As 4 Mais Importantes Lições de Escrita que Aprendi em 2017 [Thiago]

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E, pro último artigo de 2017, teremos um paralelo do que o Kaio falou no artigo passado, mas com a minha experiência.

 

2017 foi um ano louco em termos de escrita. Revisei horrores, escrevi bastante, tive várias experiências legais. Acho que, desde que comecei a levar essa coisa de escrever mais a sério, foi o ano mais produtivo que tive. E deu pra aprender muita, mas muita coisa. Muitas lições foram parecidas com o que o Kaio já disse, então compartilho algumas outras:

 

Ter um Livro Bom Não É o Suficiente (Mas Ainda É Necessário)


Esse é um bom balde de água fria pra tomar cedo. A verdade é simples: escrever um livro bom não é garantia de nada. Harry Potter, a série literária mais bem sucedida de todos os tempos, foi recusado por várias editoras antes de ser lançado. Aquela fantasia de que é só mandar seu excelente livro pra editoras que você vai ser publicado é exatamente isso: uma fantasia. Claro que pode acontecer, mas contar com isso é, de muitas formas, como contar que você vai ganhar na loteria.

 

Esse é um conceito que surgiu muito pelas nossas entrevistas. O mercado de livros no Brasil é algo ainda pequeno e arriscado; não importa o quão bom você seja, isso não é nenhuma garantia que seus livros venderão. Então, se o escritor quiser ter mais chances, ele não deve só escrever. Ele precisa fazer mais do que isso. Precisa criar uma presença na internet, precisa divulgar seu próprio trabalho, precisa achar seu público…

 

Mas isso não significa que você não deve se esforçar para criar o melhor trabalho possível. Você não pode deixar isso te desanimar. Criar o melhor livro possível pode não ser o suficiente, mas é uma necessidade.

 

Se Você Não Tem Um Nome, Não Espere Uma Colher de Chá


Talvez você tenha ouvido alguém dizer (ou dito você mesmo) algo como “o começo do meu livro é meio lento, mas logo ele engata”, ou “é só o leitor chegar na página cinquenta que a história fica muito melhor”. Vários livros famosos fazem isso, certo? E você é uma pessoa só; não tem revisor, nem capista, nem ninguém. Só o escritor, solitário. Todos que lerem o seu trabalho vão pensar isso, e ter isso em mente enquanto leem sua história. Certo?

 

Não.

 

Se o seu primeiro parágrafo tiver um erro de digitação, é alta a chance de alguém abandonar o seu livro aí mesmo. Se as suas primeiras páginas não encantarem o leitor, ele vai abandonar a sua história sem olhar pra trás.

 

“Mas por quê? Como eu falei, vários livros famosos têm começos lentos!”

 

É que você não é famoso ainda. Não, não é bem isso, não é sobre ser famoso. É que ninguém confia em você ainda.

Uma coisa curiosa sobre histórias é que há uma confiança que o leitor coloca no escritor. A confiança de que o final valerá a pena, de que aquelas coisas estranhas fazem sentido, de que, em suma, o seu livro será bom. Qualquer grande autor já tem essa confiança. Não importa quão esquisito seja o começo de um livro do Stephen King, não importa se ele tiver erros de digitação ou coisa assim, várias pessoas vão ler. Várias pessoas confiam nele.

 

Então, pelo menos no começo, você tem que ganhar essa confiança. Com inícios bem construídos, com revisões impecáveis, e histórias primorosas. Ninguém vai ter pena de você por estar começando. Ninguém vai aceitar seus erros por causa disso.

 

Você Não Precisa Fazer Todos os Tipos de Revisão de Uma Vez


Eu costumava tratar a revisão de uma história como uma coisa só: a “revisão”, o processo mágico que envolvia transformar uma escrita crua numa coerente, concisa e bem escrita. Mas na realidade isso não é uma coisa só; tem vários passos envolvidos numa revisão.

 

Você precisa resolver furos no roteiro, melhorá-lo como um todo, fazendo pequenas mudanças aqui e ali; precisa repensar na estrutura das frases, olhando friamente parágrafo por parágrafo e lendo-o múltiplas vezes, entendendo se todas as frases estão boas, se não podia ficar mais simples, mais enxuto, mais claro de alguma forma; precisa procurar todos os erros de digitação, de pontuação, espaços duplos, parágrafos de tamanho diferente…

 

Eu tentava fazer tudo isso ao mesmo tempo, e isso gerava uma confusão. O passo de procurar inconsistências na história é uma lida mais rápida, procurando os detalhes e vendo o todo, enquanto a procura por erros de digitação é bem minuciosa e lenta. Então a minha revisão não rendia bem em nenhum desses pontos. A ideia, então, foi separar em etapas claras. Primeiro resolve a história, depois corta 10%, melhora os parágrafos, faz isso mais uma ou duas vezes, depois procura erros de digitação, e aí vai. Assim eu entro em cada etapa da revisão com uma ideia clara do que deveria fazer; não só algo vago como “melhorar o livro”.

 

Numa editora esses papeis são feitos por vários profissionais, como o editor, revisor e preparador. Mas enquanto você não tiver uma, é bom você tentar fazer um pouco de tudo isso. Pode ser que não seja necessário pra um escritor publicado, mas certamente é uma forma incrível de impressionar leitores, sejam pessoas comprando seu livro auto-publicado ou editores querendo publicá-lo.

 

Aceitar Críticas Não é Só Reagir Bem a Elas


Eu costumava achar que reagia bem à críticas: não ficava bravo, não levava pro lado pessoal. Se alguém me dissesse “sua história é horrível” eu respondia com “puxa, que pena, me diz onde posso melhorar”. Ouvia com calma, anotava pontos interessantes, fazia perguntas, e tá tudo ótimo. Mas isso não é suficiente.

 

Percebi que eu não realmente aceitava as críticas negativas. Aceitar, no caso, era mais aceitar que eu tinha cometido um deslize, que poderia melhorar. Eu ouvia as sugestões que davam, mas não implementava muitas, num misto de ego e da velha desculpa de “quem sabe foi só essa pessoa que teve essa crítica; outros vão entender”.

 

Em suma, aprendi que realmente aceitar uma crítica é aceitar que você cometeu um deslize. Nem sempre, claro; algumas críticas você pode ignorar. Mas não todas. Em algumas, você tem que dar uma boa olhada no trabalho, e quem sabe mudar tudo. Tem que aceitar que você pode ser melhor, que não é culpa de ninguém além de sua. Se você não considera fazer esse tipo de coisa, você pode estar, também, não aceitando críticas.


Acho que foram mais ou menos essas as coisas que mais me marcaram esse ano. Foi um ano bem louco, cheio de histórias, ideias e planos. Mas já fiz minhas metas, preparei o teclado e os cadernos, e estou confiante que ainda há muita coisa legal a aprender em 2018.

 

Até o ano que vem, Ficcionado!

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Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele