As Cinco Etapas da Revisão (parte 2)

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No artigo anterior falei das três primeiras etapas da revisão, que eram basicamente escrever tudo de uma vez, reler e anotar os problemas maiores, e depois revisar tudo consertando os problemas. Dependendo do seu objetivo com a escrita, isso pode ser o suficiente: talvez você queira só mostrar suas histórias pros seus amigos, por exemplo. Se esse for o seu caso, aquelas três etapas podem ser suficientes.

 

Agora, se você quer fazer algo a mais com a sua escrita, publicá-la, ter um produto mais profissional, recomendo dar uma olhada nas próximas duas etapas.

 

Depois da terceira etapa, é hora de começar uma beta-leitura, e procurar opiniões de outras pessoas. Isso pode demorar um bom tempo, e é hora de ser paciente. Se você tiver um grupo de escrita as coisas vão mais rápido, mas se você mandar para alguns amigos lerem, não é legal ficar cobrando deles. Por melhor que seja o seu livro, essas pessoas estão te fazendo um favor. Lembre-se disso.

 

Finalmente, quando você tiver colhido uma quantidade suficiente de opiniões e as pessoas tiverem respondido as dúvidas que você levantou na etapa 3, é hora de começar a etapa 4:

 

Etapa 4: Faça o Livro ser Melhor


Aqui é a hora de aplicar o conhecimento obtido na beta-leitura, mudar o que for necessário, e fazer uma versão quase final da história.

 

Primeiro, use o feedback que recebeu. Ouça bem as pessoas, anote o que elas dizem (e o que não dizem, mas que você entendeu pelo que elas disseram), tome em consideração todas as sugestões que recebeu. Você não precisa aplicá-las – afinal, a história ainda é sua – mas leve todas bem a sério, quem sabe até aplicando algumas de maneira provisória só pra ver como fica. Como eu aprendi no ano passado, aceitar críticas não é só reagir bem a elas. Se alguma dúvida persistir, e mesmo com o feedback você não conseguir se decidir entre duas versões, tente montar uma versão da história com cada uma, para ver como fica. Não recomendo fazer disso um hábito, e montar mil versões da história, mas uma ou duas às vezes são necessárias. Outras pessoas ainda irão ler uma versão ainda não finalizada da sua história, e elas podem te dar mais opiniões.

 

Feito isso, a ideia é ter uma versão final do seu plot: mude os acontecimentos que tem que ser mudados, corte as cenas que os beta-leitores te convenceram que devem ser cortadas, e repense todos os pontos que você acha que pode melhorar até ter uma história que você se sente confortável em publicar. Lembre-se das perguntas para se fazer durante a revisão.

 

Depois de feitos esses ajustes finais, é hora de (finalmente!) polir a sua história. Aqui, a ideia é não mudar mais nada do plot: foque só na escrita. Arrume os problemas de gramática, concordância, digitação. Se você escreve no Scrivener, uma dica é passar pro Word, que tem uma verificação de erros melhor. Outra dica é manter uma formatação que ajuda a achar problemas: use uma fonte monoespaçada (tipo Courier) e alinhe à esquerda. Assim fica mais fácil de identificar palavras maiores do que deveriam ou espaços adicionais. Essa primeira procura por erros pode ser mais grossa: você ainda passará o pente fino.

 

É, também, o momento de polir a sua prosa. Finalmente, é a hora de se preocupar com aquela frase que está “esquisita”.  Leia cada frase com calma, pense no significado de cada palavra, olhe bem os parágrafos. Se você perceber que passou por alguma passagem muito rápido, faça uma pausa e olhe de novo. Leia em voz alta, principalmente os diálogos. Pense bem nas regras básicas da boa escrita. Corte as palavras desnecessárias, lembrando da regra de bolso dos 10%. É a hora de fazer a sua prosa melhorar, de refinar ao máximo sua escrita.

 

Esta última fase, de melhorar a prosa, é complicada, e quem sabe precise de mais uma passagem de revisão para ser feita bem. Se julgar necessário, você pode refazê-la toda uma ou duas vezes, pra ter certeza que conseguiu arrumar tudo. Uma dica pra isso é mudar um pouco a fonte e formatação, pra te forçar a olhar o texto de uma maneira um pouco diferente. Mas tome cuidado: é impossível deixar o livro perfeito. Se você fizer 100 passagens desse tipo, arrumando as frasezinhas, mudando coisas de estilo, você sempre achará coisas a melhorar. Então, é bom se limitar a umas duas ou três, para conseguir colocar um ponto final naquele livro e seguir adiante.

 

Resumindo:

  • Corrija os problemas levantados pelos beta-leitores, fazendo uma versão onde o plot é final;
  • Finalmente arrume os problemas de escrita: gramática, concordância, digitação;
  • Melhore sua prosa: corte 10%, reorganize as frases, leia tudo com muita calma;
  • Faça o item anterior mais de uma vez se julgar necessário, mas não caia na armadilha de ficar preso nele pra sempre;
  • Ao final disso, você terá a versão 3, a versão quase final.

 

Agora falta só pintar, dar uma encerada, lixar um pouquinho daquele canto ali que, se você olhar com uma lupa, tá meio torto. Agora é hora de abrir o que eu chamo de gamma: o que vem depois do beta. A diferença deste pro beta é que no beta você passará pra pessoas que entendem que aquela é a versão beta, que terá errinhos, será meio problemática, e não foi lida por ninguém. No gamma, você deve passar pras pessoas dizendo que é a versão quase final: o feedback aqui é mais pra entender se as mudanças que você fez no começo desta etapa funcionaram, se a sua escrita está boa, e se tem algum errinho de digitação ou gramática. Deve passar mais pra pessoas que leriam o seu livro pronto do que pra pessoas pacientes que leriam a versão não finalizada.

 

Depois desta etapa (que é provavelmente a mais longa) está quase finalizado! Agora imprima tudo e deixe a secando. Não precisa esperar o resultado do gamma: espere umas duas semanas e pode começar a próxima etapa. Está na reta final.

 

Etapa 5: Faça a História Brilhar


Agora é a hora de, finalmente, terminar o livro.

 

A ideia aqui é fazer uma etapa 4 só que menor, já que, bom, você acabou de fazer ela toda. Imprima a versão 4 do livro (recomendo imprimir do jeito que editores gostam de receber uma história: fonte 12, espaçamento duplo. Assim tem bastante espaço pra rabiscar a página e fazer notas). Agora faça a etapa 3 nessa versão impressa, procurando principalmente erros de digitação e gramática, mas ainda aberto a melhorar alguma eventual frase.

 

Faça isso enquanto espera o gamma, afinal o processo é demorado, e deve ser feito com bastante calma. A esta altura do campeonato você deve estar impaciente, querendo soltar sua história ao mundo. Ela saiu da faculdade, fez estágio, e quem sabe até esteja namorando. Já tem planos de sair de casa, e uma parte sua fica aliviada em deixá-la ir embora.

 

Ouça os comentários do gamma, mas fique ciente que, caso alguém aponte algum problema muito grave, algo que precisaria de uma reescrita completa do livro, considere relevá-lo, por pior que seja. Não é mais hora de reescrever tudo (a não ser que você tenha essa disposição). O conhecimento será útil para o futuro, mas agora é a hora de pequenos ajustes, coisa mais rápida.

Faça os ajustes finais na versão impressa, passe pro computador, e voilá! Você terminou!


Disposições gerais

 

Como eu falei no começo, este é o meu processo. O meu processo atual: ainda posso muito bem mudar de ideia sobre algo dito aqui. Os tempos podem soar excessivos, as semanas de espera entre os atrasos, principalmente se você tem um prazo mais apertado ou está revisando algo mais curto. Os números na verdade não são tão importantes; o importante é ter prazos. Defina-os, coloque no calendário, e tente ao máximo seguí-los.

 

Além disso, essas 5 etapas tem muito a ver com ser um autor independente. Se você for publicado, provavelmente terá um revisor, um editor, e mais gente pra te ajudar nesse processo. Esses artigos foram pensados em quem está começando, e precisa fazer tudo sozinho. Não se engane: dá pra notar quando um texto foi muito bem polido. Quem ler, sejam leitores ou editores, vão ver o esforço e a dedicação que você colocou ali, e vão entender o quanto você leva isso a sério.

 

“Ok, tudo muito legal”, diz o leitor. “Eu fiz tudo isso, revisei um monte, e agora tenho uma versão do livro que eu não mudaria nem uma vírgula. E agora?”

 

Agora você tem que pensar no que fazer com ele! Você pode sempre tentar enviar a editoras, pra concursos e afins. Mas um caminho interessante é o da auto-publicação! Se esse caminho te interessar, fique de olho nos nossos próximos artigos, onde falaremos sobre os outros passos necessários para auto-publicar seu livro em plataformas digitais.

 

E aí, Ficcionado, curtiu? Como é o seu processo de revisão e escrita? Deixe um comentário!

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele