isso. No caso de Desventuras em Série, o livro tem um elemento fortíssimo de humor. As passagens absurdas reforçam isso, surgindo inclusive em momentos críticos da história. Há momentos em que um personagem está à beira da morte, mas a prosa é interrompida com o narrador falando algo como “isso me lembra da vez que eu…” e mais duas páginas de histórias sem sentido. E isso é hilário, aumenta a tensão da história, funciona de uma forma única.

 

Olhando por esse lado, é óbvio que essas passagens têm um motivo. Elas criam o tom da história, reforçam o humor, aumentam ou diminuem a tensão, servem de pausa… São diversas razões para estarem ali.

 

Prioridades


De novo, é uma questão de prioridades. Claro que tudo que você escreve na sua história tem um propósito: tudo escrito em qualquer lugar tem um propósito. Forçando um pouco a barra, dá até pra achar propósito no Tom Bombadil.

 

“Essa passagem longa do personagem indo no banheiro é pra mostrar que ele lavou as mãos”, “esse parágrafo onde ele fala sobre peixes é pra mostrar que ele entende sobre o mar”.

 

Agora que entra a questão das prioridades. Será que aquele propósito é realmente necessário? Até que ponto você está construindo um personagem ou só descrevendo coisas demais sobre ele? Você pode dedicar cem páginas onde nada acontece para caracterizar a cidade principal do seu mundo, mas isso é necessário para a história?

 

Então, enquanto escreve a sua história, Ficcionado, procure os propósitos nas cenas. Avalie o que elas estão fazendo. E, depois, avalie se aquilo é realmente importante, se é uma das suas prioridades no livro.

 

Talvez você descubra que não, mas talvez aquela coisa que a princípio parecia desnecessária acabe se tornando o tubarão tentacular da sua história.

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele