As Cinco Etapas da Revisão (parte 1)

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O meu processo de escrita começou muito desorganizado.

 

Acho que é assim com todo mundo: a gente começa com uma ânsia muito grande de colocar as ideias no papel, e fica pulando entre escritas, revisões, meias revisões… No final fica difícil lembrar qual é a versão do livro, o que foi revisado direito, e se gasta um tempo bom com passos fora de hora. Quem nunca revisou uma cena à exaustão para, depois, tirar ela do livro? Dá pra poupar esse tipo de trabalho.

 

Nos últimos meses, entre escritas e revisões, decidi me organizar um pouco melhor. Organizei a minha metodologia, aplicando várias dicas de escrita que acumulei com os anos, e defini cinco macro etapas da revisão. Ao final de cada etapa, a ideia é ter uma versão do livro, tipo uma build de software ou coisa assim. É um jeito que achei de me organizar, ter certeza que estou fazendo as coisas na ordem certa, e de dividir a revisão entre as várias coisas diferentes que ela engloba.

 

De novo, este artigo vai falar do meu processo: o que funciona pra mim. Na realidade, no que está funcionando hoje; quem sabe daqui a um tempo eu ajuste as coisas. Você pode muito bem achar esquisito, excessivo, precário, enfim. A ideia principal do meu processo é não travar em nenhum ponto, não perder tempo com coisas fora de ordem… De não cair na tentação de ficar aperfeiçoando alguma passagem ao infinito ao invés de trabalhar naquela cena que precisa ser reescrita. Eu não pensava nesse tipo de organização quando comecei, e espero que, compartilhando o meu processo, eu consiga ajudar você a criar o seu.

 

Este artigo foi dividido em dois: hoje vou falar das primeiras três etapas, e depois falarei das próximas duas. Sem mais delongas, vamos às etapas!

 

Etapa 1: Escreva a História


Um tanto óbvio, não? Ainda assim, verdadeiro. Antes de tudo, escreva o livro. Essa é a hora de escrever tudo do início ao fim. Não é a hora de revisar, de ativar o editor interno, de criticar a própria qualidade do trabalho, do plot ou da prosa… É só escrever. Se você planejou tudo de antemão, ótimo! Se não, também ótimo! A ideia aqui é escrever o primeiro rascunho, que ainda está meio longe do produto final mas ainda assim é muito mais próximo de finalizado do que um projeto que você nunca começou, ou terminou.

 

Resumindo:

  • Escreva a história do começo ao fim;
  • Sem revisão, sem autocrítica, sem preocupações. Só escreva;
  • Ao final, você terá a versão 0, o primeiro rascunho.

 

Feito isso, deixe maturar no fundo da gaveta por mais ou menos um mês. Sele bem, cuide do ambiente para não desenvolver fungos ou outras pragas, cuide da umidade, e coloque no seu calendário para dali a exatamente um mês começar a primeira revisão, a etapa 2. E o objetivo da etapa 2 é tornar a sua história legível.

 

Etapa 2: Faça a História ser Legível


Então você terminou de escrever o livro. Parabéns! Se você queria só tirar ele da cabeça, pode parar por aqui. Se você quer que outras pessoas leiam (e gostem), continue nas próximas duas etapas.

 

Na etapa 2, você não só tirará o seu rascunho da gaveta: tirará o seu crítico interno também. É a hora de ver a história pelo que ela é. É hora de arrumar os problemas mais críticos e levantar outros defeitos, esforçando-se ao máximo para refinar as ideias.

 

Comece lendo a história toda. Não precisa ir arrumando nada enquanto lê: faça notas. Aquele personagem reagiu de forma estranha? Anote. Aquela cena está mal descrita? Anote. Anote tudo que achar relevante, e vá elaborando uma lista de coisas a corrigir, mudar, melhorar. O Word e o Scrivener oferecem várias ferramentas legais para fazer notas do tipo. Caso algo esteja muito ruim e você já sabia disso, pode dar uma mexida, mas não foca nisso. É bom já tapar os buracos principais (quem sabe até reescrever aquele final ruim), mas pode deixar os menores no lugar. Comigo já aconteceu de reescrever várias passagens pra depois, relendo o resto do livro, ver que a minha reescrita foi inútil.

 

Mas por enquanto o foco ainda é na história, no enredo, no plot. Ainda não é hora de corrigir suas descrições imprecisas, a gramática, a concordância, a prosa, os erros de digitação, ou qualquer polimento semelhante. É hora de tentar ler sua história como leitor, e entender quais pontos te incomodam, o que te faria pensar “nossa que horror, vou desistir deste livro”. O objetivo principal está no título: fazer a história ser legível, fazer sentido para alguém além de você. Corrija os furos maiores, e vá entendendo o que é a sua história, o que ela está fazendo, e como ela pode ser melhor.

