Como Escrever Personagens Diferentes de Você Mesmo

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A coisa mais difícil sobre criar personagens, enquanto se escreve uma história, é certamente criar personagens diferentes de você mesmo.

 

Aqui é o ponto onde todo mundo já deve ter pensado algo como “ah, mas eu conheço várias pessoas diferentes de mim. É só eu pensar nelas, me inspirar nelas”. Isso é até verdade, mas veja bem: as pessoas que você conhece moldam quem você é. Você, não só como escritor mas como pessoa, é muito definido pela sua vivência. Então o problema não é escrever personagens que fazem e pensam de formas que você mesmo não faz: é criar personagens que fazem e pensam coisas que você não imagina que pessoas fariam. Como escrever um personagem mais inteligente que você? Como é possível emular uma pessoa que bolaria um plano que nunca passou pela sua cabeça?

 

Viva um pouco


Um jeito fácil de resolver isso é aumentando a sua vivência. Essa é uma das minhas coisas preferidas sobre o ofício da escrita. Como se pensa em boas histórias? Como se bola personagens diferentes? É só viver. Tentar coisas novas. Conhecer gente diferente. Sair da sua zona de conforto. Algo te dá medo? Tenta, vê o que acontece. Não tem interesse em um assunto? Faz umas aulas. Pesquisa a respeito. Descobre o universo que existe além dos seus interesses limitados. Viva um pouco.

 

Só de pensar nisso eu fico extremamente empolgado com as coisas. Mais de uma vez eu tentei fazer algo diferente e dali surgiu uma ideia para uma história. Várias vezes uma experiência ruim tornou-se só experiência, gerando novas histórias na minha mente.

 

Isso, é claro, é de certa forma um paliativo. Não resolve o problema de criar personagens que você não consegue compreender: vivendo mais você só compreende mais coisas. No fundo no fundo, todos os seus personagens são um pedaço de você, não tem como fugir disso. Um dos maiores truques para escrever pessoas muito diferentes é tentar entendê-las, procurar suas motivações, crenças e modos de pensar.

 

Mas e aí, então é impossível pro escritor escrever alguém mais inteligente ou sábio que ele? Longe disso.

 

Inteligência e Sabedoria


Uma das coisas que mais me deixavam inquieto era tentar fazer personagens mais inteligentes, mais sábios, mais carismáticos que eu mesmo. Como um mané que nem eu escreveria um gênio? Um velho sábio?

 

A resposta talvez esteja voltando um pouco: O que é uma pessoa “inteligente”? O que é inteligência? E sabedoria?

 

Segundo o Houaiss:

 

Inteligência: 1 faculdade de conhecer, compreender e aprender 2 capacidade de compreender e resolver novos problemas e conflitos e adaptar-se a novas situações (…)

Sabedoria: (…)  4 justo conhecimento das verdades 5 temperança, reflexão, sensatez 6 astúcia, manha, esperteza 7 discernimento inspirado nas coisas sobrenaturais e humanas. (…)

 

Se alguém conseguir resolver uma equação diferencial de cabeça, você supõe que essa pessoa é inteligente. Se souber muito sobre determinado assunto também. Resolver problemas, bolar soluções diferentes, e ser bom nisso: essas são as coisas que vêm à mente quando se pensa em alguém inteligente. Raciocínio, velocidade, informação.

 

Sabedoria, como as diversas definições mostram, é um tanto mais subjetivo. No meu uso e interpretação do termo, seria algo relacionado com percepção e sensibilidade, empatia talvez, não só com as pessoas mas com o mundo. É o conhecimento sobre as coisas práticas da vida, o tipo que gera aqueles conselhos que mostram-se certeiros com o tempo. É uma coisa mais emocional, mais vinda da experiência e reflexão, não tanto da lógica.

 

Ok, sabemos, então, as características que fazem alguém inteligente ou sábio. Agora digamos que você não possui nenhuma dessas características (nossa, coitado de você), e ainda quer escrever um personagem assim. O que pode ser feito?

 

Criando um cérebro melhor que o seu


Para inteligencia, vamos voltar na definição. Resolver problemas matemáticos rápido é trivial: nenhum leitor seu precisa saber que você parou de escrever e ficou meia hora pensando, enquanto, na história, o seu personagem deu a resposta instantaneamente. Conhecimento também: você define tudo que o personagem sabe. Pode escrever com a Wikipédia aberta do seu lado, e fazer o seu personagem ter todo o conhecimento que quiser.

 

Isso é mais delicado do que parece, claro. Digamos que o escritor, que não sabe nada sobre medicina, escreve um médico. Ele pode pesquisar quando necessário e fazer o médico soltar um discurso preciso sobre cardiologia, impressionando todos os outros personagens. Mas há algo mais sutil. Se algum médico ler a sua história, ele pode identificar pontos onde ocorre um problema. Onde esse leitor, que tem mais conhecimento sobre medicina do que o autor, para e pensa “um médico nunca faria isso, porque ele saberia de tal coisa”.

 

Aí realmente complica. Não se pode esperar do escritor que ele vire um especialista em todos os assuntos que seus personagens dominam. Um pouco de estudo ajuda e é muitíssimo recomendado, mas não se pode realmente cobrar que ele pense como um profissional no campo.

 

O que fazer nesse caso? Bom, ajuda aos universitários! Converse com especialistas, dê a sua história pra eles. Ouça-os com cuidado, faça perguntas, compreenda-os melhor.

 

O leitor beta é importantíssimo não só nestes casos, mas sempre que você está tentando escrever alguém muito diferente de você. Se algum personagem é de outro gênero, ou outra orientação sexual, ou diferente de alguma outra forma, dê sua história a pessoas parecidas com ele e veja como elas se sentem, se você está fazendo um bom trabalho.

 

Legal, isso resolve alguns dos pontos levantados sobre inteligência. Agora, como fazer o personagem bolar teorias corretas? Aplicar o seu conhecimento para alcançar novos resultados?

 

Você rege o universo na sua história. Qualquer teoria que surja, você define se ela funciona ou não. Assim, se um cientista criar uma teoria de viagem no tempo, é só ajustar o universo para que ele esteja certo!

 

Criando uma pessoa mais sábia


Sabedoria pode ser mais complicado. Está relacionada com cometer erros, prever consequências. Falta de sabedoria é o tipo da coisa que te faz ficar sem resposta numa discussão, para, horas depois, pensar numa réplica excelente.

 

Na definição que usei, sabedoria vem muito de experiência. E não há pesquisa que te deixe mais experiente em viver, fora, bom, viver. E aí, então, a única solução é esperar até você mesmo ser mais sábio? Não!

 

Como na inteligência, acho que a solução deriva muito do tempo.

 

As nossas decisões ruins são muitas vezes tomadas na pressa. Fazer boas decisões, boas análises rápido, é uma coisa que eu consideraria característica de alguém sábio.

 

E, escrevendo o livro, você tem tempo. Pode demorar dois dias para tomar a decisão que a personagem avó sábia tomou em um segundo.

 

Mas e a outra parte? O que diz respeito a prever consequências?

 

Bem, de novo, você na sua história é onipotente. Se o personagem sábio previu um desfecho, faça o desfecho surgir, e o conselho dele verdadeiro.

 

E mande pra pessoas lerem. Ouça-as. Aprenda com elas.

 

Tempo, pesquisa e ajuda


Essas são as três coisas que o escritor tem e o personagem não.

 

Tempo para refletir nos problemas dos personagens, tempo que eles, presos na ação, não têm. Tempo para fazê-los ter a melhor ideia possível.

 

Pesquisa para torná-los mais estudados, vividos, e com a memória que só vem com o tempo e o uso do conhecimento.

 

E ajuda de outras pessoas, seja dos leitores Beta, colocando um pouco deles nos personagens, seja do escritor, dando uma benção divina às mentes deles.

 

Todos os seus personagens são um pouco de você. Eles fazem o que você não faria, mas o que você já pensou em fazer. Eles pensam o que você despreza, mas compreende. Para fazer personagens crescidos, cresça também. Aprimore-se. Abra a cabeça.

 

E é isso que eu tentei fazer um pouco com você, ficcionado, caso você nunca tenha pensado nessas coisas. Se deu pra entender alguma coisa, dá um toque, escreve aí algo que eu não pensei, e vamos nós dois nos tornar personagens melhores.

Seguir Thiago Loriggio:

Nascido em Floripa, graduando em engenharia mecânica (um curso que claramente tem grande foco em contar histórias), criativo inconsolável. Tem poucas coisas que Thiago gosta mais do que bolar alguma coisa, seja ela uma história, um projeto, um jogo, uma biografia para rodapé de site. Quando não está rabiscando no seu caderno quadriculado, anotando ideias, está lendo, jogando algo, ouvindo gêneros conflitantes de música (de The Cribs a Nujabes a Bach numa playlist só), ou percebendo que tem interesses demais. Tem um prazer especial em escrever, analisar coisas, e falar de si na terceira pessoa.Conheça o trabalho dele