 

Em resumo:

  • Releia toda a sua história, fazendo notas em tudo que você pode melhorar;
  • Dê coesão, coerência, tire os furos mais óbvios e graves, mas não mexa muito;
  • Dê uma boa olhada no enredo, procurando problemas nos personagens, nos diálogos, no mundo;
  • Elabore uma lista de coisas a mudar;
  • Não foque em arrumar gramática, prosa, digitação, etc;
  • Ao final, você terá a versão 1, o alpha.

 

Feito isso, deixe o livro pegar sol em cima da mesa por uns dois dias, com a lista de coisas a mudar em cima, para que a história pegue bem o tempero das mudanças. Relaxe um pouco, pense nas melhorias que você quer fazer, deixe as ideias maturarem. Dois dias é um bom período: é bom começar logo, enquanto os detalhes ainda estão todos frescos na cabeça. Tome uns drinques, dê umas boas caminhadas, e se prepare psicologicamente: a próxima etapa é deixar a história boa.

 

Etapa 3: Faça a História Ser Boa


Até agora, eu não acho produtivo se questionar sobre a qualidade do trabalho. Claro que a gente começa escrevendo uma história achando que ela vai ser boa, mas é fácil perder essa noção. Ela pode começar a parecer batida, parada, pouco original… E, pensando nisso nas primeiras etapas da elaboração, é fácil se convencer a desistir. Por isso que aqui, e só aqui, é hora de fazer a história ser boa.

 

Esta é a etapa de fazer o melhor que você consegue sozinho.

 

Passe item por item da lista de erros, procure mais erros, vá melhorando os detalhes que surgirem. Dá uma passada geral na gramática, prosa e até formatação: está chegando a hora de mostrar a história pra alguém, mas essas pessoas (com sorte) não serão muito criteriosas. Então não seja muito meticuloso com a escrita em si: dê um bom gosto de como é a sua narrativa, mas não precisa passar muito tempo nos retoques finais.

 

Na etapa anterior foi importante levantar os problemas mais diretos, objetivos, tipo furos temporais (naquelas cenas que te fazem pensar “ué, o que o personagem ficou fazendo nesse meio tempo?”) e concordância geral da história (“mas se o mago tem poderes de congelar, por que ele não fez isso lá no segundo capítulo?”). Aqui é hora de dar uma pensada nos problemas mais difíceis de ver só com a leitura, como se o começo está bom o suficiente, se os conflitos estão variados e satisfatórios, se a exposição está suficiente, se os mistérios estão consistentes, ou como você usou os recursos narrativos.

 

Depois de arrumada a lista dos problemas e resolvidos os novos problemas encontrados, é hora de levantar as dúvidas. Sozinho é difícil chegar em conclusões a respeito da própria escrita. Aquele personagem foi convincente? O mistério está surpreendente, ou previsível? A história está lenta, repetitiva? Não dá pra chegar nessas respostas sozinho. Pense em problemas concretos, que você perguntaria a um leitor.

 

Quando não houver mais nada que você possa fazer sozinho (em termos de história: ainda não é a hora de polir a escrita), é hora de passar para algumas pessoas lerem.

 

Ou Seja:

  • Resolva a lista de problemas da etapa 2;
  • Ache mais problemas, pense bem, tome o seu tempo;
  • Faça tudo o que puder ser feito sozinho;
  • Elabore uma lista de dúvidas e questões a serem apresentadas a leitores;
  • Dê uma passada geral na escrita, maior que na outra etapa, mas ainda não grande coisa;
  • Ao final, você terá a versão 2, o beta.

 

Ao final disto, você estará com a versão beta do livro. Então abra a beta-leitura! Passe pra alguns amigos (cinco, seis; quem você confiar), explique que ainda não está 100%, e relaxe. Deixe a sua história viajar um pouco, pratique o desapego com ela. Sua história foi pra faculdade, e é hora dela fazer novos amigos e viver novas experiências. Ela ainda é a sua bebezinha, mas ao mesmo tempo está crescendo, e precisa viver um pouco. Vocês ainda terão algum tempo juntos antes que ela se lance ao mundo, mas se prepare para viver sem ela ao seu lado o tempo todo. Quando a adolescência… Anh, desculpa, quando a beta-leitura acabar e você tiver respostas pras perguntas que você fez na lista, é hora de começar a próxima etapa.

 


Para muitos, isso aqui é suficiente: se você quer só escrever umas histórias pros seus amigos lerem, bom, na beta-leitura eles já leram, então está tudo ótimo. Mas se não, se você tiver maiores ambições, dê uma olhada nas próximas etapas.

 

Semana que vem, na parte 2, falaremos das duas últimas etapas: fazer a história ser melhor, e fazer a história brilhar. Fique ligado!

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